Mundo aguarda "super El Niño", mas Portugal escapará aos seus efeitos

É praticamente zero a relação entre El Niño e o clima português
Os dados do IPMA de 45 anos mostram correlação abaixo de 0,1 entre o fenómeno e temperaturas ou precipitação em Portugal.

Enquanto o planeta antecipa um potencial 'super El Niño' com consequências severas para regiões tropicais, Portugal permanece numa posição de relativa indiferença climática face ao fenómeno. Quarenta e cinco anos de dados do IPMA revelam uma correlação quase nula entre a intensidade do El Niño e os padrões de temperatura e precipitação no território continental português. A geografia, mais do que qualquer política ou preparação, é aqui o escudo silencioso — e é a Oscilação do Atlântico Norte, não o Pacífico equatorial, que continua a ditar o tempo que os portugueses vivem.

  • Organismos internacionais como a NOAA e a Organização Meteorológica Mundial lançaram alertas para um episódio de El Niño potencialmente histórico, com secas, inundações e ondas de calor à escala global.
  • A correlação entre o índice ENSO e o clima português situa-se abaixo de 0,1 — um valor que os próprios meteorologistas do IPMA descrevem como 'praticamente zero', mesmo quando testado em cidades como Porto, Lisboa e Faro.
  • A influência do El Niño concentra-se nas latitudes tropicais e equatoriais, deixando a Europa — e Portugal em particular — fora da sua zona de impacto direto.
  • Existe uma possibilidade teórica de influência indireta através da corrente de jato, mas os especialistas sublinham que se trata de 'casos muito particulares' sem correlação evidente.
  • A Oscilação do Atlântico Norte permanece o verdadeiro regulador do clima europeu, tornando o alarme global em torno do El Niño climaticamente irrelevante para Portugal.

O mundo prepara-se para um episódio de El Niño que poderá figurar entre os mais intensos do século — com secas, inundações e calor extremo à espreita para vastas regiões tropicais. Mas Portugal, segundo o IPMA, pode ficar de fora desta perturbação global.

Uma análise de 45 anos de dados climáticos portugueses, conduzida pelo Instituto Português do Mar e da Atmosfera, chegou a uma conclusão surpreendente pela sua clareza: a correlação entre o índice ENSO e os registos de temperatura e precipitação em Portugal continental é inferior a 0,1. "É praticamente zero", resume a meteorologista Margarida Belo-Pereira. Os testes foram repetidos para o Porto, Lisboa e Faro, com resultados idênticos.

A explicação é geográfica. O El Niño amplifica padrões climáticos sobretudo nas latitudes tropicais e equatoriais — o Sudeste Asiático, a Oceânia, as Américas próximas do Equador. A Europa fica fora desta zona de influência direta. Alguns especialistas admitem uma possível perturbação indireta através da corrente de jato, mas o climatologista Mário Marques e a própria Belo-Pereira reconhecem que se tratam de casos pontuais, sem padrão consistente.

O que verdadeiramente molda o clima português é a Oscilação do Atlântico Norte — um fenómeno regional com muito maior peso nos invernos europeus. Enquanto o mundo tropical se prepara para possíveis extremos, Portugal pode continuar a olhar para o Atlântico, e não para o Pacífico, para entender o tempo que aí vem.

O mundo inteiro se prepara para um fenómeno climático potencialmente devastador. Secas prolongadas, inundações súbitas, ondas de calor extremas — tudo isto pode estar a caminho para várias regiões do planeta nos próximos meses. Mas há um canto do globo onde os meteorologistas garantem que a vida seguirá praticamente inalterada: Portugal.

O El Niño regressou oficialmente ao Oceano Pacífico, e desta vez os especialistas internacionais suspeitam que possa transformar-se num dos episódios mais intensos das últimas décadas. A Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos e a Organização Meteorológica Mundial já lançaram os seus alertas. Mas quando se trata de Portugal, os investigadores do Instituto Português do Mar e da Atmosfera têm uma mensagem tranquilizadora: não se preocupem.

Uma análise minuciosa de 45 anos de dados climáticos portugueses revelou algo surpreendente. O IPMA comparou o índice ENSO — a medida internacional usada para quantificar a intensidade dos episódios de El Niño — com os registos de temperatura e precipitação recolhidos em Portugal continental desde 1980. O resultado foi inequívoco: praticamente nenhuma relação. Os números falam por si. Enquanto os especialistas consideram uma correlação abaixo de 0,5 como muito fraca, os valores encontrados em Portugal situam-se abaixo de 0,1. "É praticamente zero", resume Margarida Belo-Pereira, meteorologista do IPMA. Os mesmos testes foram repetidos para as estações do Porto, Lisboa e Faro, e as conclusões mantêm-se idênticas.

