Light pode reajustar conta de luz em 18% a partir de março

Consumidores de baixa renda serão mais prejudicados, pois gastam maior parte do orçamento com itens essenciais e terão redução de poder de compra com o aumento tarifário.
O consumidor não paga mais caro só pela luz, mas em tudo que consome
Economista explica o efeito cascata do aumento tarifário na inflação geral da economia.
Mark

Por que a Aneel precisa revisar as tarifas a cada alguns anos?

Mimi

Porque a receita que a distribuidora arrecada com as tarifas precisa cobrir tanto os custos que ela teve no passado quanto os investimentos que ela precisa fazer no futuro. Se não fizer essa revisão, a empresa fica sem dinheiro para manter a rede funcionando.

Mark

E por que dessa vez o aumento é tão grande?

Mimi

Principalmente por causa da crise hídrica. As hidrelétricas geram energia barata, mas quando as represas secam, a energia fica cara. A Aneel criou a bandeira de escassez hídrica para cobrir esses custos extras, mas não arrecadou o suficiente. Agora precisa cobrar dos consumidores o que ficou faltando.

Mark

Quem sofre mais com isso?

Mimi

Os consumidores de baixa renda. Eles gastam a maior parte do orçamento com coisas essenciais — comida, moradia. Quando a luz fica mais cara, eles não conseguem cortar gastos em outro lugar. E o impacto não para na conta de luz: afeta o preço de tudo que consumimos.

Mark

Como assim afeta tudo?

Mimi

Porque a energia é usada em quase tudo que se produz. Uma fábrica de carros paga mais caro pela energia, então aumenta o preço do carro. Um shopping paga mais caro pela energia, repassa para as lojas, que repassam para o cliente. É um efeito cascata.

Mark

E os "gatos de luz" que mencionaram?

Mimi

São furtos de energia. Quando alguém desvia a energia ilegalmente, o custo dessa perda é distribuído entre todos os outros consumidores. Então quem paga a conta honestamente acaba pagando também pela energia roubada.

Mark

A audiência pública pode mudar o resultado?

Mimi

Pode. Consumidores e órgãos de defesa podem pleitear um aumento menor. Mas o passivo existe — a distribuidora precisa cobrir aqueles custos que não foram arrecadados. A questão é como isso será dividido.

  • A Aneel abre audiência pública nesta quarta-feira para debater um reajuste de 17,89% nas tarifas residenciais da Light, o maior ajuste proposto para pessoas físicas e pequenas empresas no Rio de Janeiro em anos recentes.
  • A crise hídrica de 2021 deixou um rombo que as bandeiras tarifárias extras não conseguiram cobrir, criando um passivo que ameaça o capital de giro das distribuidoras e justifica um aumento que supera a inflação do ano passado.
  • Consumidores de baixa renda são os mais vulneráveis ao impacto, pois comprometem parcela maior do orçamento com itens essenciais — e o aumento na conta de luz se traduz em encarecimento de alimentos, produtos industriais e serviços.
  • Economistas alertam que o efeito cascata já está em curso: indústrias automobilística e siderúrgica, shoppings e lojistas tendem a repassar os custos maiores ao consumidor final, alimentando a espiral inflacionária.
  • Se aprovado, o reajuste entra em vigor em 13 de março, e a discussão sobre tarifas da Enel Distribuição Rio deve seguir o mesmo caminho já em fevereiro.

Em um país ainda marcado pelos efeitos de uma crise hídrica severa, a distribuidora Light se prepara para submeter à audiência pública um reajuste de até 17,89% em suas tarifas residenciais — uma correção que vai além da inflação e que carrega o peso de um passivo acumulado durante meses em que as bandeiras tarifárias não foram suficientes para cobrir os custos do setor. O que está em jogo não é apenas a conta de luz de 4,5 milhões de unidades consumidoras no Rio de Janeiro, mas o equilíbrio frágil entre a viabilidade das distribuidoras e o poder de compra de uma população que já sente o aperto da carestia. A energia elétrica, bem essencial e insumo de quase tudo que se produz, carrega consigo a capacidade de espalhar pressão inflacionária por toda a cadeia econômica.

A Light, distribuidora que abastece 4,5 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios fluminenses, pode elevar suas tarifas residenciais em 17,89% a partir de março. A decisão passa por uma audiência pública da Aneel marcada para esta quarta-feira, aberta à participação de qualquer cidadão interessado.

O efeito médio para todos os clientes seria de 15,13%, mas a distribuição é desigual: pessoas físicas e pequenas empresas enfrentariam correção de 17,96%, enquanto grandes indústrias teriam ajuste de 9,52%. O consultor Fernando Umbria explica que a revisão tarifária, feita a cada quatro ou cinco anos, serve para equilibrar receitas e cobrir gastos não contemplados pelas bandeiras tarifárias — e que, durante a crise hídrica, a arrecadação ficou aquém do necessário, deixando um passivo que precisa ser resolvido para evitar que as distribuidoras percam capital de giro.

O economista Gilberto Braga, do Ibmec RJ, aponta que os furtos de energia — os chamados 'gatos de luz' — também pesam no cálculo tarifário, sendo pagos indiretamente pelos demais consumidores. Ele destaca que os mais prejudicados são os de menor renda, que comprometem fatia maior do orçamento com itens essenciais. O peso da energia no IPCA, pouco acima de 5%, garante que o reajuste se espalhe por toda a economia.

