Lula alerta França sobre risco de 'apartheid climático' sem financiamento internacional

Comunidades indígenas, pescadores e pequenos produtores rurais que vivem nas florestas enfrentam risco desproporcional dos efeitos climáticos sem financiamento adequado para preservação ambiental.
Embaixo de cada árvore deve ter algum indígena, um pescador, um extrativista
Lula conecta a preservação florestal às comunidades que vivem nas florestas e precisam de condições para permanecer nelas.

Em Paris, ao lado de Emmanuel Macron, o presidente Lula nomeou com precisão uma injustiça antiga: o apartheid climático, a tendência de que os mais pobres do mundo arquem sozinhos com os custos de uma crise que não criaram. Sua cobrança central — 1,3 trilhão de dólares em financiamento internacional — não é um número novo, mas carrega o peso de uma promessa feita em 2009 e ainda não cumprida. A visita resultou em acordos concretos entre Brasil e França, e recolocou a Amazônia no coração de uma relação bilateral que, segundo Lula, ainda não reconhece plenamente sua própria fronteira sul-americana.

  • Sem financiamento climático adequado, comunidades indígenas, pescadores e extrativistas serão os primeiros a pagar — com suas terras e seus modos de vida — por uma crise que não causaram.
  • Lula cobrou diretamente da França que assuma seu papel de doadora, rejeitando o argumento de que a Guiana Francesa justificaria o país como receptor de recursos destinados às nações mais pobres.
  • A promessa de 100 bilhões de dólares anuais feita na COP15 de Copenhague, em 2009, segue descumprida — e o Brasil chegou a Paris para lembrar que memória e responsabilidade não têm prazo de validade.
  • Brasil e França assinaram acordos sobre hidrogênio de baixo carbono e descarbonização marítima, transformando o discurso em compromissos bilaterais verificáveis.
  • O Brasil apresentará até novembro metas de redução de emissões entre 59% e 67% até 2035, sinalizando que exige dos outros o que também está disposto a cumprir.

Lula estava em Paris ao lado de Macron quando decidiu nomear de forma direta uma velha injustiça: apartheid climático. A expressão resume um risco concreto — sem financiamento internacional robusto, os países pobres e suas populações mais vulneráveis pagarão sozinhos pela conta do aquecimento global, enquanto os ricos se protegem.

O número central da cobrança brasileira é 1,3 trilhão de dólares. Mas o que Lula quis ressaltar foi a promessa anterior, feita em 2009 na COP15 de Copenhague: 100 bilhões de dólares anuais que os países desenvolvidos se comprometeram a enviar para nações em desenvolvimento investirem em mitigação e adaptação climática — e que nunca chegaram como prometido. Lula também foi preciso sobre quem deve pagar: a França, uma das nações mais ricas do mundo, não pode usar a Guiana Francesa como justificativa para se posicionar como receptora desses recursos.

O presidente conectou o debate financeiro às pessoas que vivem nas florestas — indígenas, pescadores, extrativistas, seringueiros, pequenos produtores rurais. Para ele, essas comunidades precisam ter o direito de permanecer em seus territórios com qualidade de vida, e isso só é possível com financiamento real para preservação ambiental.

A visita não se limitou a cobranças. Lula e Macron assinaram dois acordos concretos: um sobre hidrogênio de baixo carbono e outro sobre descarbonização do setor marítimo. Lula também anunciou participação na Conferência da ONU sobre Oceanos, em Nice, defendendo que os biomas oceânicos recebam a mesma atenção que as florestas tropicais.

O Brasil reafirmou seus próprios compromissos: até novembro, o país apresentará novas metas de redução de emissões entre 59% e 67% até 2035. Lula destacou a ministra Marina Silva como articuladora internacional dessa agenda e reposicionou a Amazônia no centro da relação franco-brasileira — lembrando que a maior fronteira terrestre da França não fica na Europa, mas na América do Sul. Dessa visão nascerá ainda este ano o Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade Amazônica, além de cooperação policial no combate ao garimpo e ao desmatamento ilegais.

Lula estava em Paris, ao lado do presidente francês Emmanuel Macron, quando colocou sobre a mesa uma questão que não sai dos discursos climáticos há anos, mas que ele decidiu nomear de forma diferente: apartheid climático. A frase é dura. Significa que sem dinheiro — muito dinheiro — os pobres do mundo vão pagar sozinhos pela conta do aquecimento global enquanto os ricos se protegem.

O presidente brasileiro foi direto ao ponto. Para enfrentar a crise climática com a ambição que ela exige, o mundo precisa mobilizar 1,3 trilhão de dólares. Esse número não é novo. O que é novo é a insistência em cobrar uma promessa feita em 2009, durante a COP15 em Copenhague, quando os países mais desenvolvidos se comprometeram a enviar 100 bilhões de dólares por ano para nações em desenvolvimento investirem em mitigação e adaptação climática. Lula estava lá naquela época. Ele se lembra. E quer saber por que o dinheiro não chegou como prometido.

