Reconstruir a ponte diplomática que havia se estreitado
Aos 77 anos, Luiz Inácio Lula da Silva chegou a Washington em fevereiro de 2023 carregando mais do que uma agenda diplomática — carregava o peso de um distanciamento que precisava ser reparado. O encontro com Joe Biden sinalizava a retomada de um diálogo entre duas das maiores democracias do hemisfério, unidas não apenas por interesses econômicos e ambientais, mas também pela memória recente de ver suas próprias instituições ameaçadas por dentro. Era, acima de tudo, um gesto de reposicionamento: o Brasil voltava à mesa.
- Após anos de alinhamento entre Bolsonaro e Trump, a ponte diplomática entre Brasil e EUA havia esfriado — e Lula chegava a Washington determinado a reacendê-la.
- Os dois países carregavam cicatrizes parecidas: o Capitólio invadido em janeiro de 2021 e os Três Poderes depredados em janeiro de 2023 tornavam a defesa da democracia o terreno mais urgente e simbólico da conversa.
- A agenda econômica era ambiciosa — integrar o Brasil às cadeias de suprimento americanas em energia e semicondutores, ampliar o comércio de industrializados e atrair investimentos.
- A proposta de Lula de mediar a guerra na Ucrânia com um 'clube da paz' e seus pedidos pelo fim do embargo a Cuba prometiam criar atritos com uma administração Biden comprometida com o apoio militar a Kiev.
- A comitiva numerosa — com Haddad, Marina Silva, Mauro Vieira e Celso Amorim — e a hospedagem na Blair House sinalizavam que o Brasil queria ser visto como parceiro estratégico, não apenas como visita protocolar.
Luiz Inácio Lula da Silva desembarcou em Washington na quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023, com uma missão que ia além do protocolo: reconstruir a relação diplomática entre Brasil e Estados Unidos, desgastada pelos anos de afinidade entre Jair Bolsonaro e Donald Trump. O encontro com Joe Biden seria o primeiro bilateral entre os dois presidentes desde a vitória de Lula em outubro de 2022.
A pauta refletia tanto convergências quanto tensões. O tema da democracia ocupava lugar central — ambos os países haviam sofrido ataques de extremistas às suas instituições, e Biden havia ligado a Lula no dia seguinte aos ataques de 8 de janeiro em Brasília. Na área ambiental, o Brasil buscava reengajar os americanos no Fundo Amazônia e explorar cooperação em energia eólica, hidrogênio e combustíveis sustentáveis. A ministra Marina Silva acompanharia Lula e participaria da primeira parte do encontro.
No campo econômico, o governo brasileiro queria posicionar o país como parceiro estratégico nas cadeias de suprimento americanas, especialmente em energia e semicondutores. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil e o principal destino dos produtos industrializados brasileiros. Já a proposta de Lula de criar um 'clube da paz' para mediar a guerra na Ucrânia, assim como seus pedidos pelo fim do embargo a Cuba e por eleições livres na Venezuela, prometiam gerar desconforto com uma administração comprometida com o apoio militar a Kiev.
A comitiva era expressiva: além de Marina Silva, viajaram os ministros Fernando Haddad, Mauro Vieira e Anielle Franco, o assessor Celso Amorim e o senador Jaques Wagner. Lula se hospedou na Blair House, residência oficial reservada para chefes de Estado, a convite de Biden. Na sexta-feira, antes do encontro principal às 15h30 na Casa Branca, o presidente brasileiro se reuniu com progressistas do Partido Democrata — entre eles Bernie Sanders e Alexandria Ocasio-Cortez — e com líderes da maior federação sindical americana. O Itamaraty classificou a viagem como eminentemente política, sublinhando sua simbologia como gesto de reposicionamento estratégico logo no início do novo mandato.
Luiz Inácio Lula da Silva, aos 77 anos, pisou em solo americano na quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023, com uma missão clara: reconstruir a ponte diplomática entre Brasil e Estados Unidos que havia se estreitado durante a gestão anterior. O encontro com Joe Biden, presidente americano de 80 anos, marcava o primeiro encontro bilateral entre os dois líderes desde que o petista venceu as eleições em outubro do ano anterior. Embora os dois países nunca tivessem rompido relações formalmente, o contato político havia arrefecido significativamente após a vitória de Biden sobre Donald Trump em 2020, período em que o ex-presidente Jair Bolsonaro mantinha alinhamento com a administração republicana.
A pauta do encontro refletia as prioridades compartilhadas e as tensões que marcavam o momento geopolítico. Ambas as nações haviam sofrido ataques de extremistas de direita contra suas instituições democráticas: o Capitólio americano foi invadido em 6 de janeiro de 2021 por apoiadores de Trump, enquanto as sedes dos Três Poderes brasileiros foram depredadas em 8 de janeiro de 2023. A defesa da democracia emergia, portanto, como tema central. Biden havia ligado para Lula no dia seguinte aos ataques em Brasília, transmitindo apoio inabalável à democracia brasileira. O presidente brasileiro, por sua vez, defendia uma concertação internacional para enfrentar as ameaças democráticas globais e indicava o G20 como fórum apropriado para discutir a regulação das redes sociais.
