Num outono em que a humanidade volta a olhar para a Lua com ambição renovada, a Nasa se vê diante de um desafio que mistura engenharia, orgulho nacional e a memória de outra corrida. A agência precisa preparar, até o ano que vem, dois módulos de pouso construídos por empresas privadas para um teste em órbita baixa da Terra, a Artemis III, antes do primeiro pouso tripulado planejado para 2028. O trabalho avança sob a sombra da China, que mira pousar taikonautas até 2030, lembrando que cada prazo nesse caminho carrega tanto ciência quanto disputa geopolítica.
NASA acelera preparativos para pouso lunar com teste orbital em 2027 e disputa entre Blue Origin e SpaceX
A campanha de lançamento mais complicada já realizada
Por que uma missão de teste em órbita baixa, se o objetivo é pousar na Lua?
Porque nenhum dos dois módulos jamais acoplou a uma nave com astronautas. A Artemis III, em 2027, treina isso a poucas centenas de milhas da Terra, com um voo de cerca de 14 dias.
E o que a Nasa quer descobrir ali?
Qual veículo usar na Artemis IV, o primeiro pouso tripulado desde a Apollo, em 1972. Ainda não decidiu entre Starship e Blue Moon Mark 2.
Vale notar que Isaacman e Parsons falam de compromisso, mas o próprio texto diz que se espera amplamente que o cronograma mude.
As abordagens das empresas diferem muito?
Bastante. O Starship é um sistema novo, de duas partes, que é módulo e estágio ao mesmo tempo. O Blue Moon lembra os módulos da Apollo, só que maior, com 52 pés.
E o Blue Moon nunca voou. O New Glenn explodiu em maio e destruiu o centro de lançamento da Blue Origin na Flórida.
E o reabastecimento do Starship?
Musk falou em seis a oito lançamentos; antes, especialistas estimavam de 10 a 40. A Nasa confirmou a estimativa de Musk.
Mas ressalvou que o número real só aparece depois dos testes de transferência, que nunca foram feitos em órbita. Por ora é estimativa, não dado.
E a China?
A meta chinesa é 2030, e especialistas acham que será cumprida ou superada. Isso é avaliação deles, não fato consumado.
The Pulse
- A Nasa reúne dois módulos de pouso da SpaceX e da Blue Origin para um teste decisivo em 2027, e cada atraso ecoa pelo cronograma inteiro.
- A explosão de um New Glenn em maio destruiu o centro de lançamento da Blue Origin na Flórida e deixou o Blue Moon Mark 1 suspenso.
- A SpaceX tenta provar que consegue transferir combustível entre duas Starships em órbita, um feito que nunca foi tentado e que pode exigir de seis a quarenta reabastecimentos.
- O administrador Jared Isaacman promete ir até as empresas resolver problemas, não apenas cobrar relatórios, enquanto a Nasa aprova trajes lunares mais simples para não perder prazos.
- Com o veículo da Artemis IV ainda indefinido e a China na mira para 2030, o calendário lunar segue pressionado e as datas tendem a escorregar.
Num outono em que a humanidade volta a olhar para a Lua com ambição renovada, a Nasa se vê diante de um desafio que mistura engenharia, orgulho nacional e a memória de outra corrida. A agência precisa preparar, até o ano que vem, dois módulos de pouso construídos por empresas privadas para um teste em órbita baixa da Terra, a Artemis III, antes do primeiro pouso tripulado planejado para 2028. O trabalho avança sob a sombra da China, que mira pousar taikonautas até 2030, lembrando que cada prazo nesse caminho carrega tanto ciência quanto disputa geopolítica.
Nesta sexta-feira (23), a Nasa apresentou em coletiva de imprensa o plano para deixar prontos, até o próximo ano, dois módulos de pouso lunar desenvolvidos por SpaceX e Blue Origin. O alvo é a Artemis III, um teste em órbita baixa da Terra previsto para 2027, a poucas centenas de milhas do planeta, bem mais perto que os 384.400 quilômetros até a Lua. O administrador Jared Isaacman foi enfático: mais tempo, mais dinheiro e menos voos não tornariam o trabalho mais seguro. Quando um fornecedor atrasar, a equipe da agência vai ajudar a resolver o problema, e não apenas observar.
Os dois projetos seguem caminhos muito diferentes. A SpaceX aposta no Starship, um sistema de duas partes que ainda está em desenvolvimento, e tenta fazer a primeira transferência de combustível entre naves em órbita, prevista para o início de 2027. A Blue Origin, por sua vez, sofreu um golpe em maio, quando um foguete New Glenn explodiu durante testes em solo e destruiu o centro de lançamento da empresa. O Blue Moon Mark 1, versão de carga que seria lançada neste ano, ficou suspenso, e o Mark 2, que nunca voou, ainda precisa de sistemas de suporte de vida e de acoplamento a propulsores.
A Nasa também aprovou uma versão mais simples e leve dos trajes lunares, para que estejam prontos a tempo das primeiras missões de pouso. A Artemis IV, que deve levar astronautas à superfície lunar pela primeira vez desde 1972, ainda não tem veículo definido, já que a agência abandonou o compromisso com a SpaceX no ano passado e prometeu usar o que ficasse pronto primeiro. Todas essas datas devem mudar, e a sombra da China, que quer pousar taikonautas até 2030, paira sobre cada decisão.
