Finalmente posso jogar futebol completamente livre
Jankto esperou até os 27 anos para se assumir, citando a cultura homofóbica do futebol profissional como razão para o atraso em relação a outras profissões. Enquanto a Fifa apoiou publicamente Jankto, a mesma entidade enfrentou críticas por proibir braçadeiras arco-íris na Copa do Qatar, país que criminaliza atos homossexuais.
- Jakub Jankto, 27 anos, primeiro jogador internacional em atividade a se declarar gay
- 45 caps pela seleção tcheca desde 2017; quase 100 partidas pelo Sampdoria
- República Tcheca descriminalizou homossexualidade em 1962 e legalizou uniões entre pessoas do mesmo sexo em 2006
- Jankto recebeu 99% de reações positivas após anúncio; recebeu ofertas de patrocínio
Jakub Jankto, meio-campista tcheco, torna-se primeiro jogador internacional em atividade a se declarar gay publicamente, descrevendo a experiência como libertadora e recebendo apoio de figuras importantes do esporte.
Jakub Jankto esperou até os 27 anos para dizer em voz alta o que sabia sobre si mesmo. Se tivesse escolhido qualquer outra profissão — uma fábrica, um banco, qualquer coisa além do futebol profissional — ele teria feito isso uma década antes. Mas o meio-campista tcheco carregou o segredo até o mês passado, quando se tornou o primeiro jogador internacional em atividade a se declarar gay publicamente. "O futebol é um pouco homofóbico, mas acredito que com o meu exemplo vai melhorar", disse ele, sentado no campo de treinamento do Sparta Praga. "Conheço muitas pessoas que trabalham em fábricas ou bancos e são abertamente gays, mas no futebol é sempre uma decisão difícil."
O anúncio foi bem recebido. Neymar o apoiou. Grupos de direitos gays celebraram. A Fifa compartilhou sua aprovação nas redes sociais. Mas a reação também expôs uma contradição incômoda: dois meses antes, a mesma Fifa havia enfrentado críticas por proibir braçadeiras arco-íris de times europeus na Copa do Mundo do Qatar, um país que criminaliza atos homossexuais. Uma autoridade do Qatar havia chamado a homossexualidade de "defeito mental". Os torcedores foram impedidos de demonstrar apoio aos direitos dos gays dentro dos estádios. O futebol, parecia, tinha duas vozes.
Jankto descreveu sua vida desde o anúncio como uma libertação. Ele esperava insultos, abuso, reações hostis — o tipo de coisa que assombrou jogadores anteriores que se assumiram. Nada disso aconteceu. "Finalmente posso jogar futebol completamente livre e não preciso pensar nisso, não apenas em campo, mas também fora dele", disse ele. "Talvez eu estivesse esperando alguma reação ruim, mas 99% delas foram muito boas." Ele recebeu ofertas de patrocínio. A vida mudou.
Mas Jankto é uma exceção em um esporte onde a exceção é rara. Poucos jogadores gays revelaram sua sexualidade enquanto ainda jogavam. Thomas Hitzlsperger, da Alemanha, esperou até se aposentar. Josh Cavallo se tornou o primeiro jogador abertamente gay de um clube de primeira divisão em 2021, no Adelaide United, na Austrália. Jake Daniels, do Blackpool, saiu do armário no ano passado — mais de três décadas depois que Justin Fashanu fez o mesmo no final de sua carreira e enfrentou uma reação tão hostil que se suicidou em 1997. No futebol feminino, a história é diferente. Megan Rapinoe e muitas outras atletas importantes são declaradamente lésbicas. Jankto citou a goleira tcheca Barbora Votiková, que joga no Paris Saint-Germain, como inspiração. "Talvez os homens tenham mais medo", disse ele.
O medo vinha de um lugar específico. Dos 15 aos 26 anos, Jankto tentou se relacionar com mulheres. Nunca funcionou. Ele se sentia pressionado para atender às expectativas heterossexuais depositadas nos astros do futebol masculino — uma pressão que, segundo Stefan Lawrence, professor de gestão de negócios esportivos na Universidade Beckett, em Leeds, é estrutural. O futebol feminino tem uma "cultura mais aberta e receptiva" porque desafia as normas de gênero tradicionais. O futebol masculino historicamente fez o oposto: confirmou e reforçou papéis tradicionais, criando uma "cultura que promove tacitamente a heterossexualidade compulsória". "No ano passado eu disse que isso não fazia sentido", contou Jankto. "Eu não queria mais me esconder."
