Pode evoluir para um quadro grave em poucas horas
Em meio ao retorno das crianças às escolas após a pandemia, um estudo clínico de fase 3 revela que a vacina MenQuadfi oferece proteção mais robusta e duradoura contra a meningite meningocócica em bebês — uma doença que, embora rara, pode ceifar vidas saudáveis em poucas horas. A pesquisa, publicada em maio de 2022, reacende o debate sobre cobertura vacinal no Brasil, onde o meningococo C responde por 80% dos casos e o tipo W avança com crescente agressividade. A ciência, aqui, não apenas anuncia um avanço imunológico, mas lembra que a proteção coletiva é uma escolha que se renova a cada geração.
- A meningite meningocócica pode matar crianças saudáveis em poucas horas, e o retorno às escolas pós-pandemia eleva o risco de novos surtos no Brasil.
- A vacina MenQuadfi manteve 100% de anticorpos em crianças três anos após a vacinação, contra apenas 60% da quadrivalente convencional — uma diferença que pode salvar vidas.
- Durante a pandemia, o isolamento reduziu em dois terços os casos de meningite, mas esse efeito protetor se dissipa com a reabertura, deixando crianças não vacinadas especialmente vulneráveis.
- O Brasil já autorizou o uso da MenQuadfi em maiores de 12 meses, mas sua incorporação ao calendário público ainda pode ampliar significativamente a cobertura vacinal em bebês.
- Especialistas alertam que manter altas taxas de vacinação é urgente agora, antes que lacunas imunológicas acumuladas nos últimos dois anos se convertam em surtos.
Um estudo clínico de fase 3, publicado em maio de 2022 na revista Human Vaccines and Immunotherapeutics, testou a vacina MenQuadfi — desenvolvida pela Sanofi — em 701 bebês entre 12 e 23 meses, recrutados em 29 centros na Alemanha, Dinamarca e Finlândia. A pesquisa comparou o novo imunizante com uma vacina monovalente contra o meningococo C e com a quadrivalente da Pfizer, que protege contra os tipos A, C, W e Y.
Os resultados mostraram que a MenQuadfi induziu resposta imune similar à monovalente e superior à quadrivalente já em uso. Mais revelador foi o acompanhamento de longo prazo: três anos depois, 100% das crianças vacinadas com a MenQuadfi ainda apresentavam anticorpos protetores, enquanto apenas 60% das que receberam a quadrivalente convencional mantinham essa proteção. Isabelle Bertrand, da Sanofi Europa, destacou ser este o primeiro estudo a demonstrar superioridade de uma vacina quadrivalente sobre uma monovalente em crianças não previamente imunizadas.
A relevância para o Brasil é direta: o meningococo C causa cerca de 80% dos casos de meningite meningocócica invasiva no país, e o tipo W tem crescido em agressividade na última década. O calendário público brasileiro já oferece a monovalente C em três doses na infância e a quadrivalente para adolescentes desde 2020. A MenQuadfi possui autorização de uso no Brasil para maiores de 12 meses, mas ainda não integra o programa nacional de imunização infantil.
O pediatra Marco Aurélio Sáfadi, da Santa Casa de São Paulo, ressalta que a durabilidade da resposta imune da nova vacina pode representar maior eficácia real em bebês menores de dois anos. Embora a meningite registre cerca de mil casos anuais no período pré-pandemia, seu impacto é desproporcional ao número: em 2022, onze crianças e adolescentes morreram no Brasil. A pandemia reduziu os casos em dois terços pelo isolamento, mas o retorno às escolas já sinaliza recrudescimento — tornando urgente recuperar a cobertura vacinal das crianças que ficaram para trás nos últimos dois anos.
Um novo imunizante contra meningite meningocócica demonstrou proteção robusta em bebês menores de dois anos que nunca haviam recebido vacinação prévia contra a doença. O estudo clínico de fase 3, publicado em maio na revista Human Vaccines and Immunotherapeutics, comparou a vacina MenQuadfi (MenACWY-TT), desenvolvida pela Sanofi, com duas formulações já em circulação: uma monovalente contra o tipo C e outra quadrivalente da Pfizer que protege contra os tipos A, C, W e Y.
A meningite meningocócica é uma inflamação da meninge, a membrana que envolve o sistema nervoso e o cérebro. Os sintomas iniciais costumam ser genéricos — febre, fraqueza, vômito, dor de cabeça — mas a doença pode evoluir para formas graves em poucas horas, levando a hospitalização e morte. No Brasil, o meningococo C é responsável por aproximadamente 80% dos casos de meningite meningocócica invasiva, embora o tipo W tenha apresentado aumento significativo na última década com maior agressividade.
