Livro acusa Netanyahu de ignorar alertas sobre ataque do Hamas e de atrasar resgate de reféns

O ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 matou 1.200 pessoas e sequestrou 251; a campanha militar em Gaza matou mais de 75 mil palestinos, e dezenas de reféns morreram.
"Em todas as ocasiões em que teve a oportunidade, ele recuou"
Eldar sobre a postura de Netanyahu diante de chances de resgatar os reféns em Gaza.
Mark

Qual é a acusação central do livro?

Mimi

Que Netanyahu foi avisado, no fim de setembro de 2023, pelo presidente dos Emirados, Mohammed bin Zayed, de que o Hamas preparava uma grande operação, e não agiu.

Mark

E o que Netanyahu responde?

Mimi

Nega, chama de calúnia eleitoral e processa veículos e jornalistas, incluindo Eldar.

Luke

Vale separar o que está confirmado. O telefonema vem das fontes de Eldar. Os Emirados não confirmaram nem negaram.

Mimi

Exato. Disseram apenas que informações relevantes de inteligência são compartilhadas com Israel.

Mark

Por que, segundo o livro, ele não agiu?

Mimi

Eldar sugere que Netanyahu queria preservar a normalização com a Arábia Saudita e temia ser forçado a atacar Gaza.

Luke

Mas isso é hipótese do autor, não fato documentado. E a tese de que o resgate dos reféns foi adiado por cálculo político também é a avaliação dele, apoiada no episódio de 2024 com Smotrich.

Mark

Há como saber o efeito na eleição?

Luke

Não. O próprio Eldar diz que não sabe, e o impacto não foi medido.

  • Um livro acusa Netanyahu de ter ignorado alertas de Emirados e Egito semanas antes do ataque mais letal da história de Israel.
  • O premiê chama a obra de calúnia com fins eleitorais e processa veículos e jornalistas, incluindo Shlomi Eldar, um de seus autores.
  • A acusação de que o resgate dos reféns foi atrasado por cálculo político ganha força justamente às vésperas da eleição legislativa.
  • O impacto nas urnas ainda não foi medido, e um país dividido há quase 20 anos sobre Netanyahu segue sem consenso sobre o que é verdade.

Num momento em que Israel vai às urnas, uma pergunta antiga volta a ocupar o centro da vida pública: quem era responsável por ver o perigo a tempo? Um livro de dois jornalistas israelenses sustenta que o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu recebeu avisos de aliados sobre o ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 e preferiu não agir, talvez para preservar seus cálculos políticos. Ele rejeita a versão como calúnia eleitoral e responde na Justiça, de modo que a verdade permanece em disputa, entre a memória de uma tragédia que matou 1.200 pessoas e a inquietação de uma sociedade dividida sobre quem deve ser responsabilizado.

Nesta terça-feira (27), os israelenses votam em uma eleição legislativa em que a responsabilidade do governo pelo ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023 é um dos temas centrais. Os opositores do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu dizem que ele falhou em proteger o país, e nesse debate pesam as denúncias publicadas pela imprensa.

A mais impactante delas está no livro "Sequestrados: 843 Dias de Abandono", dos jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval, ainda disponível apenas em hebraico. Segundo a obra, em setembro de 2023 os Emirados Árabes Unidos avisaram que Yahya Sinwar planejava uma grande operação, e o presidente emiradense telefonou a Netanyahu no fim do mês. O premiê teria dito estar preparado. O Egito também teria enviado um alerta semelhante. Dez dias depois, o Hamas invadiu Israel. Netanyahu nega tudo, chama o livro de calúnia e processa veículos e jornalistas, Eldar entre eles.

O livro acusa ainda que a demora em resgatar os reféns foi cálculo político. Eldar cita negociações de 2024, quando o premiê teria recuado de um acordo de libertação para não perder apoio no governo.

Eldar diz não ter escrito por motivação partidária. Desde a publicação, desconhecidos o param na rua para cumprimentá-lo, mas ele sabe que muitos eleitores não acreditam na reportagem. O efeito do livro nas urnas ainda não foi medido.

