No fim de uma noite de contagem apertada, o Brasil decidiu manter à frente do seu destino o homem que já o governou em três ocasiões. Luiz Inácio Lula da Silva, aos 80 anos e à beira da sua última batalha eleitoral, venceu Flávio Bolsonaro por cerca de quatro milhões de votos, invertendo a desvantagem da primeira volta, algo que nenhum candidato tinha conseguido desde que o sistema de duas voltas existe. A vitória não encerra a disputa sobre o rumo do país, pois o eleitorado continua dividido entre a memória dos programas sociais e a queixa do custo de vida, e a região observa com atenção se o
Lula da Silva vence Bolsonaro na 2.ª volta e é reeleito presidente do Brasil aos 80 anos
O primeiro a vencer depois de ter perdido a primeira volta
Porque é que esta vitória é tão simbólica?
Porque nunca tinha acontecido. Desde 1989, ninguém que ficou em segundo na primeira volta ganhou a segunda. Lula estava 2.224.965 votos atrás e virou o resultado.
E a margem final foi larga?
Não. Foram 51,75%, com 63,4 milhões de votos contra 59,1 milhões de Flávio Bolsonaro. A meio da contagem estava um empate técnico.
Convém precisar que estes números são com 98,76% das secções contadas. Não são o resultado final.
E a prorrogação do voto por duas horas?
Foi decidida pelo Supremo Tribunal a pedido de Lula, que alegou a retirada de autocarros em várias cidades. Os apoiantes de Bolsonaro criticaram-na como tentativa de equilibrar as coisas.
Mas isso é a alegação de Lula. A reportagem não confirma quantos autocarros foram retirados nem quantos eleitores ficaram impedidos de votar. Também não se sabe se as duas horas pesaram no resultado.
Que peso teve a sombra de Trump?
Trump só disse "estamos a observar, pois". Lula usou a ameaça de interferência dos EUA como bandeira de campanha.
Ainda assim, a interferência foi um argumento do campo de Lula. O texto não descreve nenhuma ação concreta de Washington.
E a disputa com a Meta?
A campanha acusou-a de manipulação algorítmica. A Meta negou, mas admitiu que anúncios de Lula foram desativados por erro técnico.
Il Polso
- A contagem foi um empate técnico até ao fim, com a liderança a oscilar entre Lula e Bolsonaro durante boa parte da noite.
- O Supremo Tribunal prolongou a votação em duas horas, e os apoiantes de Bolsonaro classificaram a medida como uma vergonha.
- Lula acusou a retirada de autocarros em várias cidades de impedir eleitores de votar, enquanto a Meta negou manipulação mas admitiu anúncios desativados por erro.
- Com 63,4 milhões de votos contra 59,1 milhões, Lula garante o quarto mandato, e o país espera agora pelo peso da inflação, do desemprego e da insegurança.
No fim de uma noite de contagem apertada, o Brasil decidiu manter à frente do seu destino o homem que já o governou em três ocasiões. Luiz Inácio Lula da Silva, aos 80 anos e à beira da sua última batalha eleitoral, venceu Flávio Bolsonaro por cerca de quatro milhões de votos, invertendo a desvantagem da primeira volta, algo que nenhum candidato tinha conseguido desde que o sistema de duas voltas existe. A vitória não encerra a disputa sobre o rumo do país, pois o eleitorado continua dividido entre a memória dos programas sociais e a queixa do custo de vida, e a região observa com atenção se o Brasil continuará a ser um dos poucos faróis da esquerda latino-americana.
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente do Brasil na segunda volta, com 51,75% dos votos, e assegurou o seu quarto mandato, o primeiro não consecutivo. Com quase todas as secções apuradas, tinha 63,4 milhões de votos contra 59,1 milhões de Flávio Bolsonaro. Lula é o primeiro candidato a vencer depois de ter ficado em segundo na primeira volta, algo inédito desde 1989.
A noite foi de contagem apertada, com a liderança a oscilar até ao fim. O dia de votação ficou marcado pela confusão: o Supremo Tribunal prolongou a votação em duas horas, a pedido de Lula, que denunciou a retirada de autocarros em várias cidades. Os apoiantes de Bolsonaro criticaram a medida, e os eleitores ouvidos dividiram-se entre a indignação e a convicção de que o direito de voto devia ser garantido a todos.
O resultado foi também uma disputa sobre o lugar do Brasil na região. Num continente que se vira à direita, Lula apresentou-se como barreira contra a interferência externa e o recuo democrático. Flávio Bolsonaro prometeu combater o crime e cortar na despesa pública, apresentando-se como mais moderado do que o pai, que cumpre pena por conspiração de golpe.
Lula, de 80 anos, regressa com a memória dos programas sociais que tiraram milhões da pobreza e com a tarefa de responder a um eleitorado cansado do custo de vida e da insegurança.
Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente do Brasil na segunda volta das eleições, com 51,75% dos votos, e assegurou o quarto mandato como chefe de Estado, o quarto não consecutivo. Com 98,76% das secções de voto contabilizadas, tinha 63.388.523 votos, contra 59.099.143 de Flávio Bolsonaro, senador de direita.
O resultado tem um lugar próprio na história eleitoral brasileira. Lula é o primeiro candidato a vencer depois de ter terminado a primeira volta em segundo lugar, algo que nunca tinha acontecido desde que o sistema de duas voltas foi introduzido nas presidenciais, em 1989. Na primeira volta, Flávio Bolsonaro tinha somado 47,03% dos votos válidos e Lula 45,16%, uma diferença de 2.224.965 votos, que o líder do Partido dos Trabalhadores acabou por inverter. Antigo sindicalista, tem 80 anos e faz 81 na terça-feira. Esta é a sua última batalha eleitoral.
A noite foi de contagem apertada. A meio do escrutínio, com cerca de 65% das urnas eletrónicas apuradas, Lula tinha 50,7% e Bolsonaro 49,2%, num empate técnico em que a liderança oscilou. Estavam inscritos mais de 158,7 milhões de eleitores, que podiam votar em cerca de 564.000 urnas eletrónicas, distribuídas por 5.571 cidades brasileiras e por 186 cidades no exterior, entre as quais Lisboa, Porto e Faro.
O dia de votação ficou marcado pela confusão. O Supremo Tribunal decidiu à última hora prolongar o voto por duas horas, a pedido de Lula, que denunciou a retirada de circulação de autocarros em várias cidades, o que impedia cidadãos de votar. "Nunca me queixei de nada em nenhuma eleição. Ganhasse ou perdesse, aceitava e preparava-me para a seguinte. Mas desta vez está a acontecer uma coisa abominável", disse. Flávio Bolsonaro também tinha pedido um prolongamento nalgumas zonas, por causa de chuvas fortes, mas os seus apoiantes criticaram que a medida fosse alargada a todo o país.
Aurelio Junior, dentista de 45 anos em Brasília, classificou-a como "uma vergonha" e uma tentativa de equilibrar as coisas, apesar de manter que Flávio ganharia. Já Jacqueline Maria Lima de França, empresária de 34 anos no Rio de Janeiro e apoiante de Lula, considerou-a "mais do que justo", porque a toda a gente devia ser garantido o direito a votar.
Em jogo estava também o rumo regional. O Brasil é uma das poucas nações de esquerda da América Latina e a segunda volta decidia se continuaria assim ou se se juntaria a uma viragem à direita apadrinhada pelo Presidente dos EUA, Donald Trump, aliado de Jair Bolsonaro. Questionado no domingo sobre a eleição, Trump limitou-se a dizer "estamos a observar, pois". Lula apresentou-se como um escudo contra a interferência dos EUA e o recuo da democracia.
Flávio Bolsonaro, de 45 anos, prometeu combater o crime, cortar na despesa pública e entregar o Brasil "ao Senhor Jesus Cristo". Depois de votar no Rio de Janeiro, afirmou que tinha chegado "a hora da mudança a sério". Apresenta-se como mais moderado do que o pai, que cumpre uma pena de 27 anos por conspirar um golpe depois de perder as eleições de 2022. Eduardo Viana, reformado de 67 anos, disse à AFP que votava na renovação e que Lula "diz que governa para os pobres", mas as pessoas nem conseguem ir ao supermercado.
Depois da derrota na primeira volta, a esquerda respondeu com grandes comícios que recordaram a gestão caótica da pandemia de covid-19 por Jair Bolsonaro, a devastação da floresta amazónica e os cortes em programas públicos. Lula renovou também a estratégia nas redes sociais e comprou o seu primeiro telemóvel. A campanha acusou a Meta, dona do WhatsApp, do Facebook e do Instagram, de favorecer o adversário com "manipulação algorítmica". A empresa negou, mas admitiu que alguns anúncios da campanha de Lula foram desativados por engano, devido a erros técnicos.
Lula, venerado pelos programas sociais que tiraram milhões da pobreza, regressou ao poder em 2022, depois de mais de 18 meses preso por um escândalo de corrupção, com acusações anuladas por razões processuais mas que continuaram a persegui-lo. No terceiro mandato, a inflação e o desemprego desceram e milhões saíram da fome, mas os eleitores queixam-se do custo de vida e da insegurança. São esses os problemas que o esperam no novo mandato.
Citazioni salienti
Nunca me queixei de nada em nenhuma eleição. Ganhasse ou perdesse, aceitava e preparava-me para a seguinte. Mas desta vez está a acontecer uma coisa abominável.— Lula da Silva
Chegou a hora da mudança a sério.— Flávio Bolsonaro