Mãe retorna aos estudos após 21 anos e ingressa na UFPB com apoio do filho

Gracilene sacrificou sua formação educacional por 21 anos para dedicar-se à criação do filho, adiando seus estudos universitários até a idade adulta.
O tempo longe da escola não a impediu de chegar onde queria
Gracilene reflete sobre sua aprovação na UFPB após 21 anos afastada dos estudos.
Mark

O que a manteve estudando depois de duas listas de espera?

Mimi

Acho que foi ver que era possível. Na primeira tentativa, eu já tinha ficado na lista. Isso mostrou que eu conseguia competir, que não era um sonho impossível. Quando fica na lista de espera duas vezes, você começa a acreditar que a terceira pode ser diferente.

Mark

E o filho, qual era o papel dele nesse processo?

Mimi

Guillermy estava comigo desde o começo. A gente fez o curso preparatório junto, estudava junto. Ele me via estudando, me via tentando. Acho que isso importava para ele também. Quando você vê alguém que você ama lutando por algo, você quer ajudar.

Mark

Você pensou em desistir em algum momento?

Mimi

Pensei, sim. Depois de 21 anos longe da escola, você tem dúvidas. Mas tinha algo que não deixava eu parar. Talvez fosse saber que meu filho estava vendo isso, que ele estava comigo nessa jornada.

Mark

Como foi o primeiro dia de aula?

Mimi

Foi muito emocionante. Guillermy me levou até lá, como se estivesse me levando para a escola. E quando chegou a hora de se despedir, ele fez aquele beijo na testa que eu fazia com ele quando era pequeno. Naquele momento, tudo fez sentido.

Mark

Você se vê terminando o curso?

Mimi

Vejo, sim. Vai ser difícil, mas agora eu sei que consigo. Se consegui voltar depois de 21 anos, se consegui passar no Enem três vezes, consigo terminar um curso. É só continuar.

  • Uma gravidez aos 18 anos fechou a porta da escola para Gracilene em 2004, e ela permaneceu do lado de fora por mais de duas décadas enquanto criava dois filhos.
  • Em 2022, mãe e filho se matricularam juntos em um cursinho preparatório, transformando o que parecia um sonho distante em um plano concreto e compartilhado.
  • Duas listas de espera consecutivas no Enem testaram sua persistência, mas Gracilene voltou pela terceira vez em 2024 e finalmente conquistou a aprovação.
  • No primeiro dia de aula na UFPB, Guillermy beijou a testa da mãe — invertendo o gesto que ela fazia com ele na infância, quando o levava à escola.
  • Gracilene não vê os 21 anos dedicados aos filhos como perda, mas como parte de uma história que agora, aos 39 anos, ganha um novo capítulo.

Há histórias que não se encerram com uma interrupção — apenas aguardam o momento certo para continuar. Gracilene Gonçalves abandonou a escola aos 18 anos, em 2004, ao descobrir que estava grávida, e passou duas décadas dedicando-se à criação dos filhos sem jamais apagar o desejo de estudar. Aos 39 anos, após três tentativas no Enem e 21 anos de distância das salas de aula, ela conquistou uma vaga em Ciências Biológicas na Universidade Federal da Paraíba — acompanhada, no primeiro dia, pelo mesmo filho que havia motivado sua pausa.

Gracilene Gonçalves tinha 18 anos quando a gravidez interrompeu sua trajetória escolar, em 2004. Durante as duas décadas seguintes, enquanto criava Guillermy Douglas e um segundo filho, o desejo de voltar a estudar permaneceu vivo — silencioso, mas presente. A porta parecia fechada. Ela nunca havia feito um vestibular.

Em 2022, aos 39 anos, Gracilene tomou uma decisão que mudaria o rumo de sua história: ela e Guillermy, então com 18 anos, se inscreveram juntos em um curso preparatório para o Enem. O objetivo inicial era modesto — apenas testar se ainda conseguia competir depois de tanto tempo afastada. Na primeira tentativa, sua pontuação a colocou na lista de espera. Na segunda, o mesmo resultado. Duas frustrações que poderiam ter encerrado a história. Gracilene voltou pela terceira vez.

