Thiaguinho, Péricles e Coimbra lideram movimento que resgata raízes da black music no pagode, com apresentações em grandes palcos como Rock in Rio 2026. Pesquisadores reconhecem que bailes blacks foram influência estética e musical fundamental para pagodeiros dos anos 1990, consolidando juventude negra periférica no mercado fonográfico.
Nova geração do pagode resgata influência da black music dos anos 1990
A black music deixa de ser descaracterização e vira identidade
Por que agora, especificamente, esses artistas estão trazendo a black music de volta para o pagode?
Porque finalmente o pagode não precisa mais se defender. Nos anos 1990, havia uma pressão constante para provar que era "samba de verdade". Agora, com 30 anos de história, o gênero tem peso suficiente para reconhecer suas próprias influências sem medo de ser deslegitimado.
Então a black music sempre esteve lá?
Sempre. Os bailes blacks eram onde esses artistas aprendiam, onde viam apresentações de artistas norte-americanos. Mas havia uma espécie de constrangimento em admitir isso abertamente. Era mais seguro falar de Cacique de Ramos.
O que mudou na forma como a gente fala sobre isso?
As discussões decoloniais e afrodiaspóricas abriram espaço para contar outras histórias. Agora conseguimos ver o pagode não como uma degradação do samba, mas como uma linguagem negra própria, um pop periférico que nasceu de múltiplas influências.
Então Thiaguinho chamando seu álbum de "Bem Black" é uma declaração?
É uma declaração de que não há mais necessidade de esconder essa herança. É dizer: isso que fazemos vem daqui, dessa mistura, e estamos orgulhosos disso.
E para os artistas mais jovens, qual é o significado?
É um porto seguro. Eles podem explorar a black music sem a culpa que a geração anterior carregava. Podem ser eles mesmos sem precisar se justificar.
Il Polso
- Thiaguinho lança álbum "Bem Black"; Péricles se apresenta no Rock in Rio 2026 com clássicos Motown
- Bailes blacks foram influência estética e musical fundamental para pagodeiros dos anos 1990
- Pagode deixa de precisar se legitimar como samba e reconhece black music como elemento próprio da identidade
Thiaguinho, Péricles e Coimbra lideram movimento que resgata raízes da black music no pagode, com apresentações em grandes palcos como Rock in Rio 2026. Pesquisadores reconhecem que bailes blacks foram influência estética e musical fundamental para pagodeiros dos anos 1990, consolidando juventude negra periférica no mercado fonográfico.
Artistas contemporâneos de pagode resgatam influências da black music dos anos 1990, consolidando o estilo como linguagem negra própria e pop periférico, não mais como rebaixamento do samba tradicional.
Thiaguinho acaba de lançar um álbum chamado "Bem Black". Péricles vai se apresentar no Rock in Rio 2026 em um show dedicado aos clássicos da Motown. E Coimbra, um dos rostos novos do pagode, viralizou nas redes sociais interpretando "I'll Be There", do Jackson 5, com batucada ao fundo. Esses três nomes representam um movimento que está acontecendo agora entre artistas mais jovens do gênero: a redescoberta deliberada da influência da black music, aquela mesma força que moldou o pagode nos anos 1990 e que agora volta com toda a sua potência.
Quando Felipe Trotta terminou sua tese de doutorado e depois a transformou no livro "O Samba e suas Fronteiras", lançado em 2011 pela Editora UFRJ, os ânimos entre os defensores do samba tradicional e os artistas do pagode ainda estavam bastante acirrados. Os sambistas mais antigos viam o pagode como uma criação artificial das gravadoras, algo sem autenticidade e desconectado das raízes. Os pagodeiros, por sua vez, argumentavam que também faziam samba, apenas com uma linguagem diferente — uma posição que Trotta ajudou a fundamentar academicamente. "Não existe diferença entre gêneros", explica o pesquisador. "Me parece mais que são maneiras diferentes de tocar o samba. O pagode é um estilo de samba que foi fundamental, nos anos 1990, para reposicionar o samba no topo das paradas de sucesso no Brasil".
A série "Anos 90: A explosão do pagode", dirigida por Emílio Domingos e Rafael Bolsinha e disponível na Globoplay, oferece uma prova contundente de que o pagode não surgiu do nada nem foi inventado nos escritórios das multinacionais. Ele nasceu das mentes e das mãos de uma geração jovem, principalmente paulista, que tinha referências tanto locais quanto globais e sabia como usá-las. Os bailes blacks foram absolutamente centrais nessa história, não apenas como influência musical, mas também estética. "Quando esses grupos de pagode subiam no palco, já traziam uma bagagem de espectador, de ter visto apresentações de artistas negros norte-americanos promovidos pela Chic Show, Zimbabwe ou Kaskatas", diz Domingos. Essa geração conseguiu, através de uma combinação de fatores econômicos, culturais e de pura inteligência, conectar o pagode às máquinas do mercado fonográfico e da mídia, especialmente a televisão. O resultado foi colocar uma juventude negra da periferia dentro de espaços que antes lhe eram vedados. "O pagode tem uma importância muito grande para o jovem negro brasileiro se ver representado, uma espécie de espelho para grande parte da sociedade", afirma Domingos.
Trinta anos depois do boom do pagode nos anos 1990, talvez só agora seja possível entender completamente o que aquele fenômeno significou simbolicamente. Acauam Oliveira, professor de literatura da Universidade de Pernambuco e crítico cultural, observa que quem estava dentro do processo na época tinha dificuldade em ganhar a distância histórica necessária para compreender o que estava fazendo. "Hoje, à luz das discussões decoloniais e afrodiaspóricas, conseguimos elaborar outras narrativas sobre o que aconteceu." Para Oliveira, o pagode deixou de ser visto como uma degradação do samba e começou a ser reconhecido como uma linguagem negra própria, um tipo de pop periférico. A crítica anterior tentava entender o pagode dos anos 1990 apenas como continuação do trabalho do Cacique de Ramos e do Fundo de Quintal, mas essa era apenas uma de suas matrizes. "Hoje conseguimos enxergar o pagode também como fruto da black music. O que aqueles artistas construíram foi outra vertente da música pop periférica".
Defini as raízes de um estilo que provocou rupturas desde o seu nascimento é tarefa complexa. A partir da sonoridade criada pelo Raça Negra, grupos como Negritude Júnior, Só Pra Contrariar, Sensação, Katinguelê e Soweto caminharam nessa linha tênue entre um samba mais tradicional e a música pop que estava em alta naquele momento. "Talvez a canção mais didática daquele período seja 'Cohab City', que começa com uma menção a 'ABC' do Jackson 5, depois vai para um balanço estilo Bebeto, para no refrão valorizar a batucada tipo a do Cacique de Ramos", exemplifica Oliveira. Essa mistura era o próprio DNA do gênero.
Nos anos 1990, o pagode precisava provar que era samba. Hoje, não precisa mais. O estilo acumulou repertório, memória e referências suficientes para beber de sua própria fonte. A black music, que antes era vista como uma descaracterização do samba, agora aparece como um dos elementos que definem a identidade do pagode — e como um porto seguro para os artistas da nova geração que querem explorar o que o gênero realmente é.
Citazioni salienti
O pagode é um estilo de samba que foi fundamental, nos anos 1990, para reposicionar o samba no topo das paradas de sucesso no Brasil— Felipe Trotta, pesquisador
O pagode colocou uma juventude negra de periferia dentro do mercado, ocupando espaços antes muito restritos— Emílio Domingos, diretor