Na política brasileira, poucas questões tocam tanto no vínculo entre eleitor e representante quanto a forma de escolher deputados. Hugo Motta, presidente da Câmara, tenta costurar com o centrão uma mudança que só valerá em 2034, com o objetivo declarado de frear o avanço do PL, partido que cresceu sob um sistema em que votos individuais puxam outros candidatos. O acordo de cúpula, porém, ainda precisa atravessar a vontade de cada deputado, que costuma enxergar com mais clareza o próprio mandato do que o interesse coletivo de seu partido.
Modelo de reforma eleitoral racha a Câmara e ameaça acordo do centrão para frear o PL
O apoio formal de líderes não significa adesão dos deputados
Na política brasileira, poucas questões tocam tanto no vínculo entre eleitor e representante quanto a forma de escolher deputados. Hugo Motta, presidente da Câmara, tenta costurar com o centrão uma mudança que só valerá em 2034, com o objetivo declarado de frear o avanço do PL, partido que cresceu sob um sistema em que votos individuais puxam outros candidatos. O acordo de cúpula, porém, ainda precisa atravessar a vontade de cada deputado, que costuma enxergar com mais clareza o próprio mandato do que o interesse coletivo de seu partido.
O acordo que Hugo Motta fechou com o centrão para mudar a forma de eleger deputados federais começa a perder força antes de chegar ao plenário. A proposta prevê que, a partir de 2034, metade das cadeiras seja eleita em distritos e metade por lista partidária. A intenção central é conter o PL, cujos campeões de voto, como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, puxaram dezenas de colegas no sistema proporcional de lista aberta.
Só que assinar o acordo não garante o voto. Dentro do próprio centrão, deputados do baixo clero e de partidos menores temem perder espaço para lideranças locais e para governadores que controlem distritos. Podemos e Solidariedade defendem o distritão misto, e o deputado Igor Timo percorre as bancadas em busca de apoio a esse modelo, que os críticos dizem enfraquecer partidos e coalizões.
Também há resistência entre representantes de classe e a federação PT-PCdoB, dividida sobre o tema. A estratégia de Motta é empurrar a mudança para 2034, para que o medo dos mandatos atuais se dilua, e exigir uma PEC, de quórum alto. A transição de 2030 segue sem consenso, e a dúvida é se o acordo de cúpula resiste ao voto de cada deputado.
O acordo que o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), costurou com o centrão para mudar a forma de eleger deputados federais começa a se desfazer antes de chegar ao plenário. O combinado é implantar o voto distrital misto a partir de 2034. Mas o apoio formal de presidentes e líderes de partido não se traduz, necessariamente, em votos entre os deputados das mesmas legendas.
O desenho em discussão divide as cadeiras da Câmara em duas metades. Uma delas é destinada a distritos previamente delimitados, nos quais o eleitor vota num candidato local. Esse voto também conta para os partidos preencherem a outra metade, por meio de uma lista preestabelecida. A reforma mexe só na eleição de deputados federais e não toca em Senado, prefeituras, governos estaduais ou Presidência.
A motivação é conter o PL. No sistema atual, proporcional de lista aberta, os votos de todos os candidatos de um partido ou federação são somados para definir quantas cadeiras a sigla terá, e as vagas vão para os mais votados que tenham ao menos 10% do quociente eleitoral do estado. Esse mecanismo permitiu que candidatos muito votados puxassem outros. Nikolas Ferreira (PL-MG) e Lucas Pavanato (PL-SP) foram eleitos com mais de 3 milhões de votos cada; o mineiro garantiu sozinho mais 13 deputados, e o paulista levou mais sete colegas. Parlamentares do PL em outros estados tiveram papel parecido.
O centrão quer aprovar a mudança até dezembro, antes da posse dos novos congressistas, quando o PL estará maior. O líder da oposição, deputado cabo Gilberto (PL-PB), afirmou que as bancadas do PL e do Novo decidiram votar contra qualquer alteração no sistema eleitoral. Hoje são 103 deputados, número que sobe para 131 a partir de fevereiro.
O problema é que a resistência também vem de dentro do centrão. Uma ala, formada sobretudo por integrantes do baixo clero e de partidos menores, teme perder espaço para lideranças locais, como prefeitos populares e pessoas próximas a eles, que teriam contato direto com os eleitores. Há ainda o receio de que governadores, ao controlar os votos nos distritos, dizimem a oposição. Podemos e Solidariedade participaram do anúncio em favor do distrital misto, mas preferem o "distritão misto".
O deputado Igor Timo (Podemos-MG) roda as bancadas em busca de apoio ao "distritão", no qual os mais votados do estado são eleitos, sem depender dos votos do partido. Para ele, é o sistema mais representativo, e um parlamentar de votação expressiva eleger outros com votação ínfima é incompatível com a democracia. O modelo costuma encontrar resistência de senadores e dirigentes partidários, e é criticado por cientistas políticos, para quem individualiza o mandato e dificulta coalizões e identidade partidária. Timo rebate que as cúpulas seguirão fortes, ao decidir quem recebe fundo eleitoral, quem aparece na propaganda de TV e rádio e, no limite, quem pode ser candidato.
Outro grupo preocupado é o dos parlamentares de representação de classe. Com o estado dividido em distritos, um representante de professores, por exemplo, dificilmente teria base concentrada num território específico. O mesmo vale para candidatos de perfil ideológico ou ligados a um tema. A federação PT-PCdoB, com 80 deputados, ainda não debateu formalmente o assunto: parte dos petistas admite um sistema misto, outros rejeitam, temendo perder grande parte da bancada. O vice-líder Lindbergh Farias (RJ) disse que a eleição territorializada é um problema diante do aumento da participação de facções criminosas e milícias na política.
A estratégia de Motta é empurrar a vigência para 2034, diluindo o medo dos deputados pelos próprios mandatos. Combinou ainda que a mudança será por PEC, que exige 308 dos 513 votos na Câmara e 49 dos 81 no Senado, o que dificulta reversões. Para 2030, haverá um modelo de transição, mas sem consenso: o Republicanos propõe que quem superar o quociente eleitoral eleja apenas a si mesmo; o Podemos quer o distritão misto, com metade das vagas para os mais votados no estado e metade por lista partidária.
O relator, Domingos Neto (PSD-CE), que conduzirá as negociações, resume: os partidos concordam com o distrital misto em 2034, e o impasse está na transição. A dúvida agora é se o acordo de cúpula resiste ao voto individual de cada deputado.
Citations marquantes
Os partidos foram de acordo em aprovar o distrital misto para 2034, o que não tem acordo é o modelo de transição.— Domingos Neto (PSD-CE), relator
Um parlamentar com votação expressiva eleger outros com votação ínfima é incompatível com a democracia.— Igor Timo (Podemos-MG)