Havia segurança na mistura, mas as evidências completas ainda estavam sendo construídas
Em um momento em que a variante delta reacende a urgência pandêmica, o Brasil se prepara para oferecer uma terceira dose de vacina contra a Covid combinando imunizantes de fabricantes distintos — prática conhecida como aplicação heteróloga. A ciência disponível aponta para a segurança dessa mistura, mas os dados específicos para uma terceira dose ainda estão sendo construídos, deixando a decisão suspensa entre a necessidade epidemiológica e a cautela científica. Ao fundo, a OMS levanta uma questão ética mais ampla: enquanto nações ricas reforçam sua proteção, países pobres ainda aguardam a vacinação primária de suas populações.
- A variante delta e a queda da imunidade ao longo do tempo pressionam governos a agir antes que as evidências científicas estejam completas.
- Idosos brasileiros que receberam duas doses de Coronavac serão os primeiros a enfrentar a mistura com outro imunizante — uma aposta com respaldo parcial, mas sem estudos conclusivos para terceira dose.
- Países como Israel, Canadá e Alemanha já adotaram a aplicação heteróloga, emprestando credibilidade prática à estratégia mesmo na ausência de consenso científico pleno.
- A OMS eleva o tom crítico: doses de reforço em países ricos podem representar desperdício enquanto nações pobres ainda carecem da vacinação básica.
- O debate se instala entre a urgência de proteger os mais vulneráveis agora e a prudência de esperar por evidências mais sólidas sobre segurança e eficácia combinadas.
Em setembro, o Brasil daria início à aplicação de uma terceira dose de vacina contra a Covid em pessoas com mais de 70 anos e imunossuprimidos. São Paulo foi além, anunciando a expansão para maiores de 60 anos já a partir do dia 6. O ponto central da campanha era que a maioria dos idosos havia recebido a Coronavac nas duas primeiras doses e agora receberia um imunizante diferente — provavelmente a Pfizer. Essa combinação de vacinas de fabricantes distintos tem nome técnico: aplicação heteróloga.
Os estudos disponíveis ofereciam uma resposta cautelosamente positiva sobre a segurança da mistura. Pesquisas publicadas na revista The Lancet mostraram que a combinação de Astrazeneca seguida de Pfizer gerava resposta imune robusta. Um estudo com mais de 830 participantes confirmou que misturar as duas vacinas parecia seguro, embora os pesquisadores reconhecessem que mais investigações eram necessárias. Para terceira dose com vacinas diferentes, os dados ainda eram praticamente inexistentes.
Dois fatores explicavam a urgência da estratégia. A variante delta, mais transmissível e capaz de escapar parcialmente da proteção vacinal, elevou hospitalizações mesmo em países com alta cobertura. Além disso, a proteção das vacinas diminui com o tempo — especialmente em idosos, cujos sistemas imunológicos respondem menos bem aos imunizantes. Dados reais mostravam que a Coronavac tinha eficácia consideravelmente menor em pessoas acima de 80 anos.
Israel foi um dos primeiros a implementar reforços em julho, ao perceber o avanço da delta mesmo com alta vacinação. O Canadá recomendava desde junho que quem tomou Covishield na primeira dose recebesse um imunizante mRNA na segunda. A própria chanceler alemã Angela Merkel recebeu Astrazeneca na primeira dose e Moderna na segunda.
A Organização Mundial da Saúde, porém, mantinha posição crítica. A cientista-chefe Soumya Swaminathan afirmou que doses extras poderiam ser um desperdício, dada a ausência de evidências suficientes sobre segurança e eficácia dos reforços. A preocupação era mais ampla: enquanto países ricos acumulavam imunizantes para doses adicionais, nações pobres ainda lutavam para vacinar suas populações pela primeira vez. A tensão entre urgência epidemiológica e prudência científica — e entre equidade global e proteção local — permanecia no centro do debate.
Em setembro, o Brasil começaria a aplicar uma terceira dose de vacina contra a Covid em pessoas com mais de 70 anos e em imunossuprimidos. O plano do Ministério da Saúde tinha data marcada para o dia 15, enquanto São Paulo anunciou que expandiria a faixa etária para maiores de 60 anos, iniciando no dia 6. O diferencial dessa campanha de reforço era que a maioria dos idosos brasileiros havia recebido a Coronavac nas duas primeiras doses e agora receberia um imunizante diferente — provavelmente Pfizer, mas possivelmente também Janssen ou Astrazeneca. Essa prática de combinar vacinas de fabricantes distintos tem um nome técnico: aplicação heteróloga.
A pergunta que pairava sobre a estratégia era simples e urgente: era seguro misturar vacinas? Os estudos disponíveis até então ofereciam uma resposta cautelosamente positiva, mas com ressalvas importantes. Pesquisadores vinham testando combinações de imunizantes desde os anos 1990, inicialmente na tentativa de combater o HIV. Para a Covid especificamente, havia dados de segurança sobre misturas na primeira e segunda doses, mas praticamente nenhum estudo completo sobre terceira dose com vacinas diferentes. A revista The Lancet havia publicado pesquisas mostrando que a combinação de Astrazeneca seguida de Pfizer gerava uma resposta imune robusta, com células de defesa e anticorpos potentes. Outro estudo com mais de 830 participantes com 50 anos ou mais confirmou que misturar Pfizer com Astrazeneca (em qualquer ordem) parecia seguro, embora os pesquisadores reconhecessem que mais investigações eram necessárias para outras combinações de fabricantes.
