Mãe de Ana Clara: silêncio de Flávio no debate foi 'desesperador'

Ana Clara, menina de cinco anos, foi morta por disparos de policial militar em fevereiro de 2021; sua mãe Cristiane sofre trauma psicológico, depressão, ameaças e vulnerabilidade social; seu irmão Pedro, testemunha do crime, recebe tratamento psicológico e não mora com a mãe.
Quantas vezes forem necessárias, vou gritar o nome de Ana Clara
Cristiane promete manter viva a memória de sua filha morta há cinco anos, apesar do medo e da vulnerabilidade.
Mark

Por que o silêncio de Flávio no debate foi tão importante para Cristiane?

Mimi

Porque depois de cinco anos esperando justiça, vendo o caso ser adiado repetidas vezes, ela finalmente viu a questão ser levantada em um espaço nacional. E Flávio não respondeu. Para ela, foi como se o caso fosse invisível de novo.

Luke

Mas a gente sabe que ele respondeu algo, certo? O texto não diz exatamente o que ele disse ou deixou de dizer.

Mimi

Verdade. O que sabemos é que Cristiane sentiu que ele não respondeu à pergunta sobre Ana Clara. Lula mencionou o caso e a atuação dele como advogado.

Mark

E qual é o papel de Flávio nesse atraso todo?

Mimi

Em 2024, como senador, ele assumiu a defesa do policial e apresentou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça tentando reverter a decisão que determinou o júri popular. O pedido foi negado, mas o julgamento segue adiado.

Luke

Então tecnicamente o recurso dele não funcionou. O que está causando os adiamentos agora?

Mimi

O texto diz que a última data foi adiada porque a juíza teria outro compromisso. Mas Cristiane questiona isso — por que só ela pode julgar, por que não pode ser remarcado para antes?

Mark

E qual é a situação de Cristiane agora, além do caso?

Mimi

Ela está em situação muito vulnerável. Desempregada, morando de favor, enfrentando ameaças online, depressão, pânico. Seu filho mais novo não mora com ela porque ela quer protegê-lo do que está passando.

Luke

O texto deixa claro que ela recebeu uma indenização do Estado? Porque menciona R$ 140 mil.

Mimi

Sim, o Estado ofereceu R$ 140 mil. Mas ela tinha dívidas com agiota que chegaram a R$ 100 mil, e ainda teve que pagar a defesa. Então quase nada sobrou.

Mark

Ela tem esperança de que o julgamento aconteça?

Mimi

Ela diz que tem "uma pontinha de esperança", mas é difícil acreditar na Justiça quando vê o que acontece com quem tem poder. O que a mantém de pé é a fé e a promessa de não deixar Ana Clara ser esquecida.

Luke

Uma coisa que me intriga: o texto diz que ela nem votou no primeiro turno porque sua advogada achou melhor ela não sair de casa por causa das ameaças. Então ela não é uma militante de esquerda, como o texto deixa claro. Ela está falando porque é mãe, não porque é política.

  • Ana Clara, cinco anos, foi morta por disparos de policial militar em 2 de fevereiro de 2021 em Niterói
  • Flávio Bolsonaro, como advogado do PM, apresentou recurso ao STJ em 2024 tentando reverter o júri popular
  • Julgamento adiado para 5 de maio de 2027, mais de cinco anos após o crime
  • Cristiane recebeu R$ 140 mil de indenização do Estado, mas ficou com dívida de agiota de R$ 100 mil
  • Seu filho Pedro, testemunha do crime, faz tratamento psicológico e não mora com a mãe

Ana Clara foi morta por disparos de um PM em fevereiro de 2021 enquanto brincava na porta de casa em Niterói; o policial não prestou socorro imediato. Flávio Bolsonaro, como advogado do PM, conseguiu manter o réu fora da prisão e apresentou recursos que adiaram o julgamento para maio de 2027, cinco anos após o crime.

Cristiane aguarda há mais de cinco anos o julgamento do policial que matou sua filha Ana Clara, de cinco anos, em 2021. A defesa do PM por Flávio Bolsonaro mantém o caso em adiamentos sucessivos, deixando a mãe em situação de vulnerabilidade social e emocional.

Cristiane acordou naquela manhã de 2 de fevereiro de 2021 como qualquer outra. Seus dois filhos estavam brincando na porta de casa em Niterói — Ana Clara com cinco anos, Pedro com dois. Dois disparos quebraram o silêncio. Quando Cristiane correu para onde as crianças estavam, viu um policial em pé diante de Ana Clara. Ele continuou atirando para o alto sem dizer uma palavra, sem oferecer ajuda. Só quando outro policial se aproximou e disse "pega a garota que você fez merda" é que ele a pegou nos braços — com cuidado de não sujar a farda de sangue. Cristiane tirou a filha dos braços dele e a carregou no colo. Ana Clara não chorava, não gemia, não gritava. Perto do hospital, abriu os olhos e uma lágrima escorreu. "Pra mim, ela morreu ali", lembra Cristiane, que tinha apenas 15 anos quando Ana Clara nasceu.

