Lula e Alcolumbre retomaram diálogo após meses de tensão, com governo sinalizando apoio à reeleição do senador amapaense em 2027. Governo cobra votação de três pautas prioritárias: fim da 6x1, PEC da Segurança e Política Nacional de Minerais Críticos, todas já aprovadas pela Câmara.
Lula oferece apoio a Alcolumbre em troca de votação da PEC 6x1 no Senado
Nada está vetado, tudo pode ser debatido
Por que Lula não simplesmente ordena que a votação aconteça? Ele é o presidente.
Porque o Senado tem autonomia constitucional. Lula não pode ordenar nada. Pode apenas pressionar, negociar, oferecer apoio político em troca. É por isso que precisa de Alcolumbre.
E por que Alcolumbre está resistindo? Qual é o interesse dele em travar essas pautas?
Ele diz que os senadores não querem votar antes das eleições. Mas o governo acredita que é ele quem está segurando. Talvez tenha medo de desagradar setores que o apoiam, ou talvez esteja usando o travamento como moeda de troca.
Moeda de troca para quê?
Para garantir que Lula o apoie na reeleição à presidência do Senado em 2027. Se Alcolumbre cair, a direita coloca Tereza Cristina no lugar. Alcolumbre precisa de Lula vivo politicamente.
Então é um acordo de troca mesmo, só que ninguém pode dizer em voz alta?
Exatamente. Ninguém pode dizer porque seria muito cru, muito transacional. Então falam de "retomada de diálogo", de "pautas destravadas", de "autonomia do Senado". Mas o que está acontecendo é uma negociação clássica de poder.
E se Alcolumbre continuar recusando?
Então o governo vai aumentar a pressão. Vai dizer que ele está desgastando a imagem do Senado, que está prejudicando pautas sociais em ano eleitoral. Vai mobilizar sindicatos. Vai deixar claro que não o apoiará na reeleição.
Qual é a chance de isso funcionar?
O governo acredita que já conquistou o passo mais difícil — a reunião aconteceu, o diálogo foi retomado. Agora é questão de pressão constante. Mas Alcolumbre é um negociador experiente. Ele pode estar apenas ganhando tempo.
El Pulso
- Lula e Alcolumbre retomaram diálogo em 12 de agosto após meses de tensão
- Governo cobra votação de três pautas: PEC 6x1, PEC da Segurança e Política de Minerais Críticos
- Alcolumbre resiste à votação antes das eleições; governo quer votação em setembro
- Ala bolsonarista quer eleger Tereza Cristina para presidência do Senado em 2027
Lula e Alcolumbre retomaram diálogo após meses de tensão, com governo sinalizando apoio à reeleição do senador amapaense em 2027. Governo cobra votação de três pautas prioritárias: fim da 6x1, PEC da Segurança e Política Nacional de Minerais Críticos, todas já aprovadas pela Câmara.
Governo Lula articula apoio à reeleição de Davi Alcolumbre na presidência do Senado em troca do avanço da PEC que extingue a escala 6x1, buscando destravar pautas prioritárias em ano eleitoral.
O governo Lula está movimentando suas peças no tabuleiro do Senado. A aposta é clara: oferecer apoio político a Davi Alcolumbre para sua reeleição à presidência da Casa em troca de um compromisso que o senador amapaense tem evitado há meses — levar à votação a PEC que extinguiria a escala de trabalho 6x1. É um acordo não dito, suspenso no ar entre dois lados que precisam um do outro, mas que ainda não conseguem falar abertamente sobre o que querem.
A relação entre Lula e Alcolumbre desabou em abril, quando o presidente do Senado se movimentou contra a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, uma escolha pessoal do presidente. Alcolumbre perdeu a batalha no plenário, mas a derrota deixou cicatrizes. O Planalto enxergou naquele momento uma tentativa de usurpação do poder presidencial. Desde então, os dois homens não conversavam de verdade. Havia encontros, mas não havia ponte. Na semana passada, jantaram. Segundo relatos de quem estava próximo, aquele jantar não foi para retomar parceria nenhuma — foi apenas para os dois voltarem a se olhar nos olhos, para apararem as arestas mais agudas. Lula ainda estava muito ressentido.