Nesta terça-feira (27), os israelenses vão às urnas em uma eleição legislativa na qual um dos temas centrais é a responsabilidade do governo pelo ataque do Hamas de 7 de outubro de 2023. Os opositores do primeiro-ministro Binyamin Netanyahu o acusam de ter falhado na proteção do país, e nesse debate pesam as denúncias publicadas pela imprensa.

A mais impactante está no livro "Sequestrados: 843 Dias de Abandono" (tradução livre), dos jornalistas Shlomi Eldar e Ruth Yuval, ainda disponível apenas em hebraico. A obra afirma que Netanyahu foi alertado sobre os planos do Hamas e não agiu. O premiê nega, diz tratar-se de "calúnia" com fins eleitorais e processa diversos veículos israelenses e jornalistas, Eldar entre eles, por divulgarem a acusação.

Segundo o livro, em meados de setembro de 2023 as autoridades dos Emirados Árabes Unidos receberam a informação de que Yahya Sinwar, então líder do Hamas, planejava uma grande operação militar. Em árabe, Sinwar teria usado a palavra "zilzal", "terremoto". Cerca de duas semanas depois, no fim de setembro, o presidente emiradense, Mohammed bin Zayed, telefonou a Netanyahu e o avisou. O premiê o tranquilizou e disse estar preparado para qualquer ataque. Eldar afirma ainda que, em paralelo, o chefe da inteligência do Egito, Abbas Kamel, enviou mensagem semelhante ao israelense. O Ministério das Relações Exteriores dos Emirados não confirmou nem negou o telefonema, mas disse que informações de inteligência relevantes são compartilhadas com Israel.

Cerca de dez dias depois, em 7 de outubro, combatentes liderados pelo Hamas invadiram Israel, mataram 1.200 pessoas e sequestraram 251, no ataque mais letal da história do país. A campanha militar israelense em Gaza que se seguiu matou mais de 75 mil palestinos. Para Eldar, veterano da imprensa israelense com passagem por grandes emissoras de televisão e que diz ter ouvido mais de cem fontes, não há dúvida de que os avisos aconteceram. A pergunta, diz, é por que Netanyahu não reagiu; segundo o livro, ele nem sequer informou a cúpula do aparato de segurança.

A hipótese de Eldar é que o premiê estava empenhado em normalizar as relações com a Arábia Saudita e temia que, ao divulgar a ameaça, seus aliados o forçassem a atacar Gaza, o que prejudicaria as negociações. Após o atentado, a ofensiva foi lançada e a normalização com os sauditas, interrompida.

O livro faz uma segunda acusação: a de que a demora em resgatar os reféns em Gaza, dezenas dos quais morreram, foi cálculo político. "Netanyahu estava pensando em como sobreviver politicamente. Em todas as ocasiões em que teve a oportunidade de resgatar os reféns, ele recuou", diz Eldar. Ele cita as negociações de meados de 2024, quando o premiê teria chegado perto de aceitar a libertação de reféns em troca de um cessar-fogo. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, ameaçou deixar o governo, e Netanyahu recuou.

Eldar diz não saber se o livro influenciará a eleição e afirma que não o escreveu por motivação política. Conta que, desde a publicação, pessoas o param na rua para apertar-lhe a mão e dizer "kol hakavod", "parabéns". Ele reconhece, porém, que muitos não acreditam na reportagem: após quase 20 anos de Netanyahu como premiê, o país está dividido, e o jornalista fala em uma "máquina de veneno" que espalha narrativas favoráveis ao governo. "Para eles, Netanyahu é Deus", afirma. O efeito do livro nas urnas, por ora, não foi medido.

Netanyahu estava pensando em como sobreviver politicamente. Em todas as ocasiões em que teve a oportunidade de resgatar os reféns, ele recuou.
— Shlomi Eldar, coautor do livro
Chama as acusações de calúnia com fins eleitorais.
— Binyamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel
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