Em meio a bombardeios na Ucrânia, bloqueios chineses por covid e sinalizações duras de bancos centrais ao redor do mundo, os juros futuros brasileiros encerraram a terça-feira em alta — não por razões internas, mas pelo peso acumulado de crises externas. O IPCA de setembro, que registrou deflação ligeiramente menor do que o esperado, passou quase despercebido diante de um cenário global que exige cautela. Com os mercados locais fechados na quarta-feira por feriado, operadores preferiram adicionar prêmios de risco à curva antes de enfrentar, na quinta-feira, dados decisivos dos Estados Unidos.
Juros sobem com tensões externas e cautela antes do feriado no Brasil
Não foi o IPCA, mas sim uma série de fatores
Por que o IPCA não moveu o mercado se ele veio diferente do esperado?
O desvio foi muito pequeno — apenas 3 pontos-base. Mas mais importante: o mercado estava tão focado nas crises externas que simplesmente não tinha espaço mental para reagir a um dado doméstico.
Certo, mas precisamos ser claros: o IPCA veio mais fraco, sim. A deflação foi de -0,29% contra -0,32% esperado. Isso é fato. O que é interpretação é dizer que "passou despercebido" — o mercado escolheu não reagir porque tinha outras preocupações.
E quais eram essas preocupações externas?
Três coisas simultâneas: bombardeios russos na Ucrânia, bloqueios na China por causa de covid, e os bancos centrais sinalizando que vão manter juros altos por mais tempo.
Temos confirmação dos bombardeios russos e dos bloqueios chineses. O que não sabemos é exatamente qual desses fatores pesou mais na decisão de cada operador.
Por que o feriado brasileiro importava tanto?
Porque os mercados daqui fechariam na quarta, mas dados importantes sairiam nos EUA. Operadores não queriam ficar expostos durante a noite americana sem poder reagir.
Isso é lógica de mercado, e faz sentido. Mas é importante notar que essa cautela foi uma escolha dos operadores, não uma regra.
E o que vem agora?
Na quinta-feira, o CPI americano sai, e depois tem um leilão de prefixados aqui. Esses dois eventos podem mexer bastante com as taxas.
Verdade. Mas também é importante lembrar que a reação dependerá de como o mercado interpretar o CPI — se vier mais alto, pode reforçar a percepção de que os bancos centrais precisam manter juros altos, o que pressionaria ainda mais as taxas aqui.
O Pulso
- A guerra na Ucrânia escalou com novos bombardeios russos e a covid voltou a fechar cidades na China, criando uma tempestade perfeita de incerteza global que contaminou os mercados brasileiros.
- O DI para janeiro de 2025 saltou de 11,49% para 11,65% e o contrato para 2027 fechou na máxima do dia, sinalizando que os investidores estão exigindo mais compensação pelo risco de carregar posições.
- O presidente do Banco da Inglaterra deu um ultimato a fundos de pensão — 'vocês têm três dias para se resolverem' — reforçando a percepção de que os mercados globais estão sob pressão real e crescente.
- Com o feriado de Nossa Senhora Aparecida fechando os mercados na quarta-feira, operadores correram para encerrar posições e elevar prêmios antes de ficarem expostos a dados americanos sem poder reagir.
- Na quinta-feira, quando o Brasil reabre, o CPI americano e a ata do Fed serão divulgados — e um leilão de prefixados pode amplificar qualquer movimento adverso nas taxas locais.
Em meio a bombardeios na Ucrânia, bloqueios chineses por covid e sinalizações duras de bancos centrais ao redor do mundo, os juros futuros brasileiros encerraram a terça-feira em alta — não por razões internas, mas pelo peso acumulado de crises externas. O IPCA de setembro, que registrou deflação ligeiramente menor do que o esperado, passou quase despercebido diante de um cenário global que exige cautela. Com os mercados locais fechados na quarta-feira por feriado, operadores preferiram adicionar prêmios de risco à curva antes de enfrentar, na quinta-feira, dados decisivos dos Estados Unidos.
Os juros futuros brasileiros subiram nesta terça-feira não por causa de dados domésticos, mas pela confluência de crises externas que pesaram sobre o humor global. O IPCA de setembro registrou deflação de 0,29% — a maior queda para o mês na série histórica —, mas o desvio em relação às estimativas foi mínimo e o mercado praticamente ignorou o número. O que realmente importou foi o que acontecia lá fora.
A escalada da guerra na Ucrânia com novos bombardeios russos, o ressurgimento da covid na China com bloqueios após os casos triplicarem durante um feriado, e o tom cada vez mais duro dos bancos centrais globais formaram o pano de fundo que empurrou as taxas para cima. Patricia Pereira, economista-chefe da MAG Investimentos, foi direta: 'Não foi o IPCA, mas sim uma série de fatores no overnight que elevaram as preocupações com o cenário global.'
O DI para janeiro de 2024 subiu de 12,707% para 12,805%, enquanto o contrato para janeiro de 2025 saltou de 11,49% para 11,65%, atingindo a máxima do dia. O DI para 2027 também fechou no pico da sessão, em 11,51%. Em toda a curva, o movimento foi de adição de prêmios de risco.
A cautela foi amplificada pelo feriado de Nossa Senhora Aparecida, que fecharia os mercados brasileiros na quarta-feira justamente quando os Estados Unidos divulgariam o PPI e a ata do Federal Reserve. Diante da impossibilidade de reagir, operadores preferiram reduzir exposição e elevar prêmios antes de encerrar a sessão. Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra, contribuiu para o clima ao reafirmar que o programa de recompra de títulos britânicos terminaria na sexta-feira, deixando fundos de pensão com poucos dias para se ajustarem.
Quando os mercados brasileiros reabrirem na quinta-feira, o CPI americano estará na mesa — e um leilão de títulos prefixados programado para o mesmo dia pode adicionar mais pressão às taxas. O cenário que se desenha é de espera e