O passivo, com o tempo, consome seu patrimônio
Mauro Silva, tetracampeão mundial e dirigente do futebol paulista, levanta uma questão que vai além dos gramados: gerações de atletas brasileiros chegam ao auge financeiro sem jamais terem aprendido a diferença entre gastar e investir. O padrão — casas, carros, barcos acumulados como troféus — revela não uma fraqueza individual, mas uma lacuna estrutural que começa nas categorias de base e se estende, com variações, até as grandes ligas do mundo. A riqueza que poderia durar uma vida inteira se dissolve, muitas vezes, antes mesmo da aposentadoria.
- Jogadores brasileiros recebem salários extraordinários mas consomem seu patrimônio em passivos — imóveis múltiplos, embarcações, aeronaves — que drenam recursos mês a mês em vez de gerá-los.
- O fenômeno não respeita fronteiras: atletas da NBA, em uma das ligas mais ricas do mundo, também enfrentam colapsos financeiros anos após o fim da carreira.
- A comparação com o futebol europeu é reveladora — Xavi e Iniesta construíram legados dentro e fora de campo com um padrão de vida deliberadamente simples, enquanto o jogador brasileiro adotou o estilo de celebridade hollywoodiana.
- A raiz do problema, segundo Silva, está na ausência de orientação financeira real nas categorias de base: o jovem de 16 anos que assina seu primeiro contrato não sabe distinguir ativo de passivo.
- A solução proposta passa por assessoria financeira estruturada desde cedo e, numa visão mais ampla, pelo engajamento de ex-atletas na política como agentes de transformação social.
Mauro Silva fala sobre um problema que o acompanha desde que deixou os gramados: a falta de educação financeira que corrói o patrimônio de jogadores de futebol muito antes da aposentadoria. Tetracampeão mundial e vice-presidente da Federação Paulista de Futebol desde 2015, ele não trata o tema como detalhe — enxerga uma falha estrutural que começa nas categorias de base.
O diagnóstico é direto: jogadores ganham cifras que suas famílias jamais imaginaram, mas gastam proporcionalmente mais — e gastam errado. Investem em passivos que drenam dinheiro mês após mês: cinco casas, dez barcos, helicópteros. O padrão se repete em ligas inteiras. Mesmo na NBA, muitos atletas que receberam fortunas enfrentam crises financeiras anos depois. O problema não é exclusivo do Brasil, mas aqui ganha uma dimensão particular.
Silva passou 13 anos na Espanha e viu de perto como atletas europeus vivem de forma mais contida — apartamento menor, carro simples, metrô como transporte. Xavi, Iniesta: nomes que fizeram história com uma vida próxima do comum. No Brasil, o jogador virou celebridade de Hollywood, uma estrela que não consegue sair de um restaurante sem ser reconhecida. Essa proporção, como ele diz, tomou dimensões incríveis.
O que falta, na visão de Silva, é assessoria financeira real desde cedo. Se um jovem atleta aprendesse a separar parte do salário e investir em ativos que geram renda, nunca teria dificuldade depois de pendurar as chuteiras. Mas ninguém ensina isso nas categorias de base. O menino que chega aos 16 anos com seu primeiro contrato profissional tem um agente, talvez um assessor — mas ninguém que o oriente de verdade sobre a diferença entre gastar e investir.
Silva vai além do diagnóstico. Convidou companheiros do tetracampeonato — Cafu, Raí, Dunga — a entrar na política, vendo nela uma forma de mudar a sociedade de verdade. O raciocínio é simples: na política não há vácuo. Se uma cadeira fica vazia, alguém a ocupa. E Silva prefere que sejam pessoas que entendem de transformação, de disciplina, de vitória.
Mauro Silva senta à frente das câmeras do programa Game Changers, do InfoMoney, e fala sobre um problema que o persegue desde que deixou os gramados: a falta de educação financeira que corrói o patrimônio de jogadores de futebol muito antes da aposentadoria chegar. Tetracampeão mundial pela Seleção Brasileira e agora vice-presidente da Federação Paulista de Futebol desde 2015, ele enxerga a questão não como um detalhe, mas como uma falha estrutural que começa nas categorias de base.
