Morreu Ruy de Carvalho, figura fundadora do setor segurador português moderno

Esteve dos dois lados da relação entre Estado e seguradoras
Carvalho trabalhou primeiro como presidente do Instituto Nacional de Seguros, depois como primeiro presidente da Associação Portuguesa de Seguros.
Mark

Porque é que a morte de Ruy de Carvalho importa agora, em 2026? Não é apenas a morte de um homem muito velho?

Mimi

Porque ele foi o primeiro presidente da associação que representa as seguradoras em Portugal, e fez isso durante quinze anos críticos. Estamos a falar do período em que o país saiu de um sistema completamente nacionalizado para um mercado aberto à concorrência europeia.

Mark

Mas isso foi há décadas. O que é que ele fez que ainda ressoa hoje?

Mimi

Construiu as estruturas através das quais o setor se organiza. Quando chegou à APS, em 1982, havia apenas oito companhias públicas. Quando saiu, em 1997, o setor estava aberto à iniciativa privada e integrado nas dinâmicas europeias. Isso não aconteceu sozinho.

Mark

Ele era um homem de Estado ou um homem de negócios?

Mimi

Era ambos. Primeiro trabalhou para o Instituto Nacional de Seguros, do lado público. Depois liderou a associação que representava as seguradoras perante o Estado. Estava sempre entre os dois mundos, traduzindo uma coisa para a outra.

Mark

E as obras que publicou? Porque é que um gestor de seguros se preocupa em escrever história?

Mimi

Porque sabia que o que estava a viver era uma transformação estrutural. Quis deixar registado como tinha sido, o que tinha mudado, como as companhias tinham sobrevivido. Era uma forma de preservar a memória institucional de um setor inteiro.

Mark

Qual é o legado concreto que deixa?

Mimi

Uma associação que ainda existe e que ainda representa as seguradoras. Um setor que é competitivo e europeu. E dois livros que contam como tudo isto aconteceu. Não é pouco.

  • Ruy de Carvalho morreu aos 94 anos, na noite de 18 para 19 de agosto de 2026
  • Primeiro presidente da Associação Portuguesa de Seguros, cargo que ocupou durante 15 anos (1982-1997)
  • Presidente do Instituto Nacional de Seguros entre 1979 e 1982, durante a reorganização pós-nacionalizações de 1975
  • Publicou duas obras de referência sobre a história dos seguros em Portugal em 2016

Ruy de Carvalho liderou a APS durante 15 anos (1982-1997), período crítico de reorganização e abertura do setor à iniciativa privada e concorrência europeia. Além da APS, ocupou cargos de relevo no Instituto Nacional de Seguros, OCDE, CEA e várias instituições financeiras, sendo reconhecido com as mais altas distinções do Estado.

Morreu aos 94 anos Ruy de Carvalho, primeiro presidente da Associação Portuguesa de Seguros e figura central na modernização do setor segurador português após as nacionalizações de 1975.

Ruy Octávio Matos de Carvalho morreu na noite de 18 para 19 de agosto, aos 94 anos, deixando atrás de si uma trajetória que moldou o setor segurador português moderno. Durante mais de cinco décadas ligado aos seguros, começando ainda nos anos setenta, Carvalho foi o arquiteto de uma transformação que levou o país de um sistema nacionalizado e concentrado para um mercado aberto à concorrência europeia.

Nascido no Porto em 1932, filho de uma família com raízes profundas no setor segurador, Carvalho formou-se em Finanças pelo ISCEF, o antecessor do atual ISEG. Antes de se tornar figura pública do setor, trabalhou como presidente do Instituto Nacional de Seguros entre 1979 e 1982, período em que esteve do lado estatal da relação entre governo e seguradoras. Nessa altura, Portugal ainda se recuperava das nacionalizações de 1975, que tinham deixado o setor concentrado em apenas oito companhias públicas. A reorganização e supervisão desse sistema foi uma das suas primeiras grandes responsabilidades.

Em 12 de agosto de 1982, a Associação Portuguesa de Seguros foi formalmente constituída, com vinte companhias fundadoras. Carvalho presidiu à primeira reunião da direção, a 1 de outubro, e permaneceu no cargo até 1997, quando foi sucedido por António Reis. Durante esses quinze anos, transformou a associação numa instituição central na representação das seguradoras perante o Estado e os restantes intervenientes do mercado. A sua liderança coincidiu com um período crítico: a abertura progressiva do setor à iniciativa privada e a adaptação das companhias nacionais às exigências da então designada Comunidade Económica Europeia.

Mas a sua influência estendeu-se muito além da APS. Integrou órgãos diretivos e consultivos de instituições como a OCDE e o Comité Européen des Assurances, antecessor da atual Insurance Europe. Ocupou a vice-presidência do Conselho de Administração do BPI e desempenhou funções de relevo na EFACEC, no Fórum dos Administradores de Empresas, no Instituto Nacional de Administração e na Câmara de Comércio Internacional. Participou ainda no Conselho para o Sistema Financeiro e no Conselho do Mercado de Valores Mobiliários. Era uma figura que transitava entre os mundos público e privado, entre Portugal e as instituições internacionais.

O seu trabalho foi reconhecido pelo Estado com duas das mais altas distinções. A 8 de março de 1996, o Presidente Mário Soares conferiu-lhe o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito Agrícola, Comercial e Industrial. Uma década depois, a 18 de maio de 2006, o Presidente Jorge Sampaio elevou-o a Grã-Cruz da mesma Ordem.

Além da ação institucional, Carvalho dedicou-se à preservação da memória histórica do setor. A 19 de outubro de 2016, numa parceria entre a APS e a Imprensa Nacional-Casa da Moeda, publicou duas obras de referência. A primeira, "Uma Breve História do Seguro – Dos antecedentes ao final do século XVII", traça as primeiras formas rudimentares de mutualidade e risco, analisando a génese dos contratos comerciais nas cidades italianas, a expansão marítima europeia e o impacto da matemática no rigor do cálculo atuarial moderno. A segunda, "O Seguro em Portugal – Factos e Histórias 1974-2007", retrata factos como as consequências do 25 de abril, o impacto da descolonização nas seguradoras, os processos de fusão e privatização, e a adaptação das companhias nacionais às exigências europeias.

No momento da sua morte, Carvalho era Presidente Honorário da APS, uma posição que reconhecia o seu papel fundador na instituição. O velório realizou-se em Lisboa, na Basílica da Estrela, na quinta-feira, 20 de agosto, entre as 17h e as 22h, seguido de missa e funeral na sexta-feira de manhã. A sua morte marca o fim de uma era para o setor segurador português, uma era que ele próprio ajudou a construir.

Ruy de Carvalho esteve dos dois lados da relação entre Estado e seguradoras, primeiro como presidente do Instituto Nacional de Seguros, depois como primeiro presidente da associação que passou a representar as seguradoras perante o Estado
— Contexto da sua trajetória profissional
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