Millennials ganham mais, compram casas e conquistam poder econômico e político

A economia que foi dura com eles agora é deles
Millennials passaram de símbolo de frustração econômica a controladores de riqueza e poder político.
Mark

Como uma geração que começou tão mal — desemprego em massa, salários estagnados — conseguiu se recuperar tão completamente?

Mimi

Dois fatores principais. Primeiro, o mercado de trabalho do mundo rico ficou extraordinariamente forte. Segundo, a demografia: muitos baby boomers se aposentaram durante a pandemia, criando escassez de mão de obra. Os millennials se beneficiaram dessa combinação.

Luke

Mas isso é verdade em apenas 29 de 32 países. Itália, Grécia e Japão ainda estão piores. Precisamos ser claros: essa recuperação não é universal.

Mark

E quanto à propriedade de imóveis? Esse era o grande símbolo do fracasso deles.

Mimi

Aos 30 anos, sim, estavam muito atrás. Mas aos 40, alcançaram a geração X. Precisaram de mais tempo porque estudaram mais, se casaram mais tarde, e muitos tinham dívidas estudantis.

Luke

Ainda assim, os dados mostram que jovens ricos hoje — com renda acima de 200 mil dólares — têm taxas de propriedade muito inferiores às de jovens com renda equivalente em gerações anteriores. Então há algo mais complexo acontecendo.

Mark

Eles estão realmente no poder agora?

Mimi

Sim. Comandam Meta, OpenAI, Anthropic. Governam países. Nos Estados Unidos, há 50% de chance de o próximo presidente ser um millennial. No Brasil, um de 45 anos é favorito para vencer em outubro.

Luke

Mas é importante notar: eles estão no topo porque a economia cresceu e porque há escassez de mão de obra. Não é porque a geração é especialmente talentosa — é porque as circunstâncias mudaram.

Mark

E a geração Z? Eles estão em melhor situação?

Mimi

Provavelmente não. Se a inteligência artificial disromper o mercado de trabalho, os jovens sofrerão mais. E seus gestores millennials estão investindo em tecnologias que substituem trabalho.

Luke

Isso é especulação, embora razoável. O que sabemos é que os millennials estão prestes a receber heranças massivas — cerca de 10% do PIB anual em todo o mundo rico. Isso vai ampliar ainda mais a vantagem deles.

  • Em apenas três países — Itália, Grécia e Japão — os millennials ainda ficam atrás das gerações anteriores em renda real; nos outros 29, a geração superou a comparação histórica.
  • Nos Estados Unidos, millennials já ocupam cargos de gestão na mesma proporção que a geração X ocupava na mesma idade, e representam quase um décimo dos bilionários americanos.
  • Figuras como os fundadores da OpenAI, Anthropic e Meta colocam a geração no centro do maior salto tecnológico do século, controlando ferramentas de inteligência artificial que remodelarão o trabalho global.
  • A taxa de propriedade imobiliária, historicamente o maior ponto de frustração, se equiparou à da geração X entre os millennials mais velhos, graças a mercados de trabalho aquecidos e aposentadorias aceleradas pela pandemia.
  • Heranças estimadas em 10% do PIB anual do mundo rico devem ampliar ainda mais a riqueza millennial — enquanto a geração Z pode ser a próxima a absorver o impacto das disrupções da IA.

Por décadas, os millennials carregaram o estigma de uma geração traída pelo sistema — desempregados, sem casa, endividados. Um levantamento da The Economist em 32 países ricos revela, porém, que essa narrativa envelheceu: em 29 dessas nações, essa geração ganha mais, em termos reais, do que seus predecessores ganhavam na mesma idade. O que parecia uma ferida histórica começa a se revelar uma transição — dolorosa, mas não permanente — rumo a um poder econômico e político sem precedentes para a geração.

Há uma década, os millennials eram o rosto da insatisfação econômica: desempregados após a crise de 2008, sem acesso à moradia, votando em candidatos de esquerda radical como Bernie Sanders e Jeremy Corbyn. A narrativa de uma geração traída parecia irrefutável.

Um amplo levantamento da The Economist em 32 países ricos desfaz esse retrato. Em 29 deles, os millennials — hoje entre pouco mais de 30 e cerca de 45 anos — ganham mais, em termos reais ajustados pela inflação, do que as gerações anteriores ganhavam na mesma fase da vida. As exceções são Itália, Grécia e Japão, onde o atraso persiste por razões estruturais específicas. No restante do mundo rico, da Austrália à Polônia, o progresso intergeracional se consolidou.

Esse avanço econômico se traduz em influência. Nos Estados Unidos, millennials ocupam cargos de gestão na mesma proporção que a geração X ocupava na mesma idade e representam quase um décimo dos bilionários americanos — mais que o dobro da fatia da geração X em 2011. Comandam a Meta, a OpenAI e a Anthropic, três das maiores forças em inteligência artificial. Na política, governam países como Hungria e Países Baixos, e nos mercados de apostas americanos, há cerca de 50% de chance de que o próximo presidente dos EUA seja um millennial.

A moradia, historicamente o maior símbolo da exclusão millennial, também se reequilibrou. Embora aos 30 anos estivessem atrás da geração X em taxas de propriedade, os millennials mais velhos, agora na casa dos 40, já igualaram ou se aproximaram muito dos predecessores — beneficiados por mercados de trabalho mais fortes e por governos que flexibilizaram condições de financiamento.

Dois motores explicam a virada: a força atual do mercado de trabalho no mundo rico e a demografia. A pandemia acelerou aposentadorias de baby boomers, abrindo espaço em cargos seniores que uma força de trabalho jovem insuficiente não consegue preencher. Os millennials colhem os frutos dessa escassez relativa de mão de obra.

