Mistério cósmico: objeto chamado Febe pode ser buraco negro primordial

Um fragmento do universo primordial à deriva há 13 mil milhões de anos
Descrição de Febe, o possível buraco negro primordial detectado através de uma microlente gravitacional em dezembro de 2019.
Mark

Porque é que uma hora de brilho extra numa estrela distante nos faz pensar em buracos negros primordiais?

Mimi

Porque a duração é uma assinatura. Quanto mais leve o objeto que passa à nossa frente, mais depressa atravessa a nossa linha de visão. Sessenta minutos aponta para algo muito, muito pequeno — mas ainda assim massivo o suficiente para curvar a luz.

Mark

E porque é que isso exclui os planetas?

Mimi

A massa. Febe tem cerca de três vezes a massa da Lua. Nenhum planeta conhecido é tão leve. E nenhum buraco negro que conhecemos — aqueles nascidos de estrelas mortas — pode ser tão pequeno.

Mark

Então só resta o Big Bang?

Mimi

Exatamente. Se Febe é real, é um fragmento do universo primordial que sobreviveu 13 mil milhões de anos à deriva no espaço.

Mark

Mas como é que sabem que não é apenas matéria escura comum?

Mimi

Não sabem, ainda. Mas a probabilidade de ser matéria escura ordinária é cem mil vezes menor do que ser um buraco negro primordial. Os números falam por si.

Mark

E se estiverem certos?

Mimi

Então temos uma prova de que algo muito estranho e muito antigo ainda anda por aí, invisível, passando entre as estrelas.

  • Um único evento de uma hora, registado em dezembro de 2019, coloca os astrónomos diante de uma descoberta que pode reescrever a história do universo.
  • A massa calculada de Febe — três vezes a da Lua — é incompatível com qualquer buraco negro estelar ou planeta conhecido, criando uma tensão profunda com os modelos existentes.
  • A equipa testou três hipóteses concorrentes — planeta errante, planeta extragaláctico ou buraco negro primordial — e os números apontaram para a mais exótica com uma margem de cem mil para um.
  • Se confirmado, Febe seria uma janela direta para as primeiras frações de segundo após o Big Bang, antes das estrelas, antes dos átomos, antes de qualquer estrutura cósmica.
  • A descoberta reacende o debate sobre se os buracos negros primordiais podem constituir parte ou totalidade da matéria escura que permeia as galáxias.

Em dezembro de 2019, uma estrela na Grande Nuvem de Magalhães brilhou por apenas uma hora — e esse instante silencioso pode ter revelado um dos objetos mais antigos do universo. Astrónomos da Universidade de Swinburne identificaram o evento como uma microlente gravitacional causada por um objeto de massa equivalente a três vezes a da Lua, demasiado leve para ser qualquer buraco negro estelar conhecido. A hipótese que resiste à análise é a mais vertiginosa: Febe, como foi batizado o objeto, pode ser um buraco negro primordial, nascido não do colapso de uma estrela, mas do próprio caos do Big Bang — uma relíquia do tempo antes de qualquer átomo existir.

Na noite de 18 de dezembro de 2019, uma estrela na Grande Nuvem de Magalhães brilhou suavemente durante cerca de uma hora e voltou ao normal. Para a maioria, seria invisível. Para os astrónomos da Universidade de Swinburne, em Melbourne, era a assinatura inconfundível de uma microlente gravitacional — o fenómeno previsto por Einstein em que um objeto massivo curva a luz de uma estrela distante ao passar entre ela e o observador. Deram ao objeto o nome de Febe.

A questão que se seguiu foi a mais difícil: o que era, afinal, Febe? As possibilidades incluíam um planeta errante expulso do seu sistema solar, o primeiro planeta extragaláctico alguma vez detetado por microlente, ou algo consideravelmente mais perturbador — um buraco negro primordial, formado não pelo colapso de uma estrela, mas pelas flutuações de densidade dos primeiros instantes após o Big Bang.

A duração do evento foi a chave. Sessenta minutos de amplificação traduziram-se, pelos cálculos da equipa, numa massa de cerca de três vezes a da Lua — demasiado pequena para qualquer planeta conhecido e várias ordens de grandeza abaixo do mínimo de um buraco negro estelar. Apenas um buraco negro primordial poderia caber nesse intervalo.

