Move Brasil começa hoje; Itaú fica de fora e C6 e Santander confirmam financiamentos

Motoristas com nomes negativados enfrentam incerteza na aprovação de crédito apesar do fundo garantidor cobrir até 80% do risco.
A esperança é a última que morre
Motorista com nome negativado aposta no programa para trocar seu carro por um elétrico.
Mark

Por que o Itaú não quis participar se o programa oferece juros tão baixos?

Mimi

O banco alegou questões de cronograma operacional, mas o ponto real é que seu teto de garantias no FGI já está integralmente consumido por outras modalidades de crédito — Renova Frota, FGI Capital de Giro, Pronampe, Desenrola. Não é rejeição ao programa em si, é falta de espaço no orçamento de garantias.

Mark

E quanto aos motoristas com nome negativado? Eles realmente conseguem financiamento?

Mimi

Teoricamente sim, porque o fundo garantidor cobre até 80% do risco. Mas a análise de crédito é feita banco a banco, caso a caso. O fundo protege a instituição, não elimina a avaliação de risco. Então depende da política interna de cada banco.

Mark

Carlos está apostando em um carro elétrico. Isso é inteligente?

Mimi

Financeiramente faz sentido — ele economiza R$ 2 mil a R$ 2.500 por mês em combustível e manutenção. O risco é outro: a Uber limitou o acesso à categoria Black para esses modelos até fim de 2027. Então ele está comprando um carro mais caro apostando em uma receita que pode desaparecer.

Mark

Qual é o maior perigo que um especialista vê nesse programa?

Mimi

Não é a taxa de juros. É o motorista financiar um carro de R$ 150 mil quando um de R$ 100 mil geraria praticamente a mesma receita. E é assumir uma parcela baseada nos meses de maior faturamento, descobrindo depois que nos meses fracos o carro pertence mais ao banco do que a ele.

Mark

Por que o governo colocou o limite de 100 corridas em um ano?

Mimi

Para separar quem realmente trabalha disso de quem quer apenas um empréstimo mais barato. Duas corridas por semana é um critério mínimo de atividade. Sem isso, qualquer pessoa poderia entrar no programa.

Mark

E se a análise de crédito do banco for concluída depois de 22 de julho?

Mimi

Ninguém sabe. O MDIC e o BNDES não responderam. É uma lacuna importante — há motoristas que vão pedir dentro do prazo e ficar em limbo se o banco demorar.

  • Juros de 11,5% a 12,6% ao ano, abaixo da Selic de 14,25%
  • R$ 30 bilhões do BNDES bancando as operações
  • Mínimo de 100 corridas em 12 meses para participar
  • C6 Bank e Santander confirmam participação; Itaú fica de fora
  • Prazo final para contratação: 22 de julho de 2026

Juros de 11,5% a 12,6% ao ano ficam abaixo da Selic de 14,25%, com R$ 30 bilhões do BNDES bancando operações. Apenas profissionais com 100+ corridas no último ano podem participar; análise de crédito é feita caso a caso pelos bancos.

Programa do governo começa hoje com juros reduzidos para taxistas e motoristas de aplicativo comprarem veículos novos. C6 Bank e Santander vão operar o crédito, mas Itaú não participa.

Nesta sexta-feira, 19 de junho, começa a fase mais aguardada do Move Brasil: motoristas de aplicativo e taxistas que já tiveram seus cadastros aprovados pelo governo federal podem finalmente procurar concessionárias e bancos para contratar financiamentos de carros novos com juros reduzidos. O programa oferece taxas de 12,6% ao ano para homens e 11,5% para mulheres — ambas abaixo da Selic, que está em 14,25% ao ano. Essa redução é possível porque o presidente Lula assinou uma medida provisória autorizando o Ministério da Fazenda a repassar R$ 30 bilhões ao BNDES para bancar essas operações.