A questão ambiental ocupava espaço igualmente importante na agenda. O Brasil buscava reengajar os Estados Unidos no Fundo Amazônia, iniciativa que arrecadava recursos da Noruega e Dinamarca para conservação e combate ao desmatamento. Os americanos haviam visto com desconfiança a gestão ambiental do governo Bolsonaro e travado conversas sobre o tema, mas a mudança de governo abria possibilidades de reabertura do diálogo. Michel Arslanian Neto, secretário para a América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores, destacava o potencial de cooperação em energia eólica, hidrogênio e combustíveis sustentáveis para aviação. A ministra Marina Silva acompanharia Lula e participaria da primeira parte do encontro com Biden.
No plano econômico, os Estados Unidos figuravam como segundo maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas da China. O governo brasileiro buscava aproveitar a tendência de regionalização das cadeias de suprimento, posicionando o país como parceiro estratégico nos setores de energia e semicondutores. Havia também interesse em ampliar o acesso ao mercado bélico americano, embora entraves legais dificultassem avanços imediatos. Neto ressaltava que o objetivo era focar em resultados concretos, já que os Estados Unidos constituíam o principal destino dos produtos industrializados brasileiros e o principal destino de investimentos no Brasil.
Mas nem tudo na agenda seria facilmente digerido pela administração Biden. Lula pretendia apresentar uma proposta de criar um "clube da paz" entre países que não haviam adotado lado na guerra entre Rússia e Ucrânia, com vistas a mediar negociações de paz. A ideia, já discutida com o chanceler alemão Olaf Scholz e o presidente francês Emmanuel Macron, seria posteriormente levada à China em março. Os americanos, porém, apoiavam ativamente os ucranianos com envio de armamentos e munições. Igualmente incômodos seriam os pedidos de Lula pelo fim do embargo a Cuba, que durava mais de 60 anos, e sua defesa de eleições livres na Venezuela, onde propunha reunir um grupo de países para negociar a realização de pleitos reconhecidos internacionalmente.
A comitiva brasileira era expressiva. Além de Marina Silva, acompanhavam Lula os ministros Fernando Haddad (Fazenda), Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Anielle Franco (Igualdade Racial), além do assessor especial Celso Amorim, do secretário-executivo do Ministério do Desenvolvimento Marcio Elias Rosa e do líder do governo no Senado Jaques Wagner. Lula chegaria a Washington às 16 horas (horário local) e se hospedaria na Blair House, residência do governo americano reservada para chefes de Estado, localizada a uma rua da Casa Branca. Inicialmente, o presidente havia preferido um hotel, mas aceitou o convite de Biden por questões de segurança, diante da possibilidade de manifestações contrárias.
A sexta-feira, 10 de fevereiro, seria repleta de compromissos. Às 10h30, Lula se encontraria com integrantes da ala progressista do Partido Democrata, incluindo o senador Bernie Sanders e a deputada Alexandria Ocasio-Cortez, na Blair House. Às 12 horas, teria reunião com representantes da AFL-CIO, a maior federação de sindicatos dos Estados Unidos. O encontro principal com Biden estava marcado para as 15h30 na Casa Branca. Lula retornaria ao Brasil na manhã de sábado, 11 de fevereiro. O Itamaraty havia classificado a viagem como de caráter eminentemente político, destacando a simbologia de ocorrer logo no início do mandato presidencial, um gesto de reposicionamento estratégico após anos de distanciamento.
Notable Quotes
O principal elemento a destacar dessa visita é seu caráter político, a simbologia de ocorrer logo no início do mandato do presidente Lula— Michel Arslanian Neto, secretário para a América Latina e Caribe do Ministério das Relações Exteriores
É uma oportunidade para um encontro entre os 2 líderes, para ter um contato pessoal, importante para dar um impulso e uma direção à relação— Michel Arslanian Neto
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que esse encontro importa tanto agora, neste momento específico?
Porque durante quatro anos o Brasil virou as costas para Washington. Bolsonaro estava com Trump, e quando Biden venceu, ficou um vazio. Agora Lula chega dizendo: vamos reconstruir isso. É um sinal de que o Brasil quer estar de novo na conversa que importa.
Mas os dois países nunca romperam relações formalmente, certo?
Certo. Mas romper relações e deixar a conversa esfriar são coisas diferentes. Você pode ter embaixadores e documentos, mas sem diálogo político real. O que Lula está fazendo é reacender o fogo.
E quanto à democracia? Por que isso é tão central?
Porque ambos viveram o mesmo trauma. O Capitólio invadido em 2021, os Três Poderes invadidos em 2023. São feridas recentes. Quando dois presidentes compartilham uma cicatriz assim, eles falam a mesma língua sobre o que está em risco.
Lula vai trazer propostas que Biden não vai gostar, não é?
Sim. Quer criar um "clube da paz" para mediar a guerra na Ucrânia. Quer fim do embargo a Cuba. Quer eleições na Venezuela. Biden apoia os ucranianos com armas. Essas coisas vão criar tensão.
Então por que levar essas propostas se sabe que não serão bem recebidas?
Porque Lula está tentando se posicionar como mediador global, não como alinhado a ninguém. É uma aposta de que o Brasil pode ser útil de uma forma que os americanos ainda não enxergam. Ele quer provar que vale a pena ouvir.
E economicamente? O que o Brasil realmente quer?
Quer entrar nas cadeias de produção americana. Energia, semicondutores. Quer ser parceiro estratégico, não apenas fornecedor. E quer que os americanos invistam aqui, não só comprem daqui.