Para confirmar, a equipa calculou a probabilidade de Febe pertencer a diferentes populações cósmicas. O halo de matéria escura que envolve as galáxias venceu por um fator de cem mil. Se a conclusão se sustentar, Febe será um dos objetos mais antigos alguma vez detetados — uma relíquia do universo primordial que atravessou 13 mil milhões de anos em silêncio antes de se revelar por uma hora numa noite de dezembro.

Na noite de 18 de dezembro de 2019, algo aconteceu que ninguém estava à espera de ver. Uma estrela na Grande Nuvem de Magalhães — a galáxia satélite mais próxima da nossa — ficou subitamente mais brilhante. Não foi um espetáculo dramático. O brilho subiu e desceu de forma suave e simétrica, como se alguém tivesse aceso e apagado uma luz com cuidado extremo. Tudo isto durou cerca de uma hora. Depois, a estrela voltou ao seu estado normal e nunca mais variou. Para os astrónomos que analisavam os dados, porém, aquela hora silenciosa representava algo extraordinário: a prova de que um objeto invisível, à deriva há 13 mil milhões de anos, tinha acabado de passar entre nós e aquela estrela distante.

O fenómeno tem um nome elegante: microlente gravitacional. É uma das previsões mais belas da teoria geral da relatividade de Einstein. Quando um objeto suficientemente massivo e compacto se coloca entre um observador e uma fonte de luz distante, a sua gravidade funciona como uma lente, curvando os raios luminosos e amplificando o brilho da estrela de forma muito característica. O padrão desse aumento é inconfundível — não se parece com nada que uma estrela variável, uma erupção solar ou um asteroide pudesse produzir. Quando a equipa de astrónomos da Universidade de Swinburne, em Melbourne, identificou este evento nos seus dados de observação de alta cadência, não tinha qualquer dúvida: estava perante um genuíno caso de microlente gravitacional. Deram ao objeto o nome de Febe.

Mas o que era, afinal, Febe? A resposta não era óbvia. Havia três possibilidades em aberto. A primeira: um planeta errante, um mundo que tinha sido expulso do seu sistema solar há muito tempo e agora vagueava sozinho pela galáxia. A segunda: um planeta que pertencia à própria Grande Nuvem de Magalhães e não à Via Láctea, o que o tornaria o primeiro planeta extragaláctico alguma vez descoberto através de microlente. A terceira possibilidade era consideravelmente mais exótica e perturbadora: Febe poderia ser um buraco negro primordial — um buraco negro microscópico que não tinha nascido do colapso de uma estrela, mas sim das flutuações de densidade que ocorreram nas primeiras frações de segundo após o Big Bang, antes de qualquer estrela ter sequer existido.

A chave para desvendar o mistério estava na duração do evento. A física das microlentes é clara: quanto mais leve é o objeto que passa à nossa frente, mais rapidamente atravessa a nossa linha de visão e mais breve é o aumento de brilho que observamos. Com sessenta minutos de duração, Febe situava-se precisamente no limiar do que os levantamentos atuais conseguem detetar. Quando a equipa inverteu os cálculos — trabalhando a física ao contrário — chegou a uma estimativa da massa: cerca de três vezes a massa da Lua. Este número era crucial. Era demasiado pequeno para ser qualquer planeta conhecido. Era também demasiado pequeno para ser qualquer tipo de buraco negro resultante do colapso de uma estrela, já que os buracos negros estelares têm uma massa mínima de cerca de cinco vezes a do Sol. Febe estava várias ordens de grandeza abaixo desse limiar. O único tipo de buraco negro que poderia ter essa dimensão era aquele que se formou no próprio Big Bang.

Para testar esta hipótese, a equipa calculou a probabilidade de o objeto pertencer a cada uma das populações possíveis: estrelas da Via Láctea, estrelas da Grande Nuvem de Magalhães, ou o halo de matéria escura que envolve e permeia ambas as galáxias. Os números foram esmagadores. O halo de matéria escura venceu por um fator de cem mil. Febe tinha cinco ordens de grandeza mais probabilidade de ser um objeto de matéria escura do que qualquer coisa associada à matéria estelar comum. Se esta conclusão se confirmar, Febe será um dos objetos mais antigos alguma vez detetados pela humanidade — formado antes das primeiras estrelas, antes dos primeiros átomos, no caos violento e denso do universo primordial. Uma janela para um tempo que ninguém consegue verdadeiramente imaginar.

A duração do evento é a pista determinante — quanto mais leve o objeto, mais rapidamente atravessa a nossa linha de visão
— Equipa de astrónomos da Universidade de Swinburne
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