Justiça condena Marinha a pagar R$ 300 mil por ofensas a João Cândido

João Cândido e marinheiros negros sofreram castigos corporais, prisão e expulsão da Marinha após a revolta; família enfrentou danos morais institucionais por mais de um século.
Ofensa intolerável à dignidade de quem o próprio Estado anistiou
O juiz explicou por que a carta da Marinha violou direitos, mesmo décadas após a morte de João Cândido.
Mark

Por que uma carta enviada em 2024 sobre um evento de 1910 gera condenação agora?

Mimi

Porque João Cândido foi anistiado pelo Estado. Uma vez que o Estado reconhece que alguém não cometeu crime, ofendê-lo publicamente — especialmente através de órgão oficial — é ofender a própria decisão estatal de anistia. É como o Estado se contradizer.

Mark

Mas a Marinha não estava apenas descrevendo o que aconteceu? Por que não pode chamar a revolta de "deplorável"?

Mimi

Pode ter opinião. O juiz deixou isso claro. O problema foi a linguagem: "abjetos", "deplorável". Essas palavras não descrevem ações, descrevem pessoas como indignas. E vêm de um órgão oficial, não de um historiador em debate.

Mark

A família pediu R$ 4 milhões e recebeu R$ 300 mil. Isso é vitória ou derrota?

Mimi

É reconhecimento. O juiz negou o salário militar que Adalberto pediu — isso teria custado muito mais ao Estado. Mas concedeu que houve dano moral real. Para uma família que esperou 116 anos por qualquer reparação, é significativo.

Mark

O que muda agora na forma como a Marinha fala sobre sua própria história?

Mimi

Teoricamente, muda tudo. Não pode mais usar linguagem degradante sobre figuras anistiadas. Mas a Marinha pode recorrer. E há oficiais que, segundo historiadores, ainda resistem à figura de João Cândido. Essa sentença não resolve a relutância institucional.

Mark

Por que um homem negro liderando uma revolta contra a hierarquia ainda incomoda tanto?

Mimi

Porque quebra a narrativa. A Marinha prefere contar sua história através de heróis que respeitam a cadeia de comando. Um líder negro que desafiou oficiais brancos e venceu — temporariamente — é incômodo. Ameaça a ordem que a instituição quer manter.

  • Marinha condenada a pagar R$ 300 mil aos familiares de João Cândido por danos morais
  • Revolta da Chibata em 22 de novembro de 1910 envolveu 2 mil marinheiros negros contra castigos corporais
  • Carta da Marinha em 2024 descreveu revoltosos como "abjetos" e revolta como "deplorável página"
  • João Cândido morreu em 1969; Adalberto, seu filho, tem 87 anos e é único herdeiro

Juiz reconheceu que carta da Marinha cometeu "grave abuso de direito e injúria institucional" ao descrever revoltosos como "abjetos", violando dignidade de figura histórica anistiada. A Revolta da Chibata em 1910 envolveu 2 mil marinheiros negros lutando contra castigos corporais e más condições de trabalho na Marinha brasileira.

Justiça Federal condenou a Marinha a pagar R$ 300 mil aos familiares de João Cândido, líder da Revolta da Chibata de 1910, por danos morais causados por carta que classificou a revolta como "deplorável".

A Justiça Federal determinou que a Marinha desembolse R$ 300 mil aos familiares de João Cândido em reparação por danos morais. O caso repousa sobre uma carta que a instituição militar enviou à Câmara dos Deputados em 2024, na qual descrevia a Revolta da Chibata — o motim que Cândido liderou em 1910 — como uma "deplorável página" e seus participantes como "abjetos". O problema é que João Cândido morreu em 1969, e a carta chegou mais de meio século depois, reabrindo feridas que o próprio Estado havia selado através de anistia.