Para participar, é preciso ter feito pelo menos 100 corridas nos últimos doze meses — o equivalente a cerca de duas por semana. O corte existe justamente para restringir o crédito a quem realmente trabalha na atividade, não a interessados apenas em um empréstimo mais barato. Quando procurado, o C6 Bank confirmou que vai operar a linha e começará a receber pedidos em 26 de junho, com análise de crédito feita online que, na maioria dos casos, leva até um minuto. O Santander também vai participar, abrindo propostas na próxima semana. Já o Itaú Unibanco informou que não vai aderir, alegando questões de cronograma operacional e afirmando que seu teto de garantias no Fundo Garantidor para Investimentos já está integralmente alocado por outras modalidades de crédito. O Bradesco preferiu não se manifestar, e Nubank, BTG Pactual, Banco Inter, Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal não responderam até o fechamento da reportagem.

Carlos Coutinho, de 39 anos, motorista de aplicativo há dez anos e dono de um salão de festas em São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, é um dos que pretende aproveitar o programa desde o primeiro dia. Ele usa os aplicativos como complemento de renda e atualmente dirige uma Chevrolet Spin 2015 com sete lugares. Seu plano é trocar o veículo por um BYD Dolphin elétrico. Carlos já fez o cadastro e foi aprovado pelo governo em poucos dias, mas enfrenta um obstáculo: tem o nome negativado. Mesmo assim, mantém esperança, pois o programa inclui taxistas e motoristas de aplicativo no Fundo Garantidor para Investimentos, que pode cobrir até 80% do risco de cada operação — o que torna o crédito mais acessível mesmo para quem tem restrições. "A esperança é a última que morre", diz ele. Nesta sexta, Carlos e três amigos do bairro vão juntos a uma concessionária de carros elétricos tentar reduzir o valor financiado oferecendo seus veículos antigos como entrada. Dos quatro, apenas um tem o nome limpo.

A motivação de Carlos pelo elétrico é econômica. Ele gasta entre R$ 3 mil e R$ 3.500 por mês com combustível, além de manutenção. Com o BYD, estima gastar entre R$ 800 e R$ 1.000 mensais com recarga, com manutenção reduzida. Há, porém, uma complicação: a Uber anunciou que o acesso à categoria Black — a mais bem paga — para veículos como o BYD vai até o fim de 2027, o que pegou muitos motoristas de surpresa.

Rodolfo Takashi, CEO da Gooroo Crédito, fintech especializada em crédito para trabalhadores, alerta que para quem vive de renda variável, o maior risco não é a taxa de juros, mas o tamanho da parcela. Ele recomenda que a prestação não ultrapasse 15% a 20% da renda líquida média mensal, e que o cálculo seja feito pela pior semana, não pela melhor. Se a renda oscila entre R$ 3.500 e R$ 7.000 por mês, a parcela precisa caber confortavelmente no cenário de R$ 3.500. Takashi também orienta a não financiar o valor máximo só porque está disponível: o programa permite financiar veículos de até R$ 150 mil, mas um carro de R$ 100 mil pode gerar praticamente a mesma receita nos aplicativos. Ele recomenda ainda encarar a prestação como um aluguel, um custo fixo da atividade, e não confundir faturamento com renda líquida — é possível faturar R$ 10 mil por mês e ter renda bem menor depois de descontar combustível, manutenção, lavagem e seguro.

A aprovação no cadastro do governo é apenas a primeira etapa e não garante o financiamento. A análise de crédito é feita pelo banco, caso a caso, depois do pedido, e cada instituição decide se aprova ou recusa segundo suas próprias regras. O governo não respondeu ao pedido de informações sobre o número atualizado de cadastrados e aprovados. O dado mais recente divulgado é de 3 de junho, quando o presidente da Anfavea afirmou que as inscrições já chegavam a 600 mil. Há, porém, um prazo crítico: as contratações precisam ocorrer até 22 de julho de 2026, data final de vigência da medida provisória que sustenta o programa. Procurados, o MDIC e o BNDES não esclareceram o que acontece com o motorista que pedir o financiamento dentro do prazo, mas tiver a análise de crédito concluída pelo banco depois dessa data.

Para um motorista sem renda fixa, a pergunta principal não deveria ser 'quanto o banco aprova?', mas sim 'qual carro o meu faturamento consegue sustentar, mesmo nos meses mais difíceis?'
— Rodolfo Takashi, CEO da Gooroo Crédito
A análise de crédito, na maior parte dos casos, ocorre em até um minuto
— C6 Bank
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