Pode evoluir para um quadro grave em poucas horas
Estudo clínico de fase 3 comprovou que MenQuadfi induz resposta imune superior contra meningococo C comparada a vacinas mono e tetravalentes já disponíveis. Meningococo C causa 80% dos casos de meningite meningocócica no Brasil, mas aumento de casos pelo tipo W mais agressivo tem sido observado na última década.
- Estudo clínico de fase 3 com 701 bebês de 12 a 23 meses em Alemanha, Dinamarca e Finlândia
- Meningococo C causa 80% dos casos de meningite meningocócica no Brasil
- 100% das crianças vacinadas com MenQuadfi mantinham anticorpos após três anos, contra 60% com vacina quadrivalente
- 11 óbitos por meningite em menores de 19 anos registrados no Brasil em 2022
Vacina MenQuadfi demonstrou alta proteção contra quatro tipos de meningococo em bebês de até dois anos, com resposta imune superior à vacina monovalente existente, especialmente contra o tipo C, principal causador da doença no Brasil.
Uma vacina experimental contra meningite meningocócica demonstrou proteção robusta em bebês pequenos, oferecendo defesa contra os quatro tipos de bactéria mais comuns nessa faixa etária. O imunizante, chamado MenQuadfi, foi testado em 701 bebês entre 12 e 23 meses em centros de pesquisa na Alemanha, Dinamarca e Finlândia — crianças que nunca haviam recebido qualquer vacina meningocócica anterior. Os resultados, publicados em maio de 2022 na revista especializada Human Vaccines and Immunotherapeutics, mostraram que a nova fórmula induziu uma resposta imune não apenas comparável à vacina monovalente já disponível contra o meningococo C, mas superior a ela e também superior à vacina quadrivalente da Pfizer que protege contra os tipos A, C, W e Y.
O que torna essa descoberta particularmente relevante para o Brasil é o papel do meningococo C na epidemiologia local. Esse tipo de bactéria é responsável por aproximadamente 80% dos casos de meningite meningocócica invasiva no país. Contudo, nos últimos dez anos, observou-se um aumento significativo na incidência de casos causados pelo tipo W, uma variante mais agressiva. A meningite meningocócica provoca inflamação na meninge, a membrana que envolve o sistema nervoso e o cérebro. Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos — fraqueza, febre, vômito, dor de cabeça — mas a doença pode evoluir rapidamente para formas graves que exigem hospitalização e podem resultar em morte.
No estudo clínico de fase 3, 230 bebês receberam a MenQuadfi, 232 receberam a vacina quadrivalente da Pfizer e 239 receberam a monovalente contra o tipo C. Amostras de sangue foram colhidas antes da vacinação e 30 dias depois para medir a produção de anticorpos. A farmacêutica Sanofi, desenvolvedora do imunizante, destacou que a MenQuadfi induziu uma resposta imune superior especificamente contra o tipo C em comparação com ambas as fórmulas existentes. Além disso, o imunizante se mostrou seguro, sem ocorrência de efeitos adversos graves. Um aspecto particularmente promissor emergiu quando as crianças foram reavaliadas três anos após a vacinação: 100% daquelas imunizadas com a MenQuadfi ainda possuíam anticorpos detectáveis, enquanto apenas 60% das crianças vacinadas com a quadrivalente mantinham essa proteção.
A relevância dessa durabilidade da resposta imune vai além dos números. Marco Aurélio Sáfadi, pediatra e professor da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, além de presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria, observou que a resposta imune mais robusta e duradoura demonstrada nos estudos pode indicar uma eficácia maior em bebês pequenos contra o tipo C especificamente. Ele ressaltou que, embora a meningite seja uma doença rara — com incidência de cerca de mil casos por ano no período pré-pandemia — ela inspira medo justificado porque pode evoluir para formas graves em poucas horas, frequentemente acometendo crianças completamente saudáveis sem condições prévias.
O contexto epidemiológico brasileiro também influencia a importância dessa vacina. Em 2022, foram registrados 11 óbitos por meningite em crianças e jovens de zero a 19 anos. Em 2021, foram nove mortes no total, e em 2020, 51. Durante a pandemia de covid-19, as doenças de transmissão respiratória, incluindo a meningite, tiveram redução significativa na incidência devido ao isolamento social e ao fechamento das escolas. Sáfadi observou uma queda de aproximadamente dois terços dos casos que normalmente eram observados. Agora, com o retorno das atividades presenciais, há uma recrudescência de casos, tornando ainda mais importante aumentar a proteção, especialmente entre crianças que não foram vacinadas nos últimos dois anos.
No Brasil, o Programa Nacional de Imunização oferece a vacina monovalente C no calendário de rotina infantil, com três doses da versão conjugada aos três, cinco e 12 meses. A vacina contra o meningococo B é ofertada apenas na rede privada, enquanto a forma quadrivalente é disponibilizada na rede pública para jovens de 11 e 12 anos desde 2020. A MenQuadfi já possui autorização para uso em crianças maiores de 12 meses no Brasil, abrindo a possibilidade de expandir a proteção contra os quatro principais tipos da doença em bebês mais jovens e potencialmente reduzir a incidência de surtos.
Notable Quotes
É provável que essa taxa mais alta de anticorpos se traduza em uma proteção mais duradoura, protegendo as crianças por mais tempo e contra as diferentes formas— Marco Aurélio Sáfadi, pediatra e presidente do departamento de infectologia da Sociedade Brasileira de Pediatria
Na maioria das vezes, ela acomete crianças saudáveis, sem nenhuma condição prévia, e pode evoluir para um quadro grave com internação e até risco de vida em poucas horas— Marco Aurélio Sáfadi
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que essa vacina é considerada inovadora se já existem outras que protegem contra meningococo?
Porque ela consegue induzir uma resposta imune superior especificamente contra o tipo C — justamente o que mais causa doença no Brasil — enquanto protege contra os outros três tipos. As vacinas existentes fazem uma coisa ou outra, mas não fazem as duas bem ao mesmo tempo.
E essa durabilidade de três anos que vocês mencionam — como isso muda o que as crianças precisam?
Muda bastante. Se 100% das crianças ainda têm anticorpos três anos depois, isso sugere que a proteção vai durar mais tempo e ser mais confiável. Com a outra vacina quadrivalente, apenas 60% mantêm os anticorpos. Isso pode significar menos reforços necessários.
Mas a meningite é rara, certo? Por que investir tanto em uma doença que afeta poucos casos por ano?
É rara, sim — cerca de mil casos por ano. Mas quando acontece, pode matar uma criança saudável em poucas horas. Não há aviso prévio, não há grupo de risco claro. Por isso o medo é tão grande e a cobertura vacinal precisa ser tão alta.
Como a pandemia afetou isso tudo?
Reduziu drasticamente os casos porque as crianças ficaram isoladas e fora das escolas. Mas agora que voltaram, os casos estão reaparecendo. Então temos uma geração de crianças que não foi vacinada nos últimos dois anos e está voltando ao contato com outras crianças. É o momento certo para expandir a proteção.
O tipo W que vocês mencionam — por que é mais agressivo?
Não está claro exatamente por quê, mas nos últimos dez anos vimos um aumento significativo de casos causados por ele. Na Europa, houve surtos onde a população tinha menos proteção contra essa variante porque as vacinas em uso não cobriam bem. É por isso que proteger contra os quatro tipos importa.