O manuscrito data de 1404-1438 e viajou pela Europa por séculos antes de chegar à Biblioteca Beinecke de Yale, onde permanece como um dos maiores mistérios da história medieval. Testes de IA da Universidade de Alberta sugeriram hebraico como idioma original, mas especialistas contestam a precisão; família turca propõe dialeto turco antigo e afirma ter decifrado 300 palavras.
Manuscrito Voynich: o enigma medieval que desafia até inteligência artificial
Um texto que ninguém consegue ler, guardado há séculos
Por que esse manuscrito em particular captura tanta atenção? Existem outros textos antigos não decifrados.
Porque ele não é apenas antigo — é recente o suficiente para ter sido escrito por alguém que poderíamos conhecer, mas antigo o suficiente para estar completamente perdido. E porque está aqui, acessível, esperando.
Mas precisamos ser claros: ninguém realmente decifrou isso. A IA não decifrou. A família turca diz que decifrou 300 palavras, mas isso não foi validado por especialistas em turco antigo.
Exatamente. É por isso que Lisa Fagin Davis insiste que qualquer teoria deve ser replicável e fazer sentido. Não é suficiente dizer "achei a resposta".
E se a família Ardic estiver certa? O que muda?
Muda tudo. De repente, um documento que parecia ser um código ou uma brincadeira torna-se um manual prático medieval — receitas, medicina, conhecimento reprodutivo.
Mas ainda não sabemos se estão certos. E mesmo que estejam, ainda não sabemos quem escreveu, por quê, ou como ele viajou pela Europa por 250 anos desaparecido.
Então o mistério não termina mesmo que a língua seja identificada?
Não. A língua é apenas a primeira porta. Depois vêm todas as outras perguntas — autoria, propósito, contexto histórico.
E a IA? Por que falhou?
Porque a IA é tão boa quanto os padrões que lhe ensinamos. Se o texto é pequeno demais, ou se mistura idiomas, ou se usa ortografia não-padrão, os algoritmos estatísticos perdem a confiança.
Então talvez a resposta seja mais simples do que pensamos — apenas uma língua rara, escrita de forma incomum?
Talvez. Ou talvez seja exatamente o que parece: um mistério que ainda não temos ferramentas para resolver.
The Pulse
- Pergaminho datado de 1404-1438, adquirido por Wilfrid Voynich em 1912
- Guardado na Biblioteca Beinecke da Universidade de Yale
- Família turca afirma ter decifrado 300 palavras em dialeto turco antigo
- IA da Universidade de Alberta sugeriu hebraico, mas teoria foi contestada por especialistas
O manuscrito data de 1404-1438 e viajou pela Europa por séculos antes de chegar à Biblioteca Beinecke de Yale, onde permanece como um dos maiores mistérios da história medieval. Testes de IA da Universidade de Alberta sugeriram hebraico como idioma original, mas especialistas contestam a precisão; família turca propõe dialeto turco antigo e afirma ter decifrado 300 palavras.
O Manuscrito Voynich, documento medieval de língua e autoria desconhecidas guardado em Yale, continua intrigando estudiosos após mais de 100 anos. Recentes tentativas com IA e análises linguísticas ainda não produziram decifração definitiva aceita pela comunidade acadêmica.
Há mais de um século, um livro permanece trancado num porão. Não é um tesouro roubado ou um segredo de Estado — é algo talvez mais perturbador: um texto que ninguém consegue ler. O Manuscrito Voynich, guardado na Biblioteca de Livros Raros e Manuscritos Beinecke da Universidade de Yale, é um documento do século XV escrito numa língua que desafia não apenas estudiosos medievalistas, mas também os algoritmos mais sofisticados da inteligência artificial contemporânea.
O pergaminho chegou aos nossos dias desgastado e amarelado, sua origem envolta em lacunas. Testes com carbono realizados em 2011 estabeleceram que o material data de entre 1404 e 1438, e a análise da tinta confirmou compatibilidade com tintas daquele período. Mas quem o escreveu permanece um mistério. O nome que carrega — Manuscrito Voynich — vem de Wilfrid Voynich, um colecionador e livreiro que o adquiriu em 1912, embora nunca tenha revelado sua procedência. Apenas após sua morte sua esposa mencionou que ele havia sido comprado de jesuítas nos arredores de Roma. Antes disso, o documento havia viajado pela Europa durante séculos, desaparecendo por 250 anos antes de ressurgir. O primeiro registro conhecido remonta ao final do século XVI, quando o Sacro Imperador Romano Rodolfo II o possuía, acreditando que havia sido escrito pelo filósofo e alquimista britânico Roger Bacon.
