O ódio precisa ser civilizado: entre o impulso e o ato, a aposta é no intervalo

Civilizar nunca foi deixar de sentir, e sim aprender a não obedecer a todo impulso
O artigo resume o processo civilizador descrito por Norbert Elias como contenção, não eliminação, da agressividade.
Mark

Qual é a tese central do artigo?

Mimi

Que o ódio tem raízes biológicas e políticas, mas não é destino. O que a civilização construiu foi um intervalo entre sentir e agir.

Mark

E como o texto explica que o outro vire alvo?

Mimi

Por etapas: o outro deixa de ser uma mente complexa e vira categoria, depois rótulo, depois alvo. É o colapso da mentalização, conceito de Peter Fonagy.

Luke

Vale notar que é um artigo de opinião. Os autores citados são usados como apoio, e o texto não apresenta dados novos nem mede nada.

Mark

Então as redes sociais entram como argumento, não como evidência?

Mimi

Isso. O texto aponta anonimato, distância e recompensa por visibilidade como enfraquecedores da contenção, mas não traz números.

Luke

Exato. Que a mediação baseada em mentalização funcione entre grupos antagônicos é proposta do autor; o texto não cita resultados.

Mark

Qual a distinção que mais pesa?

Mimi

Entre liberdade de expressão e autorização para desumanizar. Falar tudo o que se sente não é, para o autor, sinônimo de autenticidade.

Luke

E o texto não diz quem seria responsável por reconstruir o intervalo, só que é tarefa de cada geração.

  • O ódio acende circuitos rápidos no cérebro e oferece ao grupo uma identidade que parece dar sentido à vida.
  • Medo, intuições morais e redes sociais transformam o outro primeiro em categoria e depois em alvo.
  • Instituições, leis e autocontrole já conseguiram conter a agressividade, mas essa conquista nunca é definitiva.
  • Nas redes, impulso virou virtude e a agressividade verbal passa por sinceridade, empurrando o debate para a desumanização.
  • A saída proposta é reconstruir a mentalização e a mediação, recuperando a capacidade de imaginar a mente do adversário.

Num tempo em que o ódio parece ganhar voz e recompensa, este artigo de opinião publicado na Folha de S.Paulo, no fim de outubro de 2026, lembra algo que a história já ensinou muitas vezes: o ódio não é apenas um desvio, mas uma força enraizada na biologia, na necessidade de pertencer e no medo que sociedades aprenderam a nomear e a perseguir. Ao atravessar a neurociência, a filosofia política e a psicanálise, o texto sustenta que a civilização nunca foi a eliminação dessas paixões, e sim a construção paciente de instituições e hábitos que nos permitem sentir sem agir de imediato. A pergunta que fica é se ainda saberemos preservar esse intervalo entre o impulso e o ato.

O artigo de opinião publicado no fim de outubro de 2026 na seção Tendências/Debates da Folha parte de uma constatação incômoda: a humanidade odeia e, em certas circunstâncias, parece encontrar prazer nisso. O inimigo organiza o mundo, traça fronteiras e oferece uma resposta simples a quem somos. Para o autor, essa lógica tem raízes antigas, nas divisões rápidas entre aliados e ameaças que ajudaram nossa sobrevivência, e também no desejo de pertencer.

A política amplia esse quadro. Hannah Arendt mostrou como solidão e desenraizamento favorecem movimentos que oferecem identidade e uma explicação total da realidade, em que o inimigo dá coesão ao grupo. Por trás disso costuma estar o medo, que sociedades aprenderam a projetar em estrangeiros, hereges e epidemias. Dar rosto ao temor encurta a distância entre angústia e perseguição.

A moral também não protege por si só. Sentimos primeiro e justificamos depois, e a razão pode virar advogada de convicções que deveria examinar. Quem odeia pode construir uma ética coerente em que excluir ou agredir parece dever. Ainda assim, o texto lembra que a civilização enfrentou esse problema muito antes da neurociência. Norbert Elias descreveu como leis, costumes e interdições transformaram coerção externa em autocontrole. Civilizar, afinal, não é deixar de sentir impulsos, mas aprender que não é preciso obedecer a todos.

As redes sociais, com distância, anonimato e recompensa pela visibilidade, enfraquecem esses freios. Confundir falar o que se pensa com autenticidade e tratar a agressividade como prova de sinceridade alimenta o ciclo. Liberdade de expressão, lembra o autor, não se confunde com autorização para desumanizar.