André Braz, da FGV, reforça que a geração hidrelétrica barata ficou inviabilizada pelo baixo nível dos reservatórios, e que, mesmo com chuvas no início de janeiro, a recuperação plena em 2022 é incerta. Ainda que bandeiras menos onerosas entrem em vigor a partir de maio, o alívio deve ser compensado pelos reajustes já anunciados por outras concessionárias. Alexandre Chaia, do Insper, conclui que, como a energia é insumo de praticamente toda a cadeia produtiva, o aumento será embutido no preço de produtos e serviços do cotidiano — e que nem trabalhadores nem empresários têm folga econômica suficiente para absorver esse choque sem repassá-lo adiante.

A Light, distribuidora de energia que atende 4,5 milhões de unidades consumidoras em 37 municípios do Rio de Janeiro, pode aumentar suas tarifas residenciais em 17,89% a partir de março. A decisão depende de uma audiência pública que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) realizará nesta quarta-feira, 19 de janeiro, a partir das 10h, transmitida pelo seu canal do Youtube. Qualquer cidadão interessado pode participar e apresentar sua posição sobre o reajuste.

O aumento proposto não é isolado. A Aneel estabelece que o efeito médio para todos os clientes da Light será de 15,13%, mas a distribuição é desigual: pessoas físicas, pequenas e médias empresas enfrentarão correção média de 17,96%, enquanto grandes empresas e indústrias terão adequação de 9,52%. Fernando Umbria, consultor em energia elétrica, explica que a agência revisa as tarifas a cada quatro ou cinco anos para equilibrar as receitas das distribuidoras. Nesse processo, considera gastos anteriores não cobertos pelas bandeiras tarifárias e despesas futuras previstas, como manutenção de equipamentos e expansão da rede.

O percentual proposto ultrapassa a inflação acumulada de 2021 porque a arrecadação com as bandeiras extras — mecanismo criado para cobrir custos extraordinários — não foi suficiente para cobrir os gastos do setor durante a crise hídrica. Segundo Umbria, mesmo com a bandeira de escassez hídrica em vigor, a arrecadação ficou aquém do necessário, deixando um passivo que precisa ser resolvido. Caso contrário, as distribuidoras ficarão sem capital de giro. Durante a audiência, a Light pode solicitar um ajuste ainda maior, assim como consumidores e órgãos de defesa podem pleitear uma correção menor.

Os justificadores do reajuste incluem custos com encargos setoriais, gastos com distribuição e compra de energia, inclusão de componentes financeiros apurados no processo tarifário atual, e retirada de componentes do processo anterior. A audiência também definirá indicadores de continuidade de serviço para o período de 2023 a 2027. Os índices entrarão em vigor em 13 de março.

O economista Gilberto Braga, professor do Ibmec RJ, aponta que as perdas de energia causadas por furtos — os chamados "gatos de luz" — são um fator analisado que contribui para o reajuste. Os demais consumidores acabam pagando a conta de quem pratica o desvio. Para minimizar aumentos futuros, Braga sugere investimento em fiação subterrânea. Ele também destaca que os mais prejudicados são consumidores de baixa renda, que gastam a maior parte do orçamento com itens essenciais como alimentação e moradia. O impacto vai além da conta de luz: o peso relativo da energia no IPCA é pouco mais de 5%, um impacto relevante em toda a economia. O consumidor não pagará mais caro apenas por deixar a luz acesa, mas também em tudo que consumir.

André Braz, economista do Instituto Brasileiro de Economia da FGV, observa que a crise hídrica forçou a tarifa a subir porque a geração barata via hidrelétricas não era possível diante do baixo volume das represas. Embora janeiro tenha começado com bom volume de chuvas, o volume não atingiu o vigor esperado, e há uma seca no sul do país que traz pessimismo para a recuperação plena dos reservatórios em 2022. O novo reajuste pesa sobre a estrutura produtiva porque a energia já vem cara do ano passado. Ainda que haja bandeiras menos onerosas a partir de maio, essa queda será compensada pelo aumento já anunciado por algumas concessionárias. A energia mais cara é uma fonte de espalhamento das pressões inflacionárias: indústrias automobilística e siderúrgica, segmentos estratégicos que espalham inflação ao aumentar preços de produtos, e serviços como shopping centers que transferem custos para lojistas, que repassam aos consumidores finais.

Alexandre Chaia, professor de finanças do Insper, concorda que, como a luz é um bem usado em diversos processos de produção, o aumento será embutido no preço de diversos produtos do dia a dia. Ele também analisa que o aumento é preocupante porque as pessoas não têm capacidade econômica de repor suas rendas — nem trabalhadores, nem empresários. A discussão sobre reajuste para clientes da Enel Distribuição Rio deve começar em fevereiro, com finalização prevista para março.

Mesmo a Aneel tendo estabelecido a bandeira da escassez hídrica, não conseguiu arrecadar o que era preciso. Existe ainda um valor que precisa ser resolvido.
— Fernando Umbria, consultor em energia elétrica
O consumidor não vai pagar mais caro só por deixar a luz acesa em casa, mas também em tudo que consumir
— Gilberto Braga, economista e professor do Ibmec RJ
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