Em 2024, a aprovação finalmente chegou. Uma vaga em Ciências Biológicas na Universidade Federal da Paraíba. Vinte e um anos depois de deixar a escola, ela cruzava as portas de uma universidade federal.

No primeiro dia de aula, foi Guillermy quem a levou até a UFPB. Antes de se despedir, o jovem — que trabalha como auxiliar de mecânico — beijou a testa da mãe e registrou o momento em vídeo. Era o mesmo gesto que Gracilene fazia com ele na infância, ao deixá-lo na escola. Agora invertido, o gesto carregava um significado que ele mesmo explicou nas redes sociais: era o filho que havia motivado a interrupção quem agora a acompanhava de volta.

Gracilene não lamenta os anos dedicados à criação dos filhos. Para ela, aquele tempo representou um dever cumprido, e a entrada na universidade não é uma tentativa de apagar o passado — é a continuação natural de uma história que apenas havia sido adiada.

Gracilene Gonçalves tinha 18 anos quando interrompeu a escola. Era 2004, e ela havia descoberto que estava grávida. Durante os 21 anos seguintes, enquanto criava Guillermy Douglas e depois um segundo filho, a ideia de voltar a estudar nunca saiu completamente de sua mente — mas parecia cada vez mais distante, uma porta que havia fechado há muito tempo.

Em 2022, aos 39 anos, Gracilene tomou uma decisão. Ela e Guillermy, então com 18 anos, se matricularam juntos em um curso preparatório para o Enem. Não era um plano ambicioso no começo. Gracilene queria apenas experimentar como era fazer um vestibular, algo que nunca havia tentado. Ela não esperava aprovação imediata. O objetivo era testar se conseguia competir novamente, depois de tanto tempo longe das salas de aula.

Na primeira tentativa do Enem, em 2022, Gracilene surpreendeu a si mesma. Sua pontuação foi alta o suficiente para entrar na lista de espera. Não era a vaga, mas era um sinal. Ela voltou ao curso preparatório em 2023 e fez o Enem pela segunda vez. Novamente, ficou na lista de espera. Duas tentativas sem aprovação definitiva poderiam ter sido o fim da história. Muitas pessoas teriam desistido. Gracilene continuou.

Em 2024, ela fez o Enem pela terceira vez. Dessa vez, a aprovação veio. Gracilene conquistou uma vaga no curso de Ciências Biológicas da Universidade Federal da Paraíba. Vinte e um anos depois de deixar a escola, ela estava entrando em uma universidade federal.

No primeiro dia de aula, Guillermy levou a mãe até a UFPB. O jovem, que trabalha como auxiliar de mecânico em uma oficina de automóveis, registrou o momento em vídeo. Antes de se despedir, ele beijou a testa de Gracilene. Era o mesmo gesto que ela fazia com ele quando o levava para a escola na infância — agora invertido, com o filho despedindo-se da mãe que retornava aos estudos. Guillermy publicou o vídeo nas redes sociais e explicou o significado do gesto: ele estava fazendo com Gracilene exatamente o que ela fazia com ele quando criança, e havia algo profundamente significativo em ser justamente o filho que havia motivado sua interrupção escolar quem agora a acompanhava de volta.

Gracilene não vê os 21 anos dedicados à criação dos filhos como um arrependimento ou um erro. Quando perguntada sobre a inversão de papéis, ela disse que faria tudo novamente pelos filhos. Para ela, o momento representa gratidão, um dever cumprido e o início de uma nova responsabilidade. A entrada na universidade não é uma tentativa de apagar o passado, mas uma continuação da própria história.

Ela reconhece que a vida universitária exigirá adaptação. Vinte e um anos é muito tempo. Retomar leitura, avaliações, trabalhos e organização de horários em uma fase diferente da vida não será simples. Mas Gracilene afirma estar aproveitando cada momento. O tempo longe da escola não a impediu de chegar onde queria. Agora, aos 39 anos, ela está vivendo uma etapa que havia adiado desde 2004.

Faria tudo novamente pelos filhos. O momento representa gratidão, dever cumprido e início de uma nova responsabilidade.
— Gracilene Gonçalves
Decidiu agir como a mãe fazia com ele quando era criança, descrevendo o momento como gratificante.
— Guillermy Douglas
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