Mas Lula também foi específico sobre quem deveria pagar e quem não deveria. Dirigindo-se à França, disse que o país não pode usar a Guiana Francesa como desculpa para receber recursos destinados aos mais pobres. A lógica é simples: a Guiana Francesa fica em uma das regiões mais pobres do mundo, mas a França é uma das nações mais ricas. Logo, a França não é receptora desse financiamento — é doadora. Essa distinção importa porque muda quem tem direito a quê, e em negociações climáticas internacionais, cada dólar é disputado.

O presidente não perdeu a oportunidade de conectar o dinheiro às pessoas que realmente vivem nas florestas. Embaixo de cada árvore, disse ele, há um indígena, um pescador, um extrativista, um seringueiro, um pequeno produtor rural. Essas pessoas precisam ter o direito de permanecer na floresta com um mínimo de qualidade de vida. Sem financiamento para preservação, essas comunidades são as primeiras a sofrer — tanto com os efeitos do aquecimento quanto com a pressão para abandonar suas terras.

A visita à França não foi apenas para cobranças. Lula e Macron assinaram dois acordos que marcam uma nova fase de cooperação ambiental bilateral. Um deles trata de hidrogênio de baixo carbono; o outro, de descarbonização do setor marítimo. São compromissos concretos, não apenas palavras. Lula também anunciou que participará da próxima Conferência da ONU sobre Oceanos, em Nice, reforçando que os biomas oceânicos merecem o mesmo nível de atenção que as florestas tropicais.

O Brasil, por sua vez, reafirmou seu próprio compromisso climático. Até novembro, o país apresentará suas novas Contribuições Nacionalmente Determinadas — as NDCs — com metas de redução de emissões entre 59% e 67% até 2035, cobrindo todos os setores da economia. Lula reconheceu que não é tarefa fácil. Ninguém pediu ao Brasil para assumir essa responsabilidade, mas o país a assumiu por interesse e compromisso do governo.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, ganhou destaque no discurso de Lula como articuladora internacional dessa agenda. Ela tem muito a discutir, disse o presidente, desde o cumprimento do Acordo de Paris até a questão nova e urgente do financiamento climático que permite atingir as metas acordadas.

Por fim, Lula reposicionou a Amazônia no centro da relação franco-brasileira. A maior fronteira terrestre da França não fica na Europa, lembrou ele — fica na América do Sul, através da Guiana Francesa. A França deveria estar para a América do Sul como está para a Europa. Esse reconhecimento abre caminho para iniciativas como o Centro Franco-Brasileiro de Biodiversidade Amazônica, previsto para ser criado ainda este ano, que financiará pesquisas conjuntas e integrará esforços de preservação. Também há planos de cooperação entre as polícias dos dois países no combate ao garimpo e desmatamento ilegais. A conversa sobre clima, portanto, não é abstrata — é sobre quem paga, quem se beneficia, e quem fica para trás.

Sem mobilizar US$ 1,3 trilhão para o enfrentamento da mudança do clima, corremos o risco de criar um apartheid climático
— Presidente Lula
A França não é receptora. A França tem que ser doadora desse dinheiro
— Presidente Lula, sobre o financiamento climático
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Por que Lula escolheu a palavra "apartheid" para descrever a crise climática? Não é uma palavra que se ouve todos os dias nesse contexto.

Model

Porque ela nomeia algo que é real mas que costuma ser dito de forma vaga. Quando você diz "os pobres sofrem mais", é abstrato. Apartheid climático deixa claro: há uma divisão deliberada, estrutural, entre quem sofre e quem se protege. É uma acusação, não apenas uma observação.

Inventor

Mas a França é um aliado importante para o Brasil em questões climáticas. Por que Lula foi tão direto em dizer que a França não deveria receber financiamento climático?

Model

Porque há uma diferença entre ser aliado e ser honesto. A França é rica. A Guiana Francesa é pobre, mas pertence a um país rico. Se você quer que o financiamento chegue aos que mais precisam, não pode deixar que países desenvolvidos usem territórios pobres como porta de entrada para recursos que deveriam ir para nações em desenvolvimento de verdade.

Inventor

E as comunidades que vivem nas florestas — por que Lula insistiu tanto em nomeá-las?

Model

Porque sem elas, não há floresta. Elas não são cenário de fundo. São as pessoas que fazem a preservação acontecer todos os dias. Se você quer que a floresta continue em pé, precisa garantir que essas pessoas tenham razão para ficar lá e condições para viver com dignidade.

Inventor

O Brasil está assumindo metas muito ambiciosas — 59% a 67% de redução de emissões até 2035. Como isso é possível?

Model

Não é fácil, como o próprio Lula disse. Mas o Brasil tem setores inteiros que podem mudar: energia, agricultura, desmatamento. O país não está começando do zero. Já tem capacidade em energias renováveis. A questão é se consegue fazer isso rápido o suficiente e se consegue financiar a transição sem deixar trabalhadores para trás.

Inventor

E se o financiamento internacional não chegar?

Model

Então o Brasil faz o que pode com o que tem. Mas fica mais lento, mais caro, e as comunidades que vivem nas florestas continuam sendo as primeiras a sofrer.

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