A República Tcheca, seu país, facilitou a decisão. Entre os ex-membros do bloco comunista na União Europeia, é um dos mais progressistas em direitos LGBTQIA+. Descriminalizou a homossexualidade em 1962. Igualou a idade de consentimento em 1990. Legalizou uniões entre pessoas do mesmo sexo em 2006. Jankto revelou sua orientação sexual primeiro para amigos próximos e familiares, incluindo sua parceira, a modelo Markéta Ottomanská, com quem terminou — eles têm um filho de 3 anos. Depois contou a seu treinador e companheiros de equipe. Depois foi a público. "Com certeza é melhor para mim dizer isso na República Tcheca, porque estou em casa. Provavelmente eu não teria dito na Espanha", disse ele, referindo-se ao tempo que passou no Getafe.
Jankto tem 45 caps pela seleção tcheca desde sua estreia em 2017. Jogou quase cem partidas pelo Sampdoria após uma transferência de 15 milhões de euros do Udinese. Ajudou a República Tcheca a chegar às quartas de final do Campeonato Europeu em 2021. Mas ele ressaltou que os problemas de preconceito no futebol vão além dos cantos homofóbicos das arquibancadas. "Não acho que seja um problema dos torcedores, é um problema geral", disse. A Fifa e outros órgãos governamentais "podem ajudar mais", mas a mudança precisa ser mais profunda. O diretor de comunicação do Sparta, Ondřej Kasík, disse que o clube "decidiu ficar em algum lugar no meio, não se tornar ativista, mas ao mesmo tempo proteger Jakub e explicar às pessoas que o clube o apoia totalmente".
Para os jogadores mais jovens, porém, a decisão de Jankto já repercutiu. Kai Jupa-Williams, um canadense de 15 anos que se mudou para Praga para jogar na equipe juvenil do Sparta, disse que foi "corajoso da parte dele" e que isso faria com que "outras pessoas tivessem menos medo" de se assumir. Jankto não quer ser a face pública do movimento LGBT+, embora apoie o trabalho dos grupos de defesa. Ele espera ser lembrado por suas façanhas em campo, não por sua orientação sexual. "Não quero ser o líder ou o porta-voz dessa comunidade. Não quero que as pessoas se lembrem de mim como gay, mas como um bom jogador e um jogador corajoso."
Citações Notáveis
O futebol é um pouco homofóbico, mas acredito que com o meu exemplo vai melhorar— Jakub Jankto
Não quero ser o líder ou o porta-voz dessa comunidade. Não quero que as pessoas se lembrem de mim como gay, mas como um bom jogador e um jogador corajoso— Jakub Jankto
A Conversa do Hearth Outra perspectiva sobre a história
Por que Jankto esperou até os 27 anos para se assumir, quando outras profissões parecem mais abertas?
Ele mesmo disse: o futebol é diferente. Há uma pressão cultural muito específica para confirmar papéis tradicionais de gênero. Ele tentou se relacionar com mulheres por mais de uma década porque sentia que era o que se esperava dele.
A Fifa apoiou Jankto publicamente, mas dois meses antes havia proibido braçadeiras arco-íris na Copa do Qatar. Como isso se encaixa?
É uma contradição clara. A Fifa tem duas vozes — uma para situações como essa, outra para quando está em um país que criminaliza a homossexualidade. Mostra que o apoio é seletivo, não estrutural.
O futebol feminino parece ter uma cultura muito diferente. Por quê?
Porque desafia as normas de gênero desde o início. O futebol masculino historicamente fez o oposto — reforçou papéis tradicionais. Isso cria uma "heterossexualidade compulsória" que é difícil de quebrar.
Jankto recebeu 99% de reações positivas. Isso significa que o problema está resolvido?
Não. Ele mesmo disse que o problema é sistêmico, não apenas nos insultos das arquibancadas. Uma pessoa tendo uma experiência positiva não muda a estrutura que mantém outras pessoas no armário.
Por que ele não quer ser a face do movimento LGBT+?
Porque quer ser lembrado como jogador, não como símbolo. Mas sua existência já é simbólica — jogadores mais jovens como Kai Jupa-Williams já estão vendo que é possível.
A República Tcheca sendo progressista ajudou?
Absolutamente. Ele disse que provavelmente não teria se assumido se ainda estivesse na Espanha. O contexto nacional importa tanto quanto o contexto do futebol.