Cinco anos e meio depois, o julgamento do policial Bruno Dias Delaroli ainda não aconteceu. A data foi adiada repetidas vezes — estava marcado para 14 de abril deste ano, dia em que Ana Clara completaria 11 anos. Depois foi para 21 de outubro. No fim de agosto, foi reagendado novamente para 5 de maio de 2027. A razão oferecida: a juíza teria outro compromisso. "Só tem ela de juíza? E precisava jogar para o meio do ano que vem?", pergunta Cristiane com revolta. O que mantém o caso em suspenso é a defesa do policial — Flávio Bolsonaro, agora senador, assumiu a causa em 2024 e apresentou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça tentando reverter a decisão que determinou o júri popular. O pedido foi negado, mas o julgamento segue adiado.

A história de Ana Clara ganhou repercussão nacional nas últimas semanas. Uma série jornalística chamada Revelando, produzida pelo videocast Calma Urgente e apresentada pela atriz Camila Pitanga, lançou um episódio de 22 minutos sobre o caso. No debate da Band entre o presidente Lula e Flávio Bolsonaro na segunda-feira 19 de outubro, Lula mencionou o caso e a atuação de Flávio como advogado do policial. Cristiane viu o trecho. "Foi desesperador ver que Flávio não respondeu a pergunta sobre Ana Clara", diz. A hashtag #PesquiseOCasoAnaClara virou mantra nas redes sociais.

Mas a repercussão trouxe também ataques. Apoiadores de Flávio a atacaram online. Ela começou a se sentir ameaçada na região onde vive, no Largo da Batalha, perto do lugar onde sua filha morreu. Uma crise de pânico e depressão a afastou das redes. Pior: foi despejada da casa onde vivia de favor porque o dono é bolsonarista. Agora mora de favor com uma amiga. Há três dias a casa está sem gás e sem comida.

Cristiane tem 27 anos. Parou de estudar quando engravidou de Ana Clara aos 15. Tenta conseguir trabalho — manda currículos, faz faxina — mas não consegue nada estável. "Preciso me fazer de forte todos os dias, mas às vezes não dá, a realidade da situação chega e bate pânico", diz. Seu filho caçula, Pedro, agora com oito anos, ainda lembra da irmã que morreu ao seu lado. Ele faz tratamento com psicólogo desde então e não mora com a mãe. "Ainda tenho a guarda, mas deixei ele com a avó. Não quero que ele passe pelo que estou passando. Meu sonho é conseguir um emprego para ter a minha casa e trazer ele de volta", lamenta.

Quando Ana Clara morreu, Cristiane nunca tinha enterrado ninguém na vida. Sem dinheiro, pegou um empréstimo de R$ 6 mil com agiota a juros abusivos. Meses depois, a dívida chegou a R$ 100 mil. Sua defesa pediu R$ 400 mil de indenização pela morte da filha. O Estado ofereceu R$ 140 mil. No desespero, com o agiota a ameaçar, ela pegou esse dinheiro e pagou o que devia. Depois de descontar a dívida e os honorários da defesa, quase nada sobrou. Nunca foi procurada por nenhum representante do Estado. "Acordo todos os dias sem minha filha e nunca ouvi um pedido de desculpas do Estado", diz.

Ela nunca quis tratamento psicológico, mas hoje sabe como faz falta. Tem dias que não dorme. Fim de ano piora. Perto do Natal. No começo do ano vem o aniversário de Ana Clara. Ela evitava ver fotos e vídeos porque a machucavam, mas depois vinha a saudade. "Hoje ela teria 11 anos, fico pensando 'como ela seria, qual seria o tamanho dela?'", diz. Seu filho pergunta sobre a irmã, mas a pede para não ficar triste. Diz que não quer mais perder ninguém.

Cristiane sente medo — da família Bolsonaro, do cabo Delaroli, do policial que atirou. Mas se calar significa deixar que anos passem e nada seja feito, que Ana Clara seja mais uma criança morta assassinada e pronto. "Agora tenho uma nova oportunidade de trazer à tona tudo o que aconteceu, então não posso me calar", diz. Ela promete gritar o nome de Ana Clara quantas vezes forem necessárias. "Vou gritar que ela tinha uma vida, tinha uma mãe, um irmão, que morreu um pouquinho antes do aniversário dela. Ela queria um quarto rosa de presente. Tive que pintar o túmulo." O que a mantém de pé é sua fé. Há dois meses, teve um sonho: viu Ana Clara muito grande, com cabelos cacheados e pernas compridas como as suas. A filha veio e a abraçou. Cristiane acordou aos prantos às 2 da manhã.

Foi desesperador ver que Flávio não respondeu a pergunta sobre Ana Clara
— Cristiane Gomes da Silva, mãe de Ana Clara
Quantas vezes forem necessárias, vou gritar o nome de Ana Clara, vou gritar que ela tinha uma vida, tinha uma mãe, um irmão, que morreu um pouquinho antes do aniversário dela
— Cristiane Gomes da Silva
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