Em Salvador, o presidente Lula empreende sua segunda visita ao estado em um mês, buscando costurar o destino de sua candidatura presidencial ao de Jerônimo Rodrigues no governo baiano. O gesto revela uma tensão antiga na política brasileira: a distância entre a lealdade nacional e a escolha local, encarnada agora no fenômeno 'LuNeto', que desafia a lógica do voto casado e lembra que o eleitor, quando se sente livre, raramente segue instruções.
Lula vai à Bahia reforçar Jerônimo e conter avanço do 'voto LuNeto'
Meu combo, minhas regras
Por que Lula volta à Bahia agora, sendo que esteve lá há pouco mais de um mês?
A campanha petista vê a Bahia como decisiva. O voto "LuNeto" está crescendo nas redes, e isso preocupa. Lula precisa reforçar a ideia de que votar nele e em Jerônimo é votar no mesmo projeto.
Mas qual é a evidência de que esse voto cruzado é realmente um problema? Os números de 2022 mostram diferença, sim, mas não sabemos se vai se repetir agora.
Verdade. O que sabemos é que em 2022 Lula teve 72,1% e Jerônimo 52,8%. Essa brecha existe. Agora o PT quer fechá-la.
E ACM Neto, como está se posicionando?
Ele evita atacar Lula. Concentra fogo em Jerônimo, dizendo que o estado precisa de mudança. Apoiou Caiado nacionalmente, mas sem pedir votos para ele.
Então Neto está tentando se apresentar como uma terceira via, nem bolsonarista nem petista?
Mais ou menos. Ele tem o PL na chapa — João Roma é seu candidato ao Senado. Mas pessoalmente mantém distância de Bolsonaro.
E esse vídeo do drive-thru que circulou? A Justiça Eleitoral permitiu?
Permitiu. Classificou como manifestação espontânea. Disse que não há regra obrigando fidelidade entre candidatos da mesma legenda.
Mas a campanha de Jerônimo diz que não é espontâneo, que está sendo impulsionado por aliados de Neto. Como sabemos quem está certo?
Não sabemos. É uma disputa de narrativas. O que é fato é que o conteúdo circula e a Justiça não o proibiu.
Qual é a meta do PT para essa campanha?
Ampliar o voto casado em Jerônimo e Lula. Rui Costa prometeu uma frente de 5 milhões de votos. É ambicioso.
Ambicioso, mas possível? Em 2022, Lula teve mais de 4 milhões de votos a mais que Jerônimo. Fechar essa brecha em 5 milhões é praticamente eliminar o voto cruzado.
The Pulse
- O fenômeno 'LuNeto' ganhou vida própria nas redes sociais com jingles e esquetes humorísticos, e a Justiça Eleitoral recusou pedidos para removê-los, reconhecendo-os como expressão espontânea do eleitor.
- A cúpula petista suspeita que o movimento não é orgânico, mas orquestrado por aliados de ACM Neto para ampliar sua votação entre o eleitorado lulista — uma guerra de narrativas travada em stories e reels.
- Lula caminha pela Liberdade ao lado de Jerônimo, Rui Costa e Jaques Wagner, replicando a estratégia de voto casado de 2022, quando a diferença entre as votações presidencial e estadual expôs a dimensão real do voto cruzado na Bahia.
- ACM Neto evita atacar Lula diretamente e concentra fogo em Jerônimo, enquanto o prefeito Bruno Reis minimiza o peso do presidente como cabo eleitoral, apostando na independência do eleitor baiano.
Em Salvador, o presidente Lula empreende sua segunda visita ao estado em um mês, buscando costurar o destino de sua candidatura presidencial ao de Jerônimo Rodrigues no governo baiano. O gesto revela uma tensão antiga na política brasileira: a distância entre a lealdade nacional e a escolha local, encarnada agora no fenômeno 'LuNeto', que desafia a lógica do voto casado e lembra que o eleitor, quando se sente livre, raramente segue instruções.
O presidente Lula desembarca em Salvador com uma missão que vai além do palanque: conter o avanço do voto 'LuNeto', combinação que une seu nome ao de ACM Neto do União Brasil para o governo estadual. A estratégia petista é transformar a eleição baiana em um referendo sobre o projeto presidencial, repetindo a tática de 2022, quando Jerônimo venceu Neto no segundo turno com 52,8% enquanto Lula obtinha 72,1% no estado — uma diferença que já revelava a dimensão do voto cruzado.
A visita inclui uma caminhada no bairro da Liberdade, reduto popular e cultural de Salvador, ao lado de Jerônimo, do ex-governador Rui Costa e de Jaques Wagner, ambos candidatos ao Senado. É a segunda vez em um mês que Lula vem à Bahia, sinal claro da importância que o PT atribui ao estado. A meta declarada é ampliar o voto casado e elevar a margem do presidente no território — Rui Costa chegou a prometer uma frente de 5 milhões de votos.
O problema é que o 'LuNeto' ganhou tração nas redes com vídeos bem-humorados, entre eles um que simulava um pedido em drive-thru com o slogan 'Meu combo, minhas regras'. A coligação de Jerônimo tentou derrubar o conteúdo, mas a Justiça Eleitoral negou o pedido, classificando-o como manifestação espontânea. Dirigentes petistas, porém, desconfiam que o movimento é alimentado por aliados de Neto para conquistar eleitores lulistas — uma guerra de narrativas travada em stories e reels.
Do outro lado, ACM Neto evita confronto direto com Lula e mira suas críticas no governador, apresentando-se como alternativa de renovação. O prefeito de Salvador, Bruno Reis, minimiza o efeito do presidente como cabo eleitoral: para ele, os baianos já sabem da aliança entre Lula e Jerônimo e não aceitam pressão de lideranças nacionais. 'Jerônimo não vai mudar, então as pessoas precisam mudar o governo', afirmou. A campanha petista, por sua vez, aposta que a presença física de Lula nas ruas pode reconverter eleitores indecisos — e que o combo, no fim, será o deles.
O presidente Lula chega a Salvador nesta sexta-feira com uma missão dupla: impulsionar a reeleição do governador Jerônimo Rodrigues e frear um fenômeno eleitoral que ameaça dividir seus apoiadores. Trata-se do chamado voto "LuNeto" — eleitores que pretendem votar em Lula para a Presidência mas em ACM Neto, do União Brasil, para o governo estadual. A estratégia petista é clara: transformar a eleição estadual em um referendo sobre o projeto presidencial, replicando a tática que funcionou em 2022, quando Jerônimo venceu Neto no segundo turno com 52,8% dos votos enquanto Lula conquistava 72,1% no estado.
O presidente participará de uma caminhada na Liberdade, bairro de maioria negra e centro de entidades culturais como o Ilê Aiyê, ao lado de Jerônimo, do ex-governador Rui Costa e do ex-governador Jaques Wagner, ambos candidatos ao Senado pelo PT. Esta é a segunda visita de Lula à Bahia em um mês, sinalizando a importância que a campanha petista atribui ao estado. A ideia central é consolidar o voto casado — eleitores votando simultaneamente em Lula e Jerônimo — nacionalizando a disputa e apresentando-a como uma escolha entre projetos políticos antagônicos.
Mas há um problema. Em 2022, a diferença entre a votação presidencial e a estadual revelou a dimensão do voto cruzado: enquanto Lula superava Bolsonaro por mais de 4 milhões de votos, Jerônimo vencia Neto com margem bem menor. Esse fenômeno se concentrou em Salvador e cidades médias do interior. Agora, em 2026, o voto "LuNeto" ganhou tração nas redes sociais através de jingles, esquetes de humor e conteúdos que defendem explicitamente essa combinação. Um vídeo publicado por influenciadores baianos simulava um pedido em drive-thru onde clientes apresentavam um santinho com a mensagem "Eu tô com Netinho e tô com vovô Lula", repetindo o slogan "Meu combo, minhas regras". A coligação de Jerônimo tentou remover o vídeo do Instagram, mas a Justiça Eleitoral negou o pedido em agosto, classificando o conteúdo como manifestação espontânea de preferência política.
Na cúpula da campanha petista, porém, a avaliação é diferente. Dirigentes acreditam que o movimento não é orgânico, mas impulsionado nas redes por aliados de ACM Neto, que busca ampliar sua votação entre eleitores lulistas. Políticos do interior também adotaram estratégia semelhante. O ex-prefeito de Jacobina Tiago Dias, do PSDB, rompeu com Jerônimo, passou a apoiar Neto para o governo, mas mantém o voto em Lula para presidente. Em julho, a Justiça Eleitoral determinou a retirada de um card com fotos de Lula e Neto, mas não proibiu Dias de declarar voto nos dois.
ACM Neto tem evitado atacar Lula diretamente, concentrando suas críticas no governador. Nacionalmente, declarou apoio a Ronaldo Caiado, do PSD, sem pedir votos para o aliado. O PL compõe sua chapa e indicou o ex-ministro de Bolsonaro João Roma como candidato ao Senado. A estratégia de Neto é apresentar-se como alternativa de mudança, argumentando que Jerônimo não oferece renovação.
Na campanha de Jerônimo, a palavra de ordem é ampliar o voto casado e associar o ex-prefeito de Salvador ao senador Flávio Bolsonaro. Bruno Monteiro, coordenador de comunicação da campanha do governador, afirma que "a campanha é uma só" e que trabalharão conjuntamente as candidaturas do presidente, governador, senadores e deputados. Entre os petistas, a meta é ampliar a votação de Jerônimo entre eleitores de Lula e aumentar a margem do presidente no estado — o ex-ministro Rui Costa prometeu uma frente de 5 milhões de votos.
Ao contrário de 2022, quando evitou confronto direto com Neto, Lula foi mais incisivo desta vez na defesa de Jerônimo e nas críticas ao adversário. Na convenção do governador, cobrou empenho do PT para conquistar a Prefeitura de Salvador. A oposição, porém, minimiza o efeito do presidente como cabo eleitoral. Bruno Reis, prefeito de Salvador e apoiador de Neto, disse que a presença de Lula não é mais novidade para o eleitor baiano, que já sabe da aliança entre Lula e Jerônimo. "Jerônimo não vai mudar, então as pessoas precisam mudar o governo", afirmou Reis, argumentando que os baianos são independentes e não aceitam pressão de lideranças nacionais.
Notable Quotes
A campanha é uma só. Vamos reafirmar aquilo que é cláusula, que é o time, e trabalhar conjuntamente as candidaturas do presidente, governador, senadores e deputados— Bruno Monteiro, coordenador de comunicação da campanha de Jerônimo Rodrigues
Jerônimo não vai mudar, então as pessoas precisam mudar o governo. Com todo o respeito ao presidente, a todas as lideranças nacionais, essa é a escolha livre do povo da Bahia, que é independente, soberano e não aceita pressão, ameaça de ninguém— Bruno Reis, prefeito de Salvador