A saída passa pela saúde mental. Peter Fonagy chamou de mentalização a capacidade de entender o outro como alguém com pensamentos, medos e desejos, capacidade que pode colapsar sob hostilidade intensa. Reconstruí-la é o caminho da mediação, que não busca concordância, mas a coragem de discordar com curiosidade. A conclusão é que uma humanidade sem medo ou agressividade existe apenas na fantasia; civilizar o ódio é preservar, a cada geração, o intervalo entre impulso e ato, devolvendo ao outro a condição de humano.

Um artigo de opinião publicado na seção Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, no fim de outubro de 2026, parte de uma constatação incômoda: a humanidade odeia e, em certas circunstâncias, parece gostar disso. O texto argumenta que o ódio produz excitação, identidade e pertencimento. O inimigo organiza o mundo, traça fronteiras e dá uma resposta sedutora a quem somos: aqueles que não são eles.

O autor recorre ao primatólogo Robert Sapolsky, para quem a divisão entre "nós" e "eles" se apoia em processos cerebrais rápidos, anteriores à elaboração consciente. Do ponto de vista evolucionista, reconhecer aliados e ameaças ajudou na sobrevivência. O ódio pode ainda ativar circuitos de recompensa quando a derrota ou humilhação do adversário é vivida como vitória do próprio grupo. Mas, ressalta o texto, predisposição não é destino.

A dimensão política vem de Hannah Arendt, que, ao estudar o totalitarismo, notou como solidão, desenraizamento e perda de um mundo compartilhado favorecem pertencimentos que oferecem identidade e uma explicação total da realidade. O inimigo ganha função: dá coesão ao grupo e sentido ao ressentimento. Na raiz, frequentemente, está o medo. O historiador Jean Delumeau mostrou como sociedades deram nomes e rostos aos seus temores, como estrangeiros, hereges, bruxas e epidemias. O medo é humano, mas seu objeto pode ser construído socialmente, e dar rosto ao que tememos encurta a distância entre angústia e perseguição.

A moral, diz o artigo, não protege necessariamente. Citando o psicólogo social Jonathan Haidt, o texto lembra o peso de intuições e emoções nos julgamentos morais: muitas vezes sentimos primeiro e argumentamos depois, e a razão pode virar advogada das convicções em vez de examiná-las. Quem odeia pode erguer uma moral coerente em que excluir, humilhar ou agredir vira dever, porque o outro passa a ameaçar o bem, a família, a pátria, a religião ou a identidade.

A civilização enfrentou o problema muito antes da neurociência. O sociólogo Norbert Elias descreveu o processo civilizador como a lenta construção de mecanismos de contenção: leis, instituições, costumes e interdições que não eliminaram a agressividade, mas limitaram sua expressão. Parte da coerção externa virou autocontrole. Civilizar, escreve o autor, nunca significou deixar de sentir impulsos, e sim aprender que não é preciso obedecer a todos. Steven Pinker oferece esperança, ao mostrar que instituições, direitos, normas e mudanças culturais podem conter a violência, conquista que, porém, não é natural nem irreversível.

As redes sociais expõem essa fragilidade. Distância física, anonimato, pertencimento grupal e recompensa pela visibilidade enfraquecem os freios. "Falar o que pensa" virou virtude, como se converter impulso em palavra de imediato fosse sinônimo de autenticidade, e na política a agressividade verbal pode funcionar como certificado de sinceridade. O texto afirma que liberdade de expressão e autorização para desumanizar são coisas distintas.

O campo da saúde mental, argumenta o autor, tem contribuição a dar. O psicanalista Peter Fonagy desenvolveu o conceito de mentalização: a capacidade de entender a si e aos outros como pessoas com pensamentos, emoções, medos, desejos e intenções. Sob ameaça e hostilidade intensas, ela pode colapsar. O outro deixa de ser uma mente complexa e vira categoria; a categoria vira rótulo; o rótulo pode virar alvo.

A mentalização, sugere o artigo, é base para práticas de mediação entre grupos antagônicos. Mediar não é produzir concordância, mas recuperar a possibilidade de imaginar a mente alheia sem aderir às suas ideias, discordando com curiosidade e sustentando conflitos sem convertê-los em guerra moral. Uma das tarefas da promoção da saúde mental seria transformar pertencimentos organizados contra alguém em capacitações para conviver com alguém.

A conclusão é que uma humanidade sem medo, hostilidade ou agressividade só existe na fantasia. A conquista civilizatória é criar um intervalo entre o que sentimos e o que fazemos. Esse processo nunca terminou e precisa ser reconstruído a cada geração: civilizar o ódio é preservar o intervalo entre impulso e ato, medo e inimigo, certeza e dúvida, devolvendo ao outro a condição de humano.

A conquista civilizatória é criar um intervalo entre aquilo que sentimos e aquilo que fazemos.
— Autor do artigo de opinião, Folha de S.Paulo
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