A psicanálise nasceu do tratamento de mulheres com sintomas histéricos que médicos europeus não compreendiam, mas Freud confessou ao final da vida não ter entendido a psique feminina. O corpo feminino reprodutor é alvo de fantasias irrealistas e controle cultural em quase todas as sociedades, refletindo o assombro humano diante dos mistérios da criação e existência.
O ódio às mulheres é tema central da psicanálise
Deusas decaídas que não nos entregam a resposta mais fundamental
Por que a psicanálise começou justamente com mulheres? Havia algo especial naqueles sintomas histéricos?
Freud as escutou quando ninguém mais fazia. Os médicos ridicularizavam o que não compreendiam, mas ele reconheceu que havia algo ali digno de atenção. O problema é que depois de décadas, ele próprio admitiu não ter entendido a psique feminina.
Mas isso é uma confissão importante ou uma falha metodológica? Se o fundador não conseguiu, talvez o próprio projeto estivesse errado desde o início.
Talvez. Ou talvez o problema seja que Freud procurava respostas onde não havia respostas para dar. O corpo feminino não é um código a ser quebrado.
Então o ódio às mulheres vem dessa frustração? De descobrir que elas não têm as respostas que esperamos?
Exatamente. Procuramos nelas uma chave para o sentido da existência, e quando descobrimos que elas também estão perdidas, o ressentimento vira ódio.
Mas o texto diz que isso vale para todos os humanos — que ninguém tem respostas sobre o desejo. Por que o ódio se direciona especificamente às mulheres?
Porque elas nos geraram. Porque o corpo que reproduz outros corpos carrega uma responsabilidade simbólica que o corpo masculino não carrega. Elas são deusas que falharam em nos salvar.
E como isso se manifesta politicamente? O exemplo da eleição no final é provocador.
É um convite para inverter o gênero e questionar nossas suposições. Se duvidamos do voto feminino, por que não duvidamos do masculino, que historicamente tem feito escolhas piores para a humanidade?
Mas isso é especulação. O texto não oferece dados sobre as escolhas eleitorais de homens versus mulheres. É um argumento retórico, não uma análise.
Verdade. É um convite para pensar, não uma conclusão comprovada.
O Pulso
- Freud confessou ao final da vida não ter compreendido a psique feminina
- O manual 'Malleus Maleficarum' de 1487 buscava o demônio nas partes íntimas da mulher
- O controle do corpo feminino aparece em quase todas as culturas humanas, segundo a antropóloga Françoise Héritier
A psicanálise nasceu do tratamento de mulheres com sintomas histéricos que médicos europeus não compreendiam, mas Freud confessou ao final da vida não ter entendido a psique feminina. O corpo feminino reprodutor é alvo de fantasias irrealistas e controle cultural em quase todas as sociedades, refletindo o assombro humano diante dos mistérios da criação e existência.
Artigo analisa como o ódio às mulheres é tema fundamental da psicanálise, desde Freud até hoje, explorando as raízes históricas do ressentimento masculino diante do poder reprodutivo feminino.
A psicanálise nasceu de um paradoxo que ainda ecoa. No final do século 19, mulheres chegavam aos consultórios de médicos europeus com sintomas que ninguém sabia explicar — convulsões, paralisias, afonia, tudo aquilo que chamavam de histeria. Enquanto os colegas ridicularizavam o que não compreendiam, Freud fez algo simples e radical: escutou. Décadas de teorização se seguiram. Palavras como inconsciente, negação e recalque entraram no vocabulário comum. Mas no final de sua vida, o próprio fundador da psicanálise admitiu uma coisa desconcertante: nunca havia realmente compreendido a psique feminina.
Essa confissão aponta para algo mais profundo que uma lacuna teórica. A mulher que nos gera, que coloca nosso corpo no mundo e frequentemente nos introduz à linguagem, tornou-se alvo de fantasias e expectativas que não conseguem se sustentar. O corpo que reproduz outros corpos permanece misterioso até para quem o habita. Mulheres não entendem mais do que qualquer outra pessoa os segredos da criação. Elas se espantam com a menstruação, a concepção, o parto, a amamentação — tanto quanto aqueles que não vivem essas experiências. No máximo, se resignam, se acostumam ou se encantam.
O controle do corpo feminino aparece em quase todas as culturas humanas, conforme observou a antropóloga Françoise Héritier. Subjugar e idolatrar, enaltecer e cercear são formas paradoxais de lidar com o assombro diante de perguntas que ninguém consegue responder: de onde viemos, para onde vamos. O corpo da mulher virou uma pista falsa nessa busca. O manual de inquisidores "Malleus Maleficarum", de 1487, oferece um exemplo perturbador: a busca pelo demônio nas partes íntimas da mulher. O corpo interditado ao monge pudico, sob o pretexto da fé, tornava-se seu campo de exame obsessivo. Todos nós carregamos um pouco dessa mesma tentação — procurar naquelas que nos puseram no mundo uma chave para o sentido da nossa existência.
O ressentimento emerge quando se descobre que as detentoras de tamanho poder nada sabem sobre ele. Esse ressentimento se revela como ódio ao feminino. Como deusas insolentes que criam o mundo e se recusam a responder pelo seu feito, as mulheres nos lembram que somos seres desamparados diante da absoluta falta de respostas sobre quem somos. Freud se frustrou ao tentar mapear o desejo feminino, mas esqueceu de algo crucial: também não se pode saber sobre o desejo masculino. A pergunta sobre o desejo se coloca para todos os humanos. Somos mamíferos condenados à autoconsciência e a todas as mazelas que dela decorrem. Não haveria razão para supor que com a mulher seria diferente.
O desejo é o artifício que usamos para permanecer ligados à vida, mesmo sabendo que ela acaba. É porque temos essa espada sobre a cabeça que nos resta almejar realizações que nos satisfaçam parcialmente e nos mantenham no jogo. O ódio às mulheres — essas deusas decaídas e mundanas que não nos entregam a resposta mais fundamental — é tema central da psicanálise. É importante saber como ele se apresenta em cada época e circunstância, mapeá-lo e enfrentá-lo em todas as suas manifestações. Na dúvida sobre se um gesto é misógino, vale inverter o gênero e ver no que dá. Nesta eleição, por exemplo, que tal questionarmos o voto masculino em vez do feminino, com base no fato inconteste de que os homens não têm feito boas escolhas para a humanidade em geral?
Citações Notáveis
O ódio às mulheres, essas deusas decaídas e mundanas, que não nos entregam a resposta mais fundamental, é tema central da psicanálise— Vera Iaconelli, colunista da Folha de S.Paulo