Por mais de duas décadas, Lula construiu parte de sua identidade política na defesa intransigente dos direitos da juventude pobre diante do sistema penal. Na quinta-feira, diante das câmeras da TV Globo, esse edifício ideológico sofreu uma fissura visível: o presidente declarou apoio à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. A reversão, ocorrida em pleno ciclo eleitoral de 2026, levanta questões sobre os limites entre convicção e conveniência na vida pública — e sobre o que permanece quando décadas de posicionamento cedem ao peso do momento.
Lula muda posição e passa a defender redução da maioridade penal após décadas de oposição
Reduzir a maioridade penal não reduz o problema da violência
Por que essa mudança de posição sobre a maioridade penal é tão significativa?
Porque Lula passou décadas dizendo que reduzir a maioridade penal era coisa de elite querendo prender pobre. Era uma marca identitária dele. Agora ele está dizendo que sim, mas só para crimes hediondos.
Mas qual é exatamente a definição de crime hediondo que ele está usando? A reportagem não deixa claro.
Boa pergunta. A reportagem não especifica. Crimes hediondos na lei brasileira incluem homicídio qualificado, latrocínio, extorsão mediante sequestro, mas a lista é longa e tem nuances.
E quando ele mudou de ideia? Foi só na sabatina de quinta-feira?
Aparentemente sim. Em março deste ano, o governo dele ainda se opunha formalmente à redução. Então em sete meses houve essa virada.
Estamos em período de campanha eleitoral. Isso importa para entender o timing?
Importa, sim. A reportagem menciona que é contexto de campanha 2026 e que há possibilidade de plebiscito em 2028. Pode ser cálculo político.
Ele foi consistente em outros temas de segurança?
Mais ou menos. Mantém posição sobre saídas temporárias de presos, mas foi contraditório sobre tráfico de drogas e sobre o uso de Forças Armadas.
A reportagem diz que em 2007 ele argumentou que aceitar 16 anos levaria a pedidos para 15, depois 10, depois 9. Ele respondeu isso agora?
Não aparece na reportagem. Não sabemos se ele abordou essa preocupação anterior ou se mudou de ideia sobre o argumento da ladeira escorregadia.
O que muda na prática se essa proposta virar lei?
Adolescentes de 16 anos acusados de crimes hediondos entrariam no sistema penal adulto em vez de ficar sob a legislação especial para menores. É uma mudança constitucional significativa.
Quantos adolescentes isso afetaria? A reportagem não diz. Não temos números de quantos crimes hediondos são cometidos por menores de 18 anos.
Der Puls
- Uma declaração de poucos minutos na TV Globo desfez publicamente uma posição que Lula defendeu com emoção por mais de vinte anos, incluindo discursos, atos de Primeiro de Maio e críticas diretas às elites brasileiras.
- A mudança é ainda mais tensa porque, em março deste ano, o próprio governo Lula publicou nota oficial afirmando que a redução da maioridade penal 'afronta diretamente a Constituição Federal de 1988'.
- O contexto eleitoral de 2026 e as negociações em torno da PEC da Segurança Pública criam pressão para que líderes de esquerda cedam em temas historicamente inegociáveis, expondo rachaduras na coerência programática do campo progressista.
- Adolescentes em conflito com a lei passariam a ser submetidos ao sistema penal adulto em casos de crimes hediondos, alterando proteções constitucionais que o próprio Lula jurou defender.
- A reversão se soma a outras contradições recentes do presidente — sobre GLO, saídas temporárias de presos e tráfico de drogas — sugerindo um padrão de pragmatismo que desafia a narrativa de liderança principista.
Por mais de duas décadas, Lula construiu parte de sua identidade política na defesa intransigente dos direitos da juventude pobre diante do sistema penal. Na quinta-feira, diante das câmeras da TV Globo, esse edifício ideológico sofreu uma fissura visível: o presidente declarou apoio à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos em casos de crimes hediondos. A reversão, ocorrida em pleno ciclo eleitoral de 2026, levanta questões sobre os limites entre convicção e conveniência na vida pública — e sobre o que permanece quando décadas de posicionamento cedem ao peso do momento.
Na quinta-feira, durante sabatina na TV Globo, o presidente Lula surpreendeu ao declarar apoio à redução da maioridade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos. "Meu pensamento, enquanto cidadão brasileiro, é que para todo e qualquer crime hediondo, eu sou a favor de reduzir a maioridade", afirmou. A declaração contrasta com décadas de posicionamento público em sentido oposto.
Lula foi historicamente um dos vozes mais contundentes contra a medida. Em 2003, após o brutal assassinato dos estudantes Liana Friedenbach e Felipe Caffé por um adolescente de 16 anos, ele respondeu que "reduzir a maioridade penal não reduz o problema da violência". Em 2007, pediu à sua base no Congresso que enterrasse o debate, argumentando que aceitar 16 anos abriria caminho para reduções sucessivas — até os 9 anos, disse. Em 2015, durante a crise política que antecedeu o impeachment de Dilma, criticou duramente a aprovação da PEC na Câmara, acusando a elite de querer "colocar a juventude na cadeia em vez de oferecer oportunidades".
A contradição é ainda mais aguda porque, em março deste ano, o Ministério dos Direitos Humanos divulgou nota oficial classificando a proposta como uma afronta à Constituição de 1988. Lula e aliados de esquerda também se opuseram à ideia de um plebiscito sobre o tema em 2028, previsto na PEC da Segurança.