O diagnóstico é direto. Jogadores ganham cifras que seus pais não imaginavam, mas gastam proporcionalmente mais — e gastam errado. Investem em passivos, aquelas coisas que drenam dinheiro do bolso mês após mês: cinco casas, dez barcos, helicópteros, aviões. O padrão se repete em ligas inteiras. Até na NBA, a liga profissional de basquete dos Estados Unidos, conhecida por seus modelos sofisticados de gestão, muitos atletas que recebem fortunas acabam enfrentando crises financeiras anos depois. O problema não é exclusivo do Brasil, mas aqui ele ganha uma dimensão particular.
Silva compara o comportamento do jogador brasileiro com o europeu, e a diferença é gritante. Ele passou 13 anos na Espanha, jogou pelo La Coruña, e viu de perto como atletas europeus vivem de forma mais contida. Um apartamento menor, um carro simples, metrô como transporte. Xavi no Barcelona, Iniesta no Japão — nomes que fizeram história com uma vida mais próxima do comum. Aqui no Brasil, o jogador virou celebridade de Hollywood, uma estrela que não consegue sair do restaurante sem ser reconhecido. Essa proporção, como ele diz, tomou dimensões incríveis.
O que falta, na visão de Silva, é assessoria financeira real desde cedo. Se um jovem atleta aprendesse a separar uma parte do salário e investir em ativos — coisas que geram renda, que multiplicam o patrimônio — nunca teria dificuldade financeira depois de pendurar as chuteiras. Mas ninguém ensina isso nas categorias de base. O menino que chega aos 16 anos recebendo seu primeiro contrato profissional não tem educação financeira. Tem um agente, talvez um assessor, mas ninguém que realmente o oriente sobre a diferença entre gastar e investir.
Silva não se limita a diagnosticar. Desde que ingressou nos bastidores políticos do futebol, em 2015, ele passou a acreditar que a transformação precisa ser mais ampla. Convidou companheiros do tetracampeonato — Cafu, Raí, Dunga — a entrar na política, vendo nela uma forma de mudar a sociedade de verdade. Dunga, por exemplo, está fazendo trabalho social no Rio Grande do Sul. Imagina o que essas pessoas, com esse coração, não fariam em Brasília? O raciocínio é simples: se queremos um país melhor, precisamos nos envolver. Na política não há vácuo. Se uma cadeira fica vazia, alguém ocupa aquele espaço. E Silva prefere que sejam pessoas que entendem de transformação, de disciplina, de vitória.
Notable Quotes
Falta no Brasil uma educação financeira nas categorias de base. Se o jogador separar uma parte e investir, não vai ter dificuldade financeira nunca mais na vida.— Mauro Silva
O jogador compra muito passivo e pouco ativo. E o passivo, com o tempo, consome o seu patrimônio.— Mauro Silva
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que você acha que a educação financeira não chega às categorias de base do futebol?
Porque ninguém vê isso como prioridade. O foco é no talento, na técnica, no físico. Ninguém senta com um menino de 16 anos e explica que comprar dez carros é diferente de investir em algo que gera renda.
E os pais? Eles não orientam?
Muitas vezes os pais também não têm educação financeira. O menino vem de uma comunidade onde ganhar aquele dinheiro é uma transformação total. Aí chega um agente, um assessor, e ninguém fala a verdade: você precisa investir em ativos, não em passivos.
Você mencionou a NBA. Como é possível que jogadores que ganham milhões acabem quebrados?
Porque o padrão é o mesmo em todo lugar. O jogador tem uma tendência natural a consumir, a mostrar status. Compra casas, barcos, aviões. Tudo isso consome o patrimônio com o tempo. É um ciclo que se repete.
E o jogador europeu? Por que ele não cai nessa armadilha?
A cultura é diferente. Lá o jogador vive de forma mais simples, mais discreta. Não há essa pressão de ser uma celebridade de Hollywood. Ele anda de metrô, mora em um apartamento menor. É uma vida mais normal, mais sustentável.
Você acredita que a política pode mudar isso?
Acredito que pessoas com experiência, com disciplina, com história de vitória, podem fazer diferença. Se conseguirmos colocar gente que entende de transformação nos espaços de poder, talvez consigamos mudar a estrutura. Mas alguém tem que estar lá.
E se ninguém quiser?
Então o vácuo fica vazio, e outros ocupam. Não posso aceitar isso.