Ao longo dos anos, especulações sobre a autoria multiplicaram-se. Alguns sugeriram Leonardo da Vinci; outros, um monge anônimo; ainda outros, que se tratava simplesmente de uma elaborada brincadeira. Mas a datação por carbono descartou vários desses nomes — Bacon viveu no século XIII, Da Vinci nasceu em 1452, e Voynich adquiriu o manuscrito séculos depois. O que restou foi o enigma puro: um texto numa língua desconhecida, de autoria incerta, que ninguém conseguiu decifrar de forma convincente.
Nos últimos anos, a inteligência artificial foi convocada para o desafio. Em 2023, Greg Kondrak e Bradley Hauer, professor e aluno de pós-graduação da Universidade de Alberta no Canadá, anunciaram que haviam conseguido identificar o idioma original. Eles traduziram a Declaração Universal dos Direitos Humanos para 380 línguas e usaram algoritmos estatísticos complexos para treinar um computador a reconhecer padrões linguísticos. O sistema identificou o idioma correto em até 97% dos casos de teste. Quando aplicado ao Manuscrito Voynich, o algoritmo sugeriu hebraico como língua original, propondo que a primeira frase completa seria algo como "Ela fez recomendações ao padre, ao chefe da casa, a mim e a outras pessoas."
Mas a comunidade acadêmica não se convenceu. Lisa Fagin Davis, diretora executiva da Academia Medieval da América e estudiosa de longa data do manuscrito, contestou a precisão da tradução. Ela estabeleceu um critério claro para o que constituiria uma solução válida: a teoria deve ser avaliada rigorosamente, deve ser replicável por outros estudiosos, e deve resultar em algo que faça sentido coerente. A proposta do hebraico, segundo Davis, não satisfazia esses requisitos.
Mais recentemente, uma abordagem diferente emergiu. Ahmet Ardic, engenheiro eletricista turco cuja paixão é pesquisar línguas turcas e etimologia, encontrou uma cópia do manuscrito online há quatro anos e começou a trabalhar nele sozinho. Depois pediu ajuda aos seus dois filhos. A família Ardic publicou um vídeo no YouTube apresentando sua teoria: o manuscrito estaria escrito num dialeto turco antigo ou numa combinação de dialetos, principalmente em ortografia fonêmica — a linguagem escrita como é falada. Segundo um de seus filhos, a família já decifrou pelo menos 300 palavras e possui vocabulário suficiente para ler aproximadamente 30% do texto.
Se estiverem corretos, o conteúdo do manuscrito seria notavelmente prático para sua época. A família Ardic afirma que o documento contém receitas, detalhes sobre pomadas medicinais, e informações sobre reprodução — incluindo instruções sobre como realizar uma cesariana corretamente e refutações de crenças populares da época, como a noção de que comer mais ajudaria a conceber um filho homem. Davis reconheceu que as alegações da família Ardic "se sustentam muito bem até o momento", mas permanece cautelosa, aguardando a avaliação de um especialista em línguas turcas antigas que possa validar o trabalho independentemente.
O Manuscrito Voynich continua guardado em Yale, esperando. Nenhuma das teorias propostas até agora resistiu ao escrutínio acadêmico rigoroso — nem os criptógrafos do Exército americano conseguiram quebrá-lo, nem os cidadãos que formulam teorias online, nem os algoritmos de inteligência artificial. O que permanece é um documento que nos confronta com os limites do conhecimento: um texto que pode estar perfeitamente legível para quem conhece a chave, mas que para nós segue sendo um silêncio eloquente.
Notable Quotes
Para que uma teoria se sustente, ela deve ser avaliada, ser replicável por outros estudiosos e resultar em algo que faça sentido— Lisa Fagin Davis, diretora executiva da Academia Medieval da América
Já decifrou pelo menos 300 palavras e está confiante de que agora possui vocabulário suficiente para ler pelo menos 30% do manuscrito— Um dos filhos de Ahmet Ardic, sobre o trabalho da família