Presidente da Stellantis afirma que adoção integral do modelo knocked-down reduziria seus 35 mil funcionários na América do Sul para apenas 3,5 mil. BYD já produziu mais de 100 mil veículos com kits importados na fábrica de Camaçari; governo oferece incentivos fiscais que favorecem esse modelo produtivo.
Modelo de produção da BYD com kits importados ameaça até 90% dos empregos automotivos
Transformar o país de manufatura em simples ponto de montagem final
Por que a Stellantis está tão preocupada com isso? Eles não estão apenas perdendo para a BYD no mercado?
Sim, mas é mais profundo. Se o modelo de kits importados se tornar padrão, a indústria inteira muda de natureza. Não é mais manufatura — é montagem. E montagem não precisa de 35 mil pessoas.
Mas espera — a Stellantis tem 35 mil funcionários na América do Sul inteira, não só no Brasil. O número de 90% de perda de empregos é uma projeção da Stellantis ou é um dado verificado?
É uma declaração do presidente deles. Ele disse que se adotassem integralmente o modelo knocked-down, precisariam de apenas 10% da força de trabalho. É um cenário hipotético, não uma previsão do que vai acontecer.
E a BYD — eles estão realmente produzindo 100 mil carros com kits importados?
Só em Camaçari, na Bahia. Então sim, o modelo já está em escala.
Mas qual é o impacto real no emprego até agora? A BYD criou empregos em Camaçari, certo? Mesmo que sejam empregos de montagem, não são zero.
Verdade. Mas o ponto é que uma fábrica tradicional com estamparia, soldagem e pintura gera muito mais emprego por veículo produzido do que uma que só monta kits.
E o governo está consciente disso?
Aparentemente não o suficiente. Eles renovaram os incentivos fiscais em junho — US$ 463 milhões em cota de importação com alíquota zero.
Qual é a justificativa do governo?
Atração de investimentos e estímulo à eletrificação. Eles querem que o Brasil tenha carros elétricos, e a BYD é quem está trazendo a tecnologia mais rápido.
Então é um trade-off — mais carros elétricos, mas menos empregos?
Ou é um trade-off mal desenhado. Não sabemos se o governo considerou requisitos de nacionalização mínima como alternativa. Isso não está no relato.
O Pulso
- Presidente da Stellantis afirma que adoção integral do modelo knocked-down reduziria seus 35 mil funcionários na América do Sul para apenas 3,5 mil
- BYD produziu mais de 100 mil veículos com kits importados na fábrica de Camaçari, Bahia
- Governo oferece cota de US$ 463 milhões para importação de veículos eletrificados desmontados com alíquota zero
- Interesse por carros eletrificados atingiu pico de 100% em buscas no Google Trends em 2026
Presidente da Stellantis afirma que adoção integral do modelo knocked-down reduziria seus 35 mil funcionários na América do Sul para apenas 3,5 mil. BYD já produziu mais de 100 mil veículos com kits importados na fábrica de Camaçari; governo oferece incentivos fiscais que favorecem esse modelo produtivo.
Stellantis alerta que modelo de montagem com kits importados pela BYD pode reduzir até 90% dos empregos automotivos no Brasil, impactando a cadeia industrial nacional.
A indústria automotiva brasileira enfrenta uma encruzilhada que vai muito além da concorrência entre marcas. A questão central é simples e perturbadora: quanto da fabricação de um carro será de fato realizado aqui? Quando as montadoras deslocam etapas da produção para o exterior, o Brasil perde não apenas empregos diretos, mas toda uma cadeia de fornecedores e serviços que historicamente sustentou a economia industrial do país.
Em outubro deste ano, Herlander Zola, presidente da Stellantis para América Latina, fez um alerta que ecoou pela indústria. Falando a jornalistas em São Paulo no dia 7, ele apontou que o modelo de produção conhecido como knocked-down — veículos que chegam parcialmente montados do exterior e são finalizados aqui — poderia eliminar até 90% dos empregos automotivos na região. Para a Stellantis especificamente, isso significaria reduzir seus aproximadamente 35 mil funcionários na América do Sul para apenas 3,5 mil caso adotasse integralmente esse sistema de pré-montagem. A BYD, a montadora chinesa que lidera essa estratégia no Brasil, já produziu mais de 100 mil veículos com kits importados apenas em sua fábrica de Camaçari, na Bahia.
O sistema funciona de duas formas principais. No SKD (Semi Knocked Down), o veículo chega ao país já parcialmente montado, e a fábrica local completa as etapas finais. No CKD (Completely Knocked Down), os conjuntos chegam completamente desmontados e são montados aqui. A diferença parece técnica, mas tem consequências profundas. Uma fábrica que recebe conjuntos semimontados pode gerar empregos em montagem final, logística e controle de qualidade. Porém, quando etapas críticas como estamparia, soldagem da carroceria, pintura e fabricação de componentes permanecem concentradas no exterior, o impacto sobre a cadeia industrial brasileira é radicalmente diferente daquele produzido por uma unidade com operações mais completas.
O governo brasileiro, porém, tem incentivado exatamente esse modelo. Em junho deste ano, o governo ampliou um benefício às montadoras chinesas ao renovar por seis meses uma cota de US$ 463 milhões para a importação de veículos eletrificados desmontados ou semidesmontados com alíquota zero do Imposto de Importação. A medida beneficia diretamente a BYD e outras montadoras chinesas que adotam a estratégia de kits importados. A diferença de tratamento tributário entre veículos importados prontos e conjuntos destinados à montagem local pode influenciar significativamente os custos das empresas e suas decisões de investimento. Montadoras que mantêm estruturas industriais mais amplas argumentam que essa dinâmica cria condições concorrenciais distintas, sobretudo quando a importação de kits não é acompanhada por uma expansão equivalente das etapas produtivas no Brasil. O governo, por sua vez, justifica os incentivos como parte de uma estratégia de atração de investimentos e estímulo à eletrificação.
O contexto que torna tudo isso possível é o crescimento explosivo do interesse brasileiro por veículos eletrificados. Dados do Google Trends dos últimos cinco anos mostram que a busca por carros eletrificados disparou de forma expressiva, atingindo o pico de 100% do interesse de busca em 2026. A procura por modelos híbridos manteve um patamar secundário de até 18% do volume do pico, enquanto a busca por "carro a combustão" registrou um nível residual próximo de 2%. Esse deslocamento de preferência do consumidor criou uma oportunidade que as montadoras chinesas exploram com eficiência, trazendo tecnologia de bateria e eletrificação que as fabricantes tradicionais ainda estão desenvolvendo.
O que está em jogo agora é a definição de quanto valor agregado permanecerá no Brasil. A Stellantis e outras montadoras tradicionais argumentam que o modelo de kits importados esvazia a indústria local, transformando o país de um centro de manufatura em um simples ponto de montagem final. Sem as etapas de estamparia, soldagem, pintura e fabricação de componentes, desaparece não apenas o emprego direto nas fábricas, mas toda a rede de fornecedores, logística especializada e expertise técnica que se desenvolveu ao longo de décadas. A decisão sobre como regular esse modelo — se o governo mantém os incentivos fiscais ou se estabelece requisitos mínimos de nacionalização — pode definir o futuro da indústria automotiva brasileira nos próximos anos.
Citações Notáveis
O modelo de produção knocked-down poderia ameaçar até 90% dos empregos automotivos na região— Herlander Zola, presidente da Stellantis para América Latina