O horizonte aponta para ainda mais acumulação. Heranças equivalentes a cerca de 10% do PIB anual do mundo rico devem fluir progressivamente para essa geração. Enquanto isso, a geração Z pode ser a próxima a enfrentar uma ruptura — desta vez provocada pela inteligência artificial que seus gestores millennials ajudaram a construir. A economia que foi cruel com os millennials na juventude agora é, em grande medida, deles.

Há uma década, os millennials eram o símbolo da frustração econômica. Desempregados em massa durante a crise grega, com salários estagnados na Grã-Bretanha, ocupavam as ruas em movimentos como Occupy Wall Street e UK Uncut. Votavam em Bernie Sanders, Jeremy Corbyn, Jean-Luc Mélenchon — veteranos da esquerda que falavam a linguagem da insatisfação. A narrativa era clara: essa geração havia herdado um mundo quebrado.

Essa história não é mais verdadeira. Um levantamento da The Economist sobre a renda de millennials em 32 países ricos revela uma transformação radical. Em 29 desses países, a geração — hoje entre pouco mais de 30 e cerca de 45 anos — ganha mais do que suas gerações anteriores tinham na mesma idade, quando ajustado pela inflação. Apenas três exceções destoam: Itália, Grécia e Japão. Os italianos de 30 anos ganham 10% menos que a geração X ganhava nessa idade. Os gregos continuam atrás dos jovens adultos da década de 2000, antes da crise de 2009. No Japão, a renda familiar de uma pessoa de 35 anos em 2019 era inferior à de alguém da mesma idade em 1994. Mas esses são casos isolados. Na Austrália, Reino Unido, França, Estados Unidos e Polônia, o progresso entre gerações acelerou ou se mantém sólido.

O avanço econômico se traduz em poder. Millennials americanos têm hoje a mesma probabilidade de ocupar um cargo de gestão que a geração X tinha na mesma idade. No setor de tecnologia, a geração se enriqueceu de forma desproporcional: representam quase um décimo dos bilionários americanos, mais que o dobro da participação da geração X em 2011. Comandam a Anthropic, a OpenAI e a Meta — três das maiores potências em inteligência artificial, controlando uma das tecnologias mais transformadoras já criadas. Na política, supostamente domínio dos mais velhos, os millennials governam a Hungria, os Países Baixos, a Arábia Saudita e Nova York. No Brasil, um direitista de 45 anos, enquadrado no limite superior da geração, é o favorito para vencer o segundo turno presidencial de 25 de outubro contra um presidente de esquerda com 80 anos. Nos Estados Unidos, os mercados de apostas atribuem cerca de 50% de probabilidade de que o próximo presidente seja um millennial — Alexandria Ocasio-Cortez, Jon Ossoff ou JD Vance, todos entre 31 e 45 anos.

A moradia, historicamente a maior fonte de queixa, também mudou. Aos 30 anos, cerca de 40% dos millennials americanos possuíam casa própria, bem menos que a geração X na mesma idade. Mas entre os millennials mais velhos, agora na casa dos 40, a taxa de propriedade é exatamente igual à da geração X. No Reino Unido, embora aos 30 anos estivessem 20 pontos percentuais atrás, aos 40 haviam reduzido essa diferença pela metade, segundo o Institute for Fiscal Studies. Os millennials mais velhos se beneficiaram da economia mais forte, que permitiu poupar mais para entrada em imóvel. Governos flexibilizaram exigências para financiamentos. Muitos com diploma universitário precisaram de tempo para reduzir dívidas estudantis, mas agora acumulam patrimônio mais rapidamente que gerações anteriores na mesma idade.

Dois fatores explicam essa virada: economia e demografia. A crise financeira de 2007-2009 atingiu millennials com especial dureza — funcionários jovens são sempre os últimos a entrar e os primeiros a sair em recessões. Hoje, porém, o mercado de trabalho do mundo rico está tão forte quanto jamais esteve. A demografia também ajuda. Após a crise, muitos baby boomers permaneceram no trabalho para recompor reservas para aposentadoria, reduzindo cargos seniores disponíveis. A pandemia de covid-19 acelerou as aposentadorias: um estudo americano identificou 3 milhões de "aposentados excedentes" até o fim de 2022. Não há jovens trabalhadores em número suficiente para substituir os mais velhos que deixam seus postos. Os millennials se beneficiam dessa relativa escassez de mão de obra.

O futuro parece ainda mais promissor. Millennials estão prestes a receber heranças substanciais. Estimativas indicam que bens deixados por pessoas falecidas já equivalem, a cada ano, a cerca de 10% do PIB em todo o mundo rico. O Institute for Fiscal Studies calcula que, em termos reais, a herança mediana de pessoas nascidas na Inglaterra na década de 1980 será de cerca de 136 mil euros (aproximadamente 180 mil dólares), ante 66 mil euros para as nascidas na década de 1960. Enquanto isso, a geração Z — nascida aproximadamente entre 1997 e 2012 — pode enfrentar desafios maiores. Se a inteligência artificial provocar disrupções no mercado de trabalho, trabalhadores jovens voltarão a arcar com o peso maior. Seus gestores millennials investem em tecnologias que substituem mão de obra. A economia que foi dura com os millennials na juventude agora é deles. E eles estão bem posicionados para o que virá.

Os millennials se beneficiam dessa relativa escassez de mão de obra
— Análise do levantamento da The Economist
Em termos reais, a herança mediana de pessoas nascidas na Inglaterra na década de 1980 será de cerca de 136 mil euros, ante 66 mil euros para as nascidas na década de 1960
— Institute for Fiscal Studies
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