Lula anuncia novo modelo de crédito imobiliário e reafirma meta de criar 'sociedade de classe média'

Ninguém gosta de ser pobre, e é responsabilidade do Estado cuidar
Lula justifica o investimento em políticas sociais durante lançamento de novo modelo de crédito imobiliário.

No Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, o presidente Lula apresentou um novo mecanismo de crédito imobiliário que busca redirecionar recursos da poupança para o financiamento habitacional — uma resposta técnica a um problema estrutural, mas também um gesto político carregado de simbolismo. Para Lula, a casa própria não é apenas um bem material: é o degrau que falta a uma maioria de brasileiros que, segundo ele, vive com menos de cinco mil reais por mês. O anúncio revela a tensão permanente entre a ambição de construir uma sociedade de classe média e os limites impostos por um sistema financeiro que exige cautela e tempo.

  • A poupança, fonte histórica do crédito imobiliário no Brasil, está se esgotando — e o governo age antes que o sistema entre em colapso.
  • Lula chegou ao evento ainda irritado com a derrota na votação da MP do IOF, que bloqueou uma tentativa de tributar mais ricos, fintechs e apostas online.
  • O novo mecanismo promete liberar entre R$ 20 e R$ 25 bilhões em crédito adicional, mas exige que os bancos sigam regras rígidas de destinação dos recursos.
  • O setor da construção civil pediu transição lenta — e o governo aceitou: testes até 2026, funcionamento pleno só em 2027.
  • Por trás dos números, Lula reafirma uma visão de Estado: cuidar dos 90% que ganham pouco é, para ele, a única política econômica que faz sentido moral.

Na sexta-feira, Lula subiu ao palco do Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo, para lançar um novo modelo de crédito imobiliário — mas o discurso foi maior do que o mecanismo. Para o presidente, dinheiro e dignidade caminham juntos, e o objetivo declarado é transformar o Brasil numa sociedade de classe média, onde políticas de inclusão funcionem como degraus de ascensão social.

Ele não poupou convicção. Citou que 90% dos brasileiros ganham menos de R$ 5 mil por mês para justificar programas como o Bolsa Família e o Pé-de-meia, e rebateu críticos que os consideram caros demais. Ainda visivelmente incomodado com a derrota, dois dias antes, na votação da MP do IOF — que buscava tributar mais ricos, fintechs e apostas online —, Lula aproveitou para alfinetar os setores que, em sua visão, resistem a contribuir com o país. Fez também uma piada com o deputado Guilherme Boulos, do PSOL, presente no evento, evocando a luta histórica pela moradia no Brasil.

O novo mecanismo busca resolver um problema concreto: a poupança, fonte tradicional do crédito habitacional, está se esgotando. A proposta permite que, para cada real emprestado em crédito habitacional, o banco utilize o mesmo valor em recursos da poupança por até cinco anos — prazo renovável. O Banco Central liberaria cinco pontos percentuais do compulsório para instituições aderentes, gerando entre R$ 20 e R$ 25 bilhões em crédito adicional. Desses recursos, 80% iriam para o Sistema de Financiamento Habitacional, com taxa máxima de 12% ao ano, e 20% para o Sistema Financeiro Imobiliário, com taxas de mercado.

A implementação será gradual: fase de testes até o fim de 2026 e funcionamento pleno em 2027, ritmo pedido pelo setor da construção civil para evitar rupturas. O governo tenta, assim, expandir o acesso à moradia sem desestabilizar o sistema que o sustenta — uma equação delicada entre ambição social e prudência financeira.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palco do Centro de Convenções Rebouças em São Paulo na sexta-feira para falar sobre duas coisas que, em sua visão, andam juntas: dinheiro e dignidade. Ele estava ali para lançar um novo mecanismo de crédito imobiliário, mas o que realmente o ocupava era uma ideia maior — a de transformar o Brasil numa sociedade de classe média, onde as pessoas pudessem subir um degrau na escala social através de políticas de inclusão.

Lula não disfarçou a convicção. Ninguém gosta de ser pobre, disse ele, e é responsabilidade do Estado cuidar das classes mais baixas. Quando críticos apontam que seus programas custam muito — Bolsa Família, Pé-de-meia — ele rebate com um número que, para ele, encerra a discussão: 90% dos brasileiros ganham menos de cinco mil reais por mês. Essa é a realidade que justifica, em sua lógica, o investimento em políticas sociais. Ricos, fintechs e apostas online, continuou, reclamam de pagar uma "merreca" de tributos, enquanto a maioria do país mal consegue se manter.