A razão é geográfica e simples. O El Niño funciona como um amplificador climático, mas apenas em certas latitudes. Os seus efeitos concentram-se sobretudo nas regiões tropicais e equatoriais — o Sudeste Asiático, a Oceânia, grande parte do continente americano, especialmente perto do Equador. Aí, o aquecimento anormal das águas do Pacífico altera significativamente os padrões de chuva e temperatura. Noutras zonas, favorece condições mais húmidas; noutras ainda, aumenta o risco de seca. Mas a Europa surge praticamente fora desta zona de influência direta.

Alguns meteorologistas admitem, ainda assim, uma possível influência indireta. A corrente de jato — aquele rio de ar que circula na atmosfera — pode oscilar sob a influência do El Niño, e essas oscilações poderiam gerar alguma instabilidade atmosférica no Hemisfério Norte. Mário Marques, climatologista, explica que "a corrente de jato pode oscilar e depende da forma como entra no território americano e depois como sai. Esses desequilíbrios na atmosfera poderão originar mais instabilidade". Margarida Belo-Pereira reconhece que existem estudos que tentam estabelecer uma ligação entre o Pacífico e a Europa através da propagação do sinal atmosférico pela América do Norte e pelo Atlântico, mas sublinha que se tratam de "casos muito particulares" e que "a correlação não é muito evidente".

O que realmente importa para o clima português é a Oscilação do Atlântico Norte, um fenómeno regional que tem muito mais peso na determinação do estado do tempo europeu durante o inverno. Enquanto o mundo tropical se prepara para possíveis extremos climáticos, Portugal pode continuar a depender dos seus padrões atmosféricos habituais.

O El Niño em si é um fenómeno bem compreendido. Trata-se da fase quente do ciclo ENSO, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Pacífico equatorial. Este aquecimento altera a circulação atmosférica global e influencia precipitação e temperatura em várias regiões, especialmente nas latitudes tropicais. Os ciclos ocorrem entre dois e sete anos, e normalmente atingem o seu pico durante o outono ou inverno do Hemisfério Norte — daí o nome El Niño, em referência ao nascimento do Menino Jesus em dezembro. Quando a anomalia da temperatura da superfície do mar ultrapassa os dois graus Celsius, os especialistas classificam-no como um episódio muito forte, popularmente conhecido como "super El Niño". As previsões internacionais apontam para a possibilidade de o atual episódio vir a integrar a lista dos mais intensos desde meados do século XX. As águas do Pacífico já começaram a aquecer, e a tendência é de intensificação até ao final do ano. Mas para Portugal e para a Europa, a existência de um eventual "super El Niño" não significa automaticamente mais calor, mais chuva ou mais seca.

A correlação do índice ENSO com qualquer uma das variáveis é praticamente inexistente, não se podendo afirmar que o fenómeno El Niño esteja relacionado com padrões específicos de temperatura e precipitação em Portugal Continental
— Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA)
Não é expectável uma grande correlação na Europa
— Margarida Belo-Pereira, meteorologista do IPMA
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Porque é que o El Niño afeta tanto o Pacífico e tão pouco a Europa?

Model

É uma questão de geografia e de como a atmosfera funciona. O El Niño aquece as águas do Pacífico equatorial, e esse calor altera os padrões de vento e chuva nas regiões próximas. Mas a Europa está demasiado longe. Os efeitos dissipam-se antes de chegarem até nós.

Inventor

Mas não há nenhuma forma de o fenómeno nos afetar indiretamente?

Model

Há estudos que sugerem uma possível influência através da corrente de jato — aquele rio de ar que circula na atmosfera. Mas é muito indireto e incerto. A Oscilação do Atlântico Norte, que é um fenómeno local, tem muito mais impacto no nosso clima.

Inventor

Como é que os investigadores chegaram à conclusão de que não há relação?

Model

Compararam 45 anos de dados. Pegaram no índice ENSO, que mede a intensidade do El Niño, e procuraram correlações com as temperaturas e chuvas registadas em Portugal desde 1980. Os números foram praticamente zero.

Inventor

Zero? Isso parece muito definitivo.

Model

É. Os especialistas consideram uma correlação abaixo de 0,5 como muito fraca. Aqui, os valores estão abaixo de 0,1. É praticamente inexistente.

Inventor

Então, quando o mundo fala de um "super El Niño", Portugal pode ignorar completamente?

Model

Sim. Pelo menos no que diz respeito aos efeitos diretos do fenómeno. Portugal continua sujeito aos seus padrões climáticos habituais, que são determinados por outros fatores muito mais próximos e relevantes.

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