A reversão se insere em um padrão mais amplo de posições oscilantes. Lula declarou em 2023 que nunca decretaria uma operação de Garantia da Lei e da Ordem no Rio de Janeiro — e o fez cinco dias depois. Em outubro de 2025, fez uma declaração ambígua sobre traficantes e usuários de drogas que depois classificou como "mal colocada". Em relação às saídas temporárias de presos, porém, mantém sua posição histórica favorável, reafirmada no domingo passado.
O que torna esta reversão particularmente significativa é que a maioridade penal sempre foi um dos pilares simbólicos da identidade política da esquerda brasileira — e do próprio Lula. Sua justificativa na sabatina, de que a PEC da Segurança precisaria focar especificamente em crimes hediondos, sugere menos uma convicção renovada e mais uma abertura tática a negociações em pleno ano eleitoral.
Na quinta-feira passada, durante uma sabatina na TV Globo, o presidente Lula anunciou uma mudança radical em uma posição que o definiu politicamente por mais de duas décadas. Ele disse estar a favor de reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos — mas apenas para crimes hediondos. "Meu pensamento, enquanto cidadão brasileiro, é que para todo e qualquer crime hediondo, eu sou a favor de reduzir a maioridade", afirmou. A declaração marca uma reversão notável em um tema que Lula costumava defender com veemência, acusando as elites brasileiras de querer encarregar a juventude pobre em vez de investir em educação e oportunidades.
Por décadas, Lula foi explícito e consistente em sua oposição à redução da maioridade penal. Em 2003, logo após o assassinato dos estudantes Liana Friedenbach e Felipe Caffé em Embu-Guaçu, São Paulo — crime cometido por Roberto Aparecido Alves Cardoso, conhecido como Champinha, que tinha 16 anos — Lula respondeu no Palácio da Alvorada que "reduzir a maioridade penal não reduz o problema da violência". Meses depois, durante a Conferência Nacional da Criança e do Adolescente, ele discursou emocionadamente contra a proposta enquanto a plateia coreografava: "Não, não à redução".
Quando o assassinato do menino João Hélio em 2007 reaqueçeu o debate — o crime envolveu um menor de idade entre os criminosos — Lula pediu aos líderes de sua base no Congresso que derrubassem a discussão. Na ocasião, ele argumentou que aceitar a redução para 16 anos abriria caminho para reduções sucessivas. "Eu fico imaginando que se a gente aceitar a diminuição da maioridade penal para 16 anos, amanhã estarão pedindo para 15, depois para 10 e depois para 9", disse. Ele culpava a estagnação econômica pela criminalidade e defendia a construção de escolas. "Não conheço nenhum castigo que recuperou alguém, nenhum animal preso que ficou mais manso. Ao contrário, ele fica rebelde", afirmou.
Em 2015, quando o então presidente da Câmara Eduardo Cunha criou uma comissão especial para analisar uma proposta de emenda constitucional reduzindo a maioridade penal — em meio à crise política que levaria ao impeachment de Dilma Rousseff — Lula participou de um ato de Primeiro de Maio e criticou duramente a iniciativa. Ele disse que a elite brasileira acreditava poder resolver a criminalidade "colocando a juventude na cadeia em vez de oferecer oportunidade para os jovens estudarem". Lula chegou a afirmar que nem os militares durante a ditadura ousaram reduzir a maioridade penal. Quando a Câmara aprovou a PEC meses depois, ele denunciou que a medida jogava "nas costas de meninos de 16 anos a responsabilidade de coisas que os governos não fazem".
Ainda em março deste ano, o governo Lula se opôs formalmente à redução da maioridade penal. Após o relator da PEC da Segurança, Mendonça Filho, indicar que manteria a proposta de um plebiscito sobre o tema em 2028, o Ministério dos Direitos Humanos divulgou uma nota afirmando que a proposta "afronta diretamente a Constituição Federal de 1988", citando o artigo 228 que estabelece que menores de 18 anos são penalmente inimputáveis. Lula e aliados de esquerda se opuseram à ideia do plebiscito.
A mudança de posição é notável porque contrasta com a consistência que Lula mantém em outros temas de segurança pública. Em relação às saídas temporárias de presos em feriados e datas comemorativas, ele permanece favorável. Em abril de 2024, após vetar um trecho de lei que restringia essas saídas, Lula disse que "família é coisa sagrada" e que "se a pessoa tiver bom comportamento e estiver se recuperando é justo que ela saia para ver sua família". Ele reafirmou essa posição durante um debate no domingo passado. Quanto à prisão de traficantes de drogas, Lula também mantém sua posição histórica de apoio, apesar de uma declaração contraditória em outubro de 2025, quando afirmou que "os usuários são responsáveis pelos traficantes que são vítimas dos usuários também" — frase que ele depois descreveu como "mal colocada".
Em relação ao uso das Forças Armadas em operações de segurança pela Garantia da Lei e da Ordem, Lula também foi contraditório. Em outubro de 2023, durante uma crise de segurança no Rio de Janeiro, declarou: "Enquanto eu for presidente, não tem GLO". Cinco dias depois, porém, decretou uma operação do tipo no estado. A reversão sobre a maioridade penal, contudo, é a mais marcante porque toca em uma questão que historicamente definiu a identidade política da esquerda brasileira e do próprio Lula. Sua justificativa na sabatina — de que o problema era que a PEC da Segurança não estava discutindo especificamente crimes hediondos — sugere uma abertura a negociações em um tema que, até recentemente, era considerado inegociável.
Bemerkenswerte Zitate
Meu pensamento, enquanto cidadão brasileiro, é que para todo e qualquer crime hediondo, eu sou a favor de reduzir a maioridade— Lula, sabatina TV Globo, 15 de outubro de 2026
Reduzir a maioridade penal não reduz o problema da violência— Lula, 2003, após assassinato de Liana Friedenbach e Felipe Caffé