Mas por que o Brasil e outros países estavam adotando essa estratégia agora? Dois fatores principais explicavam a urgência. O primeiro era a variante delta, que se mostrava mais transmissível que outras cepas e tinha capacidade de escapar parcialmente da proteção vacinal — era necessário o esquema completo para estar protegido contra ela. Com a redução das medidas de isolamento e o avanço da delta, hospitalizações cresceram mesmo em países com campanhas de vacinação avançadas. O segundo fator era a observação de que a proteção oferecida pelas vacinas diminuía com o tempo, especialmente em populações idosas, cujos sistemas imunológicos naturalmente mais frágeis respondiam menos bem aos imunizantes. Dados de vida real mostravam que a Coronavac, em particular, tinha eficácia consideravelmente menor em pessoas acima de 80 anos.
Israel, com uma das campanhas de vacinação mais avançadas do mundo, havia sido um dos primeiros a implementar doses de reforço em julho, percebendo o avanço da delta mesmo com alta cobertura vacinal. O Canadá, desde junho, recomendava que pessoas que receberam a primeira dose da Covishield (versão da Astrazeneca) tomassem um imunizante de tecnologia mRNA, como Pfizer ou Moderna, baseando-se em dados que sugeriam melhor resposta imune com a mistura. A própria chanceler alemã Angela Merkel, aos 66 anos, havia recebido aplicação heteróloga: Astrazeneca na primeira dose e Moderna na segunda.
No Brasil, uma pesquisa estava em curso para observar exatamente o que acontecia com terceira dose heteróloga em pessoas que haviam tomado duas doses de Coronavac. Mas a Organização Mundial da Saúde (OMS) mantinha posição crítica. Na quarta-feira 25 de agosto, a cientista-chefe Soumya Swaminathan afirmou que uma dose extra de vacina poderia ser um desperdício e ainda ser ineficiente, já que não havia evidências científicas suficientes sobre segurança e eficácia de reforços. A preocupação da OMS era mais ampla: enquanto países ricos concentravam imunizantes e aplicavam doses adicionais, países pobres ainda engatinhavam na vacinação básica de suas populações. Kate O'Brien, diretora de imunização da OMS, reforçou que as vacinas disponíveis deveriam ir para os mais vulneráveis e para profissionais de saúde desesperados por proteção nos países mais pobres, em vez de serem usadas como reforço em nações ricas.
Quanto aos efeitos adversos, os dados disponíveis indicavam maior frequência de reações leves a moderadas, como calafrios, quando se misturavam vacinas, mas com perfil de segurança aceitável. Ainda não estava claro se misturar vacinas era melhor que tomar três doses do mesmo imunizante — Israel, por exemplo, estava usando apenas Pfizer para sua dose de reforço. O que se sabia era que a aplicação heteróloga parecia funcionar, que alguns estudos sugeriam vantagens imunológicas, e que países desenvolvidos estavam apostando nessa estratégia. Mas as evidências completas para terceira dose heteróloga ainda estavam sendo construídas, e a tensão entre a urgência epidemiológica e a prudência científica permanecia no centro do debate.
Notable Quotes
Uma dose extra de vacina pode ser um desperdício e ainda ser ineficiente, pois não há evidências suficientes sobre segurança e eficácia— Soumya Swaminathan, cientista-chefe da OMS
As vacinas precisam ir para os mais vulneráveis e para médicos e enfermeiros desesperados por proteção nos países mais pobres do mundo— Kate O'Brien, diretora de imunização da OMS
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que o Brasil decidiu misturar vacinas justamente agora, em setembro?
A variante delta estava se espalhando rapidamente, mesmo entre pessoas completamente vacinadas. E havia sinais de que a proteção das vacinas diminuía com o tempo, especialmente em idosos. Era uma combinação de pressão epidemiológica e dados de vida real mostrando que a Coronavac, que a maioria dos idosos brasileiros havia recebido, tinha eficácia menor em pessoas muito velhas.
Mas havia estudos mostrando que era seguro misturar?
Havia estudos mostrando que era seguro misturar na primeira e segunda doses. Mas para terceira dose com vacinas diferentes? Não havia praticamente nada publicado. O Brasil estava, em certo sentido, fazendo um experimento em larga escala.
E a OMS? Ela apoiava isso?
Não. A OMS dizia que faltavam evidências e que era um desperdício. Enquanto isso, países pobres ainda lutavam para vacinar suas populações com duas doses. Havia uma questão de justiça global ali.
Então por que países ricos como Canadá e Alemanha estavam fazendo?
Porque tinham doses suficientes e estavam vendo a delta avançar. A chanceler alemã Merkel mesma recebeu Astrazeneca e depois Moderna. Alguns estudos de Oxford sugeriam que a combinação gerava mais anticorpos e células T de defesa do que usar a mesma vacina três vezes.
Quais eram os riscos conhecidos?
Mais efeitos colaterais leves a moderados, como calafrios, mas nada grave. O perfil de segurança era aceitável. O risco real era o desconhecido — como o corpo responderia a uma terceira dose de um fabricante diferente. Isso ainda estava sendo estudado.
E se o Brasil tivesse esperado mais estudos?
Teria mantido idosos com proteção declinante contra uma variante mais transmissível. Mas teria tido mais dados antes de agir. Era um dilema entre prudência e urgência.