Os pesquisadores recrutaram 701 bebês com idade entre 12 e 23 meses em 29 centros distribuídos pela Alemanha, Dinamarca e Finlândia. Do total, 230 receberam a MenQuadfi, 232 a vacina quadrivalente da Pfizer e 239 a monovalente contra o tipo C. Amostras de sangue foram coletadas antes da vacinação e 30 dias depois para medir a produção de anticorpos. A MenQuadfi induziu uma resposta imune similar à da vacina monovalente já existente e superior à da quadrivalente em uso. Mais importante: quando avaliadas três anos depois, 100% das crianças vacinadas com a MenQuadfi ainda apresentavam anticorpos, enquanto apenas 60% daquelas que receberam a quadrivalente mantinham essa proteção.
Segundo Isabelle Bertrand, vice-diretora de assuntos médicos de vacinas na Sanofi Europa, este é o primeiro estudo que demonstrou uma vacina meningocócica quadrivalente com resposta imune superior em crianças não previamente imunizadas quando comparada a uma vacina monovalente disponível. A inovação reside na resposta imune mais potente contra o tipo C, o principal causador da doença no Brasil. A vacina também se mostrou segura, sem ocorrência de efeitos adversos graves.
Na Europa, onde os testes foram realizados, a situação epidemiológica levou a mudanças nas estratégias de imunização. O Reino Unido e a Holanda enfrentaram surtos de uma forma mais agressiva do meningococo C, com proteção populacional reduzida devido ao escape vacinal. Como resposta, os programas nacionais de imunização passaram a adotar a vacina monovalente C nos primeiros dois anos de vida, seguida pela forma quadrivalente na adolescência.
No Brasil, o Programa Nacional de Imunização oferece a vacina monovalente C no calendário de rotina infantil com três doses — aos três, cinco e 12 meses — sendo a última uma dose de reforço. A vacina contra o meningococo B é disponibilizada apenas na rede privada. A forma quadrivalente é ofertada na rede pública para adolescentes de 11 e 12 anos desde 2020. A MenQuadfi já possui autorização para uso em crianças maiores de 12 meses no Brasil.
Marco Aurélio Sáfadi, pediatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, destaca que a nova vacina oferece uma resposta imune muito robusta e mais duradoura. Essa durabilidade pode indicar eficácia maior em bebês menores de dois anos contra o tipo C. Embora a meningite seja rara — cerca de mil casos por ano no período pré-pandemia — ela causa medo justificado: pode evoluir para quadros graves em poucas horas em crianças saudáveis, sem condições prévias. Em 2022, foram registrados 11 óbitos em menores de 19 anos no Brasil; em 2021, nove mortes; em 2020, 51.
Durante a pandemia, as doenças de transmissão respiratória, incluindo a meningite, tiveram redução de aproximadamente dois terços dos casos normalmente observados, devido ao isolamento e ao afastamento das crianças das escolas. Com o retorno às atividades presenciais, há recrudescência de casos. Sáfadi enfatiza a importância de manter taxa de cobertura vacinal elevada, especialmente para crianças que não foram vacinadas nos últimos dois anos, a fim de evitar novos surtos.
Notable Quotes
É o primeiro estudo que demonstrou uma vacina meningocócica quadrivalente tendo resposta imune superior em crianças não previamente imunizadas em comparação com uma vacina monovalente disponível— Isabelle Bertrand, vice-diretora de assuntos médicos de vacinas na Sanofi Europa
Na maioria das vezes, ela acomete crianças saudáveis, sem nenhuma condição prévia, e pode evoluir para um quadro grave com internação e até risco de vida em poucas horas— Marco Aurélio Sáfadi, pediatra e presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa vacina é considerada inovadora se já existem outras contra meningite?
A diferença está na durabilidade e na potência. A MenQuadfi mantém 100% de anticorpos após três anos, enquanto a quadrivalente convencional cai para 60%. Além disso, ela oferece proteção superior especificamente contra o tipo C, que causa 80% dos casos no Brasil.
E por que o tipo C é tão importante se existem outros tipos?
Porque é o mais prevalente aqui. Mas o tipo W está crescendo e é mais agressivo. A vacina protege contra os quatro principais tipos — A, C, W e Y — então oferece uma cobertura mais ampla com uma única dose.
Os bebês precisam de reforço?
O estudo acompanhou as crianças por três anos e elas mantiveram a proteção. Mas a estratégia de reforço ainda dependerá de como os programas de imunização decidirem incorporar a vacina. No Brasil, atualmente a monovalente C é dada nos primeiros dois anos e a quadrivalente na adolescência.
Qual é o risco real? A meningite é tão comum assim?
Não é comum — cerca de mil casos por ano — mas é devastadora. Pode matar uma criança saudável em poucas horas. Em 2022, foram 11 óbitos em menores de 19 anos. Por isso, mesmo sendo rara, a vacinação é crítica.
A pandemia afetou a incidência?
Muito. Os casos caíram dois terços durante o isolamento porque é uma doença respiratória. Agora, com as crianças voltando à escola, há recrudescência. É o momento certo para ampliar a proteção.
Essa vacina vai mudar o calendário de vacinação no Brasil?
Ainda é cedo dizer. A MenQuadfi já tem autorização para maiores de 12 meses, mas a decisão sobre incorporação ao programa público dependerá de análise de custo-benefício e prioridades do Ministério da Saúde.