Em Israel, a aritmética do poder volta a encostar a política à sua fronteira mais difícil: quem pode governar sem ceder a quem a comunidade política tem evitado. Quando o bloco que pretende afastar Netanyahu fica a treze lugares da maioria, a porta para as listas árabes deixa de ser um tabu teórico e passa a ser uma questão de princípios, de condições e de memória recente. Eisenkot oferece um caminho com quatro condições, mas a verdadeira pergunta é se o país estará disposto a reconhecer a legitimidade de quem, durante anos, esteve fora da conta do poder.
Eisenkot admite governo com apoio de partidos árabes para afastar Netanyahu do poder
Em Israel, a aritmética do poder volta a encostar a política à sua fronteira mais difícil: quem pode governar sem ceder a quem a comunidade política tem evitado. Quando o bloco que pretende afastar Netanyahu fica a treze lugares da maioria, a porta para as listas árabes deixa de ser um tabu teórico e passa a ser uma questão de princípios, de condições e de memória recente. Eisenkot oferece um caminho com quatro condições, mas a verdadeira pergunta é se o país estará disposto a reconhecer a legitimidade de quem, durante anos, esteve fora da conta do poder.
Num sábado de fim de outubro, centenas de israelitas reuniram-se na Praça Habima, em Telavive, a pedir um governo formado com o apoio dos partidos árabes. A poucos metros, uma dezena de contra-manifestantes de direita gritava slogans contra o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e exigia novas eleições. O contraste resumia o momento: um país dividido sobre quem deve governar e a que preço.
Nesse mesmo dia, o líder da oposição, Gadi Eisenkot, admitiu pela primeira vez governar com o apoio de formações árabes, desde que os seus deputados aceitem quatro princípios. Entre eles estão o reconhecimento de Israel como Estado judaico, democrático, liberal e igualitário, o compromisso com a Declaração de Independência, a obrigação de serviço militar ou cívico para todos os cidadãos e o reconhecimento do Hamas como organização terrorista.
A razão é aritmética. Segundo os resultados definitivos, o Likud de Netanyahu ficou em primeiro com 27 assentos e a coligação somou 53. O bloco anti-Netanyahu fica nos 48 lugares, longe dos 61 necessários. As listas árabes elegeram 19 deputados, e sem elas a oposição não chega à maioria.
O obstáculo é político. Durante a campanha, a maioria dos partidos da oposição excluiu qualquer pacto com listas árabes, e só os Democratas tinham mostrado abertura nesse sentido. Eisenkot prometeu também uma comissão de inquérito aos ataques de 7 de outubro de 2023 e o serviço militar obrigatório universal. Lembrou ainda que, em Israel, é a Knesset que confere confiança ao governo.
Fica por saber como reagirão os parceiros do bloco e se a Lista Conjunta e a Lista Árabe Unida aceitarão os princípios propostos. Dessas respostas depende o futuro governo.
Na tarde de sábado, centenas de israelitas juntaram-se na Praça Habima, em Telavive, com um pedido concreto: que o próximo governo seja formado com o apoio dos partidos árabes. A poucos metros, várias dezenas de contra-manifestantes de direita gritavam "Bibi, Rei de Israel", referência à alcunha do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, e "Ocupem, expulsem e colonizem", além de exigirem novas eleições.
A manifestação coincidiu com uma declaração do líder da oposição, Gadi Eisenkot. Num comunicado, o antigo general, que dirige o partido Yashar!, admitiu governar com o apoio de formações árabes. Segundo disse, qualquer deputado que aceite os seus "quatro princípios fundamentais" será tido como "potencial parceiro". E acrescentou que as portas do futuro governo estarão abertas a qualquer representante eleito que aceite esses princípios e esteja à altura da magnitude do momento.
Os princípios são quatro. O primeiro é reconhecer Israel como um Estado judaico, democrático, liberal e igualitário. O segundo, comprometer-se com os valores da Declaração de Independência. O terceiro, exigir que todos os cidadãos prestem serviço militar, nacional ou civil, incluindo árabes e/ou cristãos. O quarto, reconhecer o Hamas como organização terrorista, cujas capacidades militares e de governação em Gaza devem ser destruídas.
A aritmética explica a abertura. Segundo os resultados definitivos divulgados na sexta-feira de manhã pela Comissão Central Eleitoral, o Likud de Netanyahu venceu as legislativas de terça-feira com 27 assentos, e a sua coligação somou 53. O Yashar! ficou em segundo, com 21. O bloco anti-Netanyahu fecha assim nos 48 lugares, longe dos 61 necessários para governar.
É aqui que entram as listas árabes, que elegeram 19 deputados, o melhor resultado da sua história. Sem elas, o bloco da oposição não chega à maioria. O obstáculo é político: durante a campanha, a maior parte dos partidos desse bloco, entre os quais algumas formações da extrema-direita sionista e com altos cargos militares, excluiu qualquer pacto com listas árabes. Até agora, apenas os Democratas, considerados de esquerda em Israel, tinham mostrado abertura para esse caminho com o objetivo de afastar Netanyahu.
Eisenkot apresentou também um programa para quando o novo parlamento, a Knesset, for constituído. Quer criar uma comissão estatal de inquérito aos ataques do Hamas de 7 de outubro de 2023, pelos quais responsabiliza diretamente o primeiro-ministro, devido às falhas de segurança. E quer instituir o serviço militar obrigatório para todos os cidadãos, para aumentar o número de militares. "Que ninguém vos engane: no Estado de Israel, é a Knesset que dá a confiança ao governo, e não o contrário", escreveu.
Os partidos árabes mencionados na cobertura são a Lista Conjunta e a Lista Árabe Unida. O que está por apurar é como reagirão os parceiros do bloco de Eisenkot, que rejeitaram essa aliança na campanha, e se os próprios partidos árabes aceitarão os quatro princípios. Dessas respostas depende a formação do governo.