Juiz reconheceu que carta da Marinha cometeu "grave abuso de direito e injúria institucional" ao descrever revoltosos como "abjetos", violando dignidade de figura histórica anistiada. A Revolta da Chibata em 1910 envolveu 2 mil marinheiros negros lutando contra castigos corporais e más condições de trabalho na Marinha brasileira.
Justiça condena Marinha a pagar R$ 300 mil por ofensas a João Cândido
Ofensa intolerável à dignidade de quem o próprio Estado anistiou
Por que uma carta enviada em 2024 sobre um evento de 1910 gera condenação agora?
Porque João Cândido foi anistiado pelo Estado. Uma vez que o Estado reconhece que alguém não cometeu crime, ofendê-lo publicamente — especialmente através de órgão oficial — é ofender a própria decisão estatal de anistia. É como o Estado se contradizer.
Mas a Marinha não estava apenas descrevendo o que aconteceu? Por que não pode chamar a revolta de "deplorável"?
Pode ter opinião. O juiz deixou isso claro. O problema foi a linguagem: "abjetos", "deplorável". Essas palavras não descrevem ações, descrevem pessoas como indignas. E vêm de um órgão oficial, não de um historiador em debate.
A família pediu R$ 4 milhões e recebeu R$ 300 mil. Isso é vitória ou derrota?
É reconhecimento. O juiz negou o salário militar que Adalberto pediu — isso teria custado muito mais ao Estado. Mas concedeu que houve dano moral real. Para uma família que esperou 116 anos por qualquer reparação, é significativo.
O que muda agora na forma como a Marinha fala sobre sua própria história?
Teoricamente, muda tudo. Não pode mais usar linguagem degradante sobre figuras anistiadas. Mas a Marinha pode recorrer. E há oficiais que, segundo historiadores, ainda resistem à figura de João Cândido. Essa sentença não resolve a relutância institucional.
Por que um homem negro liderando uma revolta contra a hierarquia ainda incomoda tanto?
Porque quebra a narrativa. A Marinha prefere contar sua história através de heróis que respeitam a cadeia de comando. Um líder negro que desafiou oficiais brancos e venceu — temporariamente — é incômodo. Ameaça a ordem que a instituição quer manter.
El Pulso
- Marinha condenada a pagar R$ 300 mil aos familiares de João Cândido por danos morais
- Revolta da Chibata em 22 de novembro de 1910 envolveu 2 mil marinheiros negros contra castigos corporais
- Carta da Marinha em 2024 descreveu revoltosos como "abjetos" e revolta como "deplorável página"
- João Cândido morreu em 1969; Adalberto, seu filho, tem 87 anos e é único herdeiro
Juiz reconheceu que carta da Marinha cometeu "grave abuso de direito e injúria institucional" ao descrever revoltosos como "abjetos", violando dignidade de figura histórica anistiada. A Revolta da Chibata em 1910 envolveu 2 mil marinheiros negros lutando contra castigos corporais e más condições de trabalho na Marinha brasileira.
Justiça Federal condenou a Marinha a pagar R$ 300 mil aos familiares de João Cândido, líder da Revolta da Chibata de 1910, por danos morais causados por carta que classificou a revolta como "deplorável".
A Justiça Federal determinou que a Marinha desembolse R$ 300 mil aos familiares de João Cândido em reparação por danos morais. O caso repousa sobre uma carta que a instituição militar enviou à Câmara dos Deputados em 2024, na qual descrevia a Revolta da Chibata — o motim que Cândido liderou em 1910 — como uma "deplorável página" e seus participantes como "abjetos". O problema é que João Cândido morreu em 1969, e a carta chegou mais de meio século depois, reabrindo feridas que o próprio Estado havia selado através de anistia.
Adalberto Cândido, filho único vivo de João e seu único herdeiro, aos 87 anos, levou a questão aos tribunais. Ele inicialmente pediu que seu pai fosse reconhecido como militar reformado, com direito aos salários correspondentes. Também solicitou indenização de R$ 4 milhões pela carta da Marinha, argumentando que as palavras usadas constituíram dano moral contra a memória de seu genitor. O juiz federal Mario Victor de Souza negou o reconhecimento do status militar — entendendo que os tribunais não poderiam criar novas despesas para o Estado — mas acolheu a indenização por danos morais.
Na sentença, Souza foi direto: a Marinha cometeu "grave abuso de direito e injúria institucional". O magistrado reconheceu que as Forças Armadas têm legitimidade para emitir posicionamentos técnicos sobre episódios históricos, mas essa liberdade de expressão não funciona como "salvo-conduto para o vilipêndio de figuras históricas anistiadas pelo próprio Estado". A carta, segundo o juiz, representou "uma intolerável ofensa à dignidade e à memória de João Cândido Felisberto", atuando como fator de reprodução do racismo estrutural que o Estado tem dever constitucional de combater.
Para entender por que essas palavras importam tanto, é preciso voltar a novembro de 1910. A Revolta da Chibata eclodiu em 22 de novembro, envolvendo dois mil marinheiros. Na época, cerca de 90% dos militares de baixa patente eram negros, enquanto todos os oficiais eram brancos. Os marinheiros enfrentavam castigos corporais — chibatadas — e condições de trabalho miseráveis. Haviam tentado negociar melhorias durante dois anos, enviando propostas a políticos entre 1909 e 1910, sem sucesso. Quando a revolta começou, seis militares em postos de comando foram mortos no primeiro dia. João Cândido, junto com André Avelino, Francisco Dias Martins e Manoel Gregório, liderou a tomada dos navios Bahia, Deodoro, Minas Gerais e São Paulo.
Em carta ao presidente Hermes da Fonseca, os marinheiros foram explícitos: "Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira [...] Vinte anos de República ainda não foram o bastante para nos tratarem como cidadãos fardados em defesa da pátria". Pediam não apenas o fim dos castigos corporais, mas salários maiores, expulsão de oficiais abusivos e suporte para colegas com problemas de alcoolismo decorrentes das más condições.
O Governo Federal aceitou acabar com os castigos corporais. Depois traiu os revoltosos. Dois dias após o fim do motim, um decreto permitiu que fossem expulsos por indisciplina. Nos meses seguintes, Cândido e outros líderes foram presos. A Justiça os absolveu em 1912, mas a Marinha os expulsou mesmo assim. João Cândido viveu o resto de sua vida marcado por essa expulsão, morrendo em 1969 sem reabilitação formal.
A decisão de agora não é a primeira vitória judicial. Em maio de 2026, a Justiça Federal já havia condenado a União a pagar R$ 200 mil por dano moral coletivo pelas mesmas manifestações da Marinha. Naquele caso, ajuizado pelo Ministério Público Federal, o dinheiro financiará projetos de preservação da memória de João Cândido e da Revolta da Chibata, não será pago à família. O MPF recorreu para elevar aquela indenização a R$ 5 milhões.
A Marinha não retornou aos pedidos de comentário. Cabe recurso da decisão no Superior Tribunal de Justiça. O que está em jogo agora é se uma instituição do Estado pode continuar descrevendo em termos degradantes uma figura histórica que o próprio Estado anistiou — e se há preço para isso.
Citas Notables
Essa liberdade de expressão institucional não se confunde com um salvo-conduto para o vilipêndio de figuras históricas anistiadas pelo próprio Estado, nem autoriza o emprego de terminologia estigmatizante, degradante e ofensiva por órgãos oficiais— Juiz federal Mario Victor de Souza, na sentença
Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira— Trecho da carta dos revoltosos ao presidente Hermes da Fonseca, 22 de novembro de 1910