Adalberto Cândido, filho único vivo de João e seu único herdeiro, aos 87 anos, levou a questão aos tribunais. Ele inicialmente pediu que seu pai fosse reconhecido como militar reformado, com direito aos salários correspondentes. Também solicitou indenização de R$ 4 milhões pela carta da Marinha, argumentando que as palavras usadas constituíram dano moral contra a memória de seu genitor. O juiz federal Mario Victor de Souza negou o reconhecimento do status militar — entendendo que os tribunais não poderiam criar novas despesas para o Estado — mas acolheu a indenização por danos morais.

Na sentença, Souza foi direto: a Marinha cometeu "grave abuso de direito e injúria institucional". O magistrado reconheceu que as Forças Armadas têm legitimidade para emitir posicionamentos técnicos sobre episódios históricos, mas essa liberdade de expressão não funciona como "salvo-conduto para o vilipêndio de figuras históricas anistiadas pelo próprio Estado". A carta, segundo o juiz, representou "uma intolerável ofensa à dignidade e à memória de João Cândido Felisberto", atuando como fator de reprodução do racismo estrutural que o Estado tem dever constitucional de combater.

Para entender por que essas palavras importam tanto, é preciso voltar a novembro de 1910. A Revolta da Chibata eclodiu em 22 de novembro, envolvendo dois mil marinheiros. Na época, cerca de 90% dos militares de baixa patente eram negros, enquanto todos os oficiais eram brancos. Os marinheiros enfrentavam castigos corporais — chibatadas — e condições de trabalho miseráveis. Haviam tentado negociar melhorias durante dois anos, enviando propostas a políticos entre 1909 e 1910, sem sucesso. Quando a revolta começou, seis militares em postos de comando foram mortos no primeiro dia. João Cândido, junto com André Avelino, Francisco Dias Martins e Manoel Gregório, liderou a tomada dos navios Bahia, Deodoro, Minas Gerais e São Paulo.

Em carta ao presidente Hermes da Fonseca, os marinheiros foram explícitos: "Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira [...] Vinte anos de República ainda não foram o bastante para nos tratarem como cidadãos fardados em defesa da pátria". Pediam não apenas o fim dos castigos corporais, mas salários maiores, expulsão de oficiais abusivos e suporte para colegas com problemas de alcoolismo decorrentes das más condições.

O Governo Federal aceitou acabar com os castigos corporais. Depois traiu os revoltosos. Dois dias após o fim do motim, um decreto permitiu que fossem expulsos por indisciplina. Nos meses seguintes, Cândido e outros líderes foram presos. A Justiça os absolveu em 1912, mas a Marinha os expulsou mesmo assim. João Cândido viveu o resto de sua vida marcado por essa expulsão, morrendo em 1969 sem reabilitação formal.

A decisão de agora não é a primeira vitória judicial. Em maio de 2026, a Justiça Federal já havia condenado a União a pagar R$ 200 mil por dano moral coletivo pelas mesmas manifestações da Marinha. Naquele caso, ajuizado pelo Ministério Público Federal, o dinheiro financiará projetos de preservação da memória de João Cândido e da Revolta da Chibata, não será pago à família. O MPF recorreu para elevar aquela indenização a R$ 5 milhões.

A Marinha não retornou aos pedidos de comentário. Cabe recurso da decisão no Superior Tribunal de Justiça. O que está em jogo agora é se uma instituição do Estado pode continuar descrevendo em termos degradantes uma figura histórica que o próprio Estado anistiou — e se há preço para isso.

Essa liberdade de expressão institucional não se confunde com um salvo-conduto para o vilipêndio de figuras históricas anistiadas pelo próprio Estado, nem autoriza o emprego de terminologia estigmatizante, degradante e ofensiva por órgãos oficiais
— Juiz federal Mario Victor de Souza, na sentença
Nós, marinheiros, cidadãos brasileiros e republicanos, não podemos mais suportar a escravidão na Marinha Brasileira
— Trecho da carta dos revoltosos ao presidente Hermes da Fonseca, 22 de novembro de 1910
Fale Conosco FAQ