Nesta sexta-feira (23), a Nasa detalhou em coletiva de imprensa uma corrida para deixar prontos, até o próximo ano, dois módulos de pouso lunar, o foguete e a nave da própria agência. O objetivo é a Artemis III, uma missão de teste em órbita baixa da Terra prevista para 2027, que antecede o pouso tripulado planejado para 2028. O administrador da agência, Jared Isaacman, disse que não adianta se iludir achando que mais tempo, mais dinheiro e menos voos tornariam o trabalho mais seguro ou mais realizável.
Blue Origin e SpaceX têm, cada uma, contratos de vários bilhões de dólares para desenvolver veículos que levem astronautas da nave Orion até a superfície da Lua. Isaacman afirmou que, quando um fornecedor descumprir um cronograma, o pessoal da Nasa vai bater à porta, e não para observar, escrever relatório ou convocar comitê, mas para ajudar a resolver os problemas. Foi ele quem, em fevereiro, recém-nomeado, incluiu no roteiro lunar essa missão de teste em 2027. Nela, os veículos das duas empresas treinarão o acoplamento com a Orion a algumas centenas de milhas da Terra, bem mais perto que os 384.400 quilômetros que nos separam da Lua.
A missão deve durar cerca de 14 dias, com o lançamento de três foguetes gigantescos e vários acoplamentos e desacoplamentos da Orion com veículos experimentais. Jeremy Parsons, gerente do Programa Artemis, chamou o conjunto de provavelmente a campanha de lançamento mais complicada já realizada. A Artemis III também ajudará a definir qual módulo a Nasa usará na Artemis IV, que deve levar astronautas à superfície lunar pela primeira vez desde o fim do programa Apollo, em 1972.
Os dois projetos são muito diferentes. A SpaceX, primeira a fechar contrato de pouso lunar, em 2021, aposta no Starship, sistema de duas partes formado pelo propulsor Super Heavy e pela espaçonave superior, de 171 pés de altura e seis motores, que serviria ao mesmo tempo como módulo de pouso e estágio superior. O sistema ainda está em desenvolvimento e concluiu recentemente seu primeiro voo de teste orbital. Já o Blue Moon Mark 2, da Blue Origin, segue um desenho mais clássico: com 52 pés, lembra uma versão ampliada dos módulos da era Apollo e será lançado no compartimento de carga do foguete New Glenn. Ele nunca fez um voo de teste.
A Blue Origin planejava lançar neste ano uma versão reduzida de carga, o Blue Moon Mark 1, mas os planos foram suspensos depois que um New Glenn explodiu em maio durante testes de rotina em solo e destruiu o centro de lançamento da empresa na Flórida. Agora, a companhia precisa recolocar o New Glenn em operação, possivelmente até o fim do ano, e fazer o voo do Mark 1 no início do próximo ano. O Mark 2 da Artemis III também terá de receber sistemas de suporte de vida, pois os quatro astronautas da Orion deverão embarcar nele enquanto estiver acoplado. Ele precisará ainda se acoplar a pelo menos três estágios de propulsão. Com o Starship, a Nasa não prevê esse procedimento: citando a experiência da SpaceX com as cápsulas Dragon tripuladas, considera possível avaliar o suporte de vida fora da Artemis III.
Para a SpaceX, a lista inclui terminar o protótipo que voará na Artemis III, testar as pernas de pouso e a câmara de descompressão, continuar os voos de teste, expandir operações para duas novas plataformas na Flórida e fazer a primeira transferência de combustível entre duas Starships em órbita, prevista para o início de 2027. Essa transferência de propelentes criogênicos nunca foi feita. Especialistas estimavam entre 10 e 40 lançamentos de reabastecimento para um pouso; Elon Musk disse nesta semana que bastariam de seis a oito. A Nasa confirmou o número, mas ressalvou que o valor definitivo só será conhecido após os testes.
A agência também aprovou uma versão simplificada e mais leve dos trajes lunares da Axiom, de Houston, para ficar pronta a tempo das primeiras missões de pouso, como a Artemis IV; a versão avançada segue em desenvolvimento. Parsons disse que a Nasa busca simplificar e eliminar requisitos difíceis, mas que são os módulos de pouso que hoje ditam o cronograma. Depois da Artemis III, ambos devem fazer viagens não tripuladas à Lua para praticar pousos.
A Nasa ainda não escolheu o veículo da Artemis IV, após retirar no ano passado seu compromisso com a SpaceX e prometer usar o que ficasse pronto primeiro, citando a disputa com a China. A Artemis IV está prevista para o início de 2028 e a Artemis V, para mais tarde no mesmo ano, mas espera-se amplamente que as datas mudem. A China trabalha para pousar taikonautas na Lua até 2030, meta que especialistas acreditam que o país deve cumprir ou superar.
Notable Quotes
Não vamos nos iludir acreditando que mais tempo, mais dinheiro e voar menos vai tornar nosso trabalho mais seguro ou mais realizável.— Jared Isaacman, administrador da Nasa
É provavelmente a campanha de lançamento mais complicada já realizada.— Jeremy Parsons, gerente do Programa Artemis da Nasa