O presidente ainda estava irritado com uma derrota recente. Na quarta-feira anterior, o governo havia perdido uma votação sobre a Medida Provisória que tratava do IOF — um imposto que afeta justamente esses setores que ele considera privilegiados. A derrota o incomodava porque, para Lula, representava uma recusa em fazer os ricos contribuírem mais. Ele aproveitou a ocasião para brincar com o deputado Guilherme Boulos, do PSOL, que estava presente. Tempos atrás, brincou, o Brasil era uma "república de invasão de condomínio". Será que Boulos, que lidera o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, tinha vivido essa época? A piada tinha uma ponta de seriedade — uma forma de reconhecer que a luta pela moradia é antiga neste país.

Mas o lançamento do dia era sobre crédito. O novo modelo que o governo apresentava buscava resolver um problema técnico que vinha se acumulando: a poupança, historicamente a fonte de financiamento para imóveis no Brasil, estava se esgotando. O mecanismo proposto era flexível. Para cada real que um banco emprestasse em crédito habitacional, ele poderia usar o mesmo valor em recursos da poupança livremente por até cinco anos — um prazo que poderia ser estendido se novos financiamentos fossem concedidos. Hoje, 65% dos recursos do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos precisam ir para crédito imobiliário. Outros 20% são retidos pelo Banco Central como compulsório, e 15% ficam livres para uso das instituições.

A autoridade monetária planejava liberar cinco pontos porcentuais desse compulsório para as instituições que aderissem ao novo modelo. O impacto estimado era entre vinte e vinte e cinco bilhões de reais em crédito imobiliário adicional. Desses recursos liberados, 80% teriam de ir para o Sistema de Financiamento Habitacional, com taxa máxima de 12% ao ano, enquanto 20% iriam para o Sistema Financeiro Imobiliário, que opera com taxas de mercado. A divisão valeria também para os valores liberados do compulsório.

O cronograma era cauteloso. A implementação seria gradual até o fim de 2026, em fase de testes, com funcionamento pleno previsto para 2027. Essa transição lenta havia sido pedida pelo setor da construção civil, que temia rupturas bruscas no sistema de crédito. Era um reconhecimento de que mudanças estruturais, mesmo as bem-intencionadas, precisam de tempo para não quebrar o que já existe. O governo estava tentando fazer duas coisas ao mesmo tempo: expandir o acesso ao crédito e manter a estabilidade do sistema que o sustenta.

Há uma necessidade de continuar fazendo política de inclusão social para ver se a gente faz as pessoas subirem um degrau na escala social, para que a gente crie uma espécie de sociedade de classe média
— Presidente Lula
Somos uma sociedade em que 90% ganham menos de R$ 5 mil por mês
— Presidente Lula
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que o presidente insiste tanto em chamar isso de "sociedade de classe média" em vez de apenas expandir o acesso ao crédito?

Model

Porque para Lula, crédito é um meio, não um fim. O que ele quer é mobilidade social — a sensação de que você pode sair de onde está. Classe média é um símbolo disso, um lugar onde você respira um pouco melhor.

Inventor

Mas 90% dos brasileiros ganham menos de cinco mil reais. Isso é classe média?

Model

Não é. É por isso que ele fala em "criar" uma sociedade de classe média, não em reconhecer uma que já existe. É um projeto, uma direção. Ele está dizendo: isso é para onde queremos ir.

Inventor

E o novo modelo de crédito imobiliário — isso realmente muda algo para quem ganha cinco mil reais por mês?

Model

Muda se conseguir baixar as taxas de juros e aumentar a oferta de crédito. Mas há um risco: se o sistema não funcionar bem, pode apertar ainda mais. Por isso a transição é lenta, até 2027.

Inventor

A derrota na votação do IOF parece tê-lo irritado.

Model

Irritou porque ele vê como uma recusa moral. Para ele, é simples: se 90% ganham pouco, os 10% que ganham muito deveriam contribuir mais. Quando perdem uma votação sobre isso, é como se dissessem que não acreditam nessa lógica.

Inventor

E a brincadeira com Boulos sobre invasão de condomínio?

Model

Era uma forma de dizer: eu reconheço de onde você vem, reconheço a luta pela moradia. Mas agora estamos tentando resolver isso pelo caminho do crédito, não pela invasão. É uma mudança de estratégia, talvez até uma reconciliação.

Contact Us FAQ