Nesta quarta-feira, 12 de agosto, eles se encontraram novamente, desta vez para discutir a agenda do Congresso. O ministro José Guimarães, da Secretaria de Relações Institucionais, e Teresa Leitão, líder do governo no Senado, testemunharam o encontro. Alcolumbre não verbalizou nenhum compromisso sobre a PEC 6x1, e Lula não ofereceu apoio explícito à reeleição do senador. Mas algo mudou no tom. A porta estava aberta novamente. "A reunião foi muito positiva", disse Teresa Leitão à Folha. "Nada está vetado, tudo pode ser debatido."
O governo tem três prioridades que já passaram pela Câmara e agora travam no Senado. A primeira é a PEC que acaba com a jornada 6x1 — seis dias de trabalho, um de descanso. A segunda é a PEC da Segurança, que ampliaria a atuação do governo no combate à criminalidade. A terceira é o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Alcolumbre argumenta que os próprios senadores não querem votar essas matérias antes das eleições. O governo discorda. Lula insiste que o texto deve ir ao plenário ainda este ano. A pressão está aumentando. Camilo Santana, líder do PT no Senado e ex-ministro da Educação, deixou claro que a responsabilidade pelo travamento recai sobre Alcolumbre. "É ruim o presidente estar segurando essas pautas, porque fica sobre as suas responsabilidades, nas costas dele", afirmou após um almoço com Lula.
O cálculo político é sofisticado. O governo quer convencer Alcolumbre de que manter essas pautas represadas o desgasta. Uma alta taxa de renovação no Senado, provocada pela impopularidade de bloquear agendas sociais em ano eleitoral, poderia ameaçar sua própria recondução à presidência da Casa. Enquanto isso, centrais sindicais prometem intensificar mobilizações pela aprovação do fim da 6x1. Lula já sinalizou a aliados que quer transformar a jornada de trabalho em tema central de campanha — uma estratégia que constrange a direita, já que o PL de Flávio Bolsonaro se opõe à medida.
Há também um pano de fundo que ninguém quer tocar abertamente. A ala bolsonarista quer eleger Tereza Cristina, do PP de Mato Grosso do Sul, para a presidência do Senado. Se Alcolumbre cair, a direita ganha espaço. Para o governo, manter Alcolumbre no comando é de interesse estratégico. Mas esse interesse não pode ser dito em voz alta — não ainda. O que se diz é que o senador pode resolver tudo direto com a liderança do governo, que agora o contato está retomado, que nenhuma matéria está vetada para debate.
O Palácio do Planalto planeja focar investimentos na aprovação do fim da 6x1 nos próximos dias. A expectativa é que a proposta seja enviada à Comissão de Constituição e Justiça em breve, com pressão para votação na primeira semana de setembro. O passo mais difícil, acredita o governo, já foi dado: a reunião aconteceu, o diálogo foi retomado, e Alcolumbre indicou que nenhuma matéria está vetada. Agora é questão de tempo e pressão. Os episódios envolvendo o STF e Jorge Messias ficaram de fora da conversa de quarta-feira — foram relegados para um segundo momento. Mas aliados de ambos os lados avaliam que a resistência de Alcolumbre já é consideravelmente menor do que no início da crise. O que vem agora é o teste: se o senador amapaense vai finalmente levar essas pautas ao voto, ou se o impasse continua.
Citas Notables
É ruim o presidente Alcolumbre estar segurando essas pautas, porque fica sobre as suas responsabilidades, nas costas dele— Camilo Santana, líder do PT no Senado
Davi está absolutamente sintonizado com a reeleição do Lula e com o nosso palanque lá no Amapá— José Guimarães, ministro da Secretaria de Relações Institucionais