No dia dedicado a celebrar os chefes, a Folha de S.Paulo propõe uma alternativa mais honesta: cinco filmes e séries que dissecam, com humor, tensão e lucidez, a relação de poder entre quem manda e quem obedece. De Lars von Trier a Bong Joon-ho, as obras selecionadas revelam que a hierarquia corporativa é, acima de tudo, um espelho das contradições humanas — ambição, medo, desigualdade e a eterna necessidade de pertencer.
No Dia do Chefe, cinco filmes e séries para celebrar, odiar ou rir da autoridade
Chefes têm sentimentos — e sofrem bastante com eles
Por que essas cinco produções especificamente? O que elas têm em comum?
Todas exploram a relação entre poder e subordinação, mas cada uma por um ângulo diferente. Algumas fazem rir, outras perturbam, algumas revelam estruturas mais profundas.
Mas a lista é bem heterogênea — um filme de Lars von Trier, uma série sobre finanças, um documentário, um drama sobre um restaurante e um thriller social. Há realmente um fio condutor?
E por que evitar "The Office"? Parece óbvia a razão, mas qual é exatamente?
Porque é batida demais. Muita gente já viu, e a série já saturou a conversa sobre dinâmicas de escritório. A ideia é oferecer algo que as pessoas talvez não conheçam.
Justo, mas isso significa que a recomendação assume que o leitor já conhece "The Office". E se não conhecer? A nota sobre a versão original com Ricky Gervais fica um pouco solta.
"Industry" parece ser a mais desafiadora para quem não trabalha em finanças. Como alguém sem experiência no mercado aproveita a série?
Você não precisa entender derivativos para apreciar pessoas inteligentes tomando decisões ruins. É quase universal — o prazer de ver alguém se sabotando.
Mas o texto admite que quem não é do mercado "provavelmente vai se perder nos jargões". Isso é um aviso legítimo ou uma razão para não recomendar?
"Indústria Americana" parece ser o documentário mais pesado da lista. Muda a perspectiva sobre o que significa ter um chefe ruim?
Completamente. Mostra que às vezes o problema não é a pessoa que está no topo, mas as estruturas que a cercam. Um chefe ruim pode ser sintoma de algo maior.
O filme foi dirigido em 2019, mas a fábrica reabriu em 2014. Quanto tempo de material há entre esses pontos? O documentário cobre toda a trajetória ou apenas um período?
"O Urso" é interessante porque o chefe é também o protagonista. Muda a forma como vemos a autoridade?
Sim. Você vê o sofrimento por trás da posição. Não é mais "o chefe é chato", é "o chefe está quebrado e todos ao redor sofrem com isso".
Mas o texto diz que a primeira temporada é excelente e as seguintes caem. Se alguém assistir e gostar da primeira, vai se decepcionar? Isso deveria ser mais uma ressalva?
E "Parasita" fecha a lista. Por que um filme sobre desigualdade social entra em uma lista sobre chefes?
Porque mostra a relação de poder de forma visceral. Os Kim não têm chefe tradicional — eles têm patrões. E a série mostra como essa dinâmica corrói tudo.
"Parasita" é sobre muitas coisas. Reduzi-lo a "sobre chefes" é um pouco forçado, não é? O filme é mais sobre classe do que sobre autoridade corporativa.
El Pulso
- O Dia do Chefe, celebrado em 16 de outubro, serve de pretexto para uma curadoria que prefere a honestidade incômoda à homenagem protocolar.
- A seleção deliberadamente evita o óbvio — 'The Office' fica de fora — e aposta em obras que perturbam mais do que confortam.
- De uma farsa corporativa dinamarquesa a um documentário sobre o choque entre trabalhadores americanos e gestores chineses, cada título expõe uma fratura diferente nas relações de trabalho.
- Temas como saúde mental, desigualdade social, ambição sem escrúpulos e luta de classes emergem por trás do que poderia ser apenas entretenimento leve sobre o ambiente de trabalho.
- A trajetória da seleção vai da sátira ao soco social, sugerindo que entender o chefe — ou odiá-lo com inteligência — exige mais do que uma comédia de escritório.
No dia dedicado a celebrar os chefes, a Folha de S.Paulo propõe uma alternativa mais honesta: cinco filmes e séries que dissecam, com humor, tensão e lucidez, a relação de poder entre quem manda e quem obedece. De Lars von Trier a Bong Joon-ho, as obras selecionadas revelam que a hierarquia corporativa é, acima de tudo, um espelho das contradições humanas — ambição, medo, desigualdade e a eterna necessidade de pertencer.
Ninguém gosta muito do chefe, mesmo quando ele é uma pessoa razoável. É a natureza do cargo: quem cobra raramente é amado. O Dia do Chefe, em 16 de outubro, dificilmente será celebrado de verdade — e a newsletter Maratonar, da Folha, transforma essa ambiguidade em curadoria, selecionando cinco produções que exploram a dinâmica entre chefes e funcionários por ângulos distintos e sem recorrer ao óbvio.
Lars von Trier, conhecido por dramas perturbadores, assina uma comédia de escritório disponível na Mubi: em 'O Grande Chefe' (2006), o dono de uma empresa de TI inventa um chefe fictício para justificar decisões impopulares. Quando um comprador exige conhecer esse misterioso presidente, contrata-se um ator fracassado para o papel — que leva a farsa longe demais. É uma sátira precisa sobre quem se esconde atrás de cargos para fugir da responsabilidade.
A série 'Industry' (HBO Max), criada por ex-funcionários do mercado financeiro, acompanha jovens recém-formados disputando vagas em um banco de investimento londrino sem amizades, sem escrúpulos e com ambição total. Já 'Indústria Americana' (Netflix), documentário vencedor do Oscar produzido por Barack e Michelle Obama, documenta o choque cultural entre operários americanos e gestores chineses em uma fábrica reaberta em Ohio — e revela que o problema raramente é só o chefe.
'O Urso' (Disney+) acompanha Carmy Berzatto, chef premiado que herda a lanchonete da família após a morte do irmão e transforma a cozinha em caos. Por trás da pressão culinária, a série trata de saúde mental e mostra que chefes também sofrem. Por fim, 'Parasita' (Netflix e Prime Video), de Bong Joon-ho, começa como comédia sobre uma família que infiltra seus membros, um a um, nos postos de uma casa rica em Seul — e termina como um soco social que expõe as desigualdades da Coreia do Sul para o mundo inteiro.
Ninguém gosta muito do chefe, mesmo que ele seja uma pessoa decente. É simplesmente a natureza do cargo — quem cobra raramente é amado. Mas existe um dia dedicado a celebrá-los: 16 de outubro. Como essa celebração provavelmente não vai acontecer de verdade, uma alternativa é mergulhar em filmes e séries que exploram a relação entre chefes e funcionários, um território fértil para situações curiosas, incômodas e frequentemente hilariantes.
A newsletter Maratonar, da Folha, selecionou cinco produções que abordam essa dinâmica de poder de ângulos distintos. A lista evita armadilhas óbvias — "The Office" não entra aqui, apesar de sua popularidade — e oferece desde comédias até documentários que revelam camadas mais profundas do que simplesmente "o chefe é chato".
Lars von Trier, o diretor dinamarquês conhecido por dramas perturbadores, dirigiu "O Grande Chefe" (2006), uma comédia de escritório disponível na Mubi. A premissa é absurda e perfeita: o dono de uma empresa de TI inventa um chefe fictício para justificar todas as decisões impopulares, culpando sempre "o grande chefe lá de cima". Quando chega a hora de vender a empresa, o comprador exige conhecer esse presidente misterioso. A solução é contratar um ator fracassado para fingir ser o executivo. O problema é que o ator leva o papel tão a sério que a farsa desmorona. É uma sátira sobre pessoas que se escondem atrás de cargos para evitar responsabilidade pessoal, filmada com a estética caseira e descompromissada que marca o trabalho de Von Trier.
"Industry" (2020-), disponível na HBO Max em quatro temporadas, oferece uma perspectiva diferente. Criada por Mickey Down e Konrad Kay, que trabalharam no mercado financeiro antes de virar roteiristas, a série acompanha recém-formados competindo por vagas em um banco de investimento chamado Pierpoint. Aqui, ninguém é amigo de ninguém. As carreiras são construídas com ambição desenfreada, pouco moralismo e zero escrúpulos. A série melhora a cada temporada, embora a mais recente tenha se transformado em um thriller exagerado. Quem não trabalha com finanças pode se perder nos jargões, mas qualquer um consegue apreciar o prazer de ver pessoas muito inteligentes tomando decisões muito ruins. Os atores Ken Lung e Marisa Abela entregam performances excelentes.
"Indústria Americana" (2019), documentário vencedor do Oscar disponível na Netflix, sugere que talvez o problema não seja apenas o chefe. Em 2014, a empresa chinesa Fuyao reabriu em Ohio uma fábrica da General Motors que havia fechado durante a crise de 2008, prometendo devolver centenas de empregos a uma região que havia perdido a esperança. No início, há celebração. Mas logo emerge um choque de culturas entre operários americanos e gestores chineses: de um lado, hora extra como virtude e reclamações como falta de caráter; do outro, direitos trabalhistas e pessoas que se recusam a ser tratadas como peças. Primeira produção da Higher Ground, a produtora de Barack e Michelle Obama, o filme foi dirigido por Steven Bognar e Julia Reichert e reflete a rivalidade atual entre Estados Unidos e China.
"O Urso" (2022-2026), na Disney+, é uma escolha apropriada para o Dia do Chefe: é sobre um chef. Carmy Berzatto, interpretado por Jeremy Allen White, é um cozinheiro premiado que retorna a Chicago para administrar a lanchonete de sanduíches italianos da família após a morte do irmão. Ele tem talento, mas falta paciência, e a cozinha vira caos. A série, em última análise, trata de saúde mental e revela que chefes têm sentimentos — e sofrem bastante com eles. O elenco secundário brilha, especialmente Ayo Edebiri como Sydney, Ebon Moss-Bachrach como o primo Richie e Liza Colón-Zayas como a cozinheira Tina. A primeira temporada é excelente, mas as seguintes caem em qualidade, e a série funciona melhor como drama do que como comédia. A trilha sonora é notável, particularmente a abertura do sétimo episódio da primeira temporada, com imagens de Chicago ao som de Sufjan Stevens, que é de uma beleza arrebatadora.
"Parasita" (2019), disponível na Netflix e Prime Video, é o vencedor de quatro Oscars, incluindo melhor filme — o primeiro não em inglês a conquistar esse prêmio. A história segue uma família de Seul vivendo em um porão apertado, desempregada e disputando o wi-fi do vizinho, até que o filho consegue um trabalho como professor particular na casa de uma família rica. O que se segue é uma sequência de indicações, disfarces e pequenas mentiras enquanto os Kim ocupam, um a um, os postos da casa dos Park, sempre com o sorriso treinado de quem aprendeu a sobreviver agradando ao patrão. O diretor Bong Joon-ho começa como comédia, passa por thriller e termina como um soco social que beira o terror, expondo as desigualdades da Coreia do Sul para o mundo.
Citas Notables
Ninguém é amigo de ninguém e as carreiras se fazem com muita ambição, pouco moralismo e zero escrúpulos— Descrição de "Industry" na newsletter
"Parasita" escancarou para o mundo as desigualdades da Coreia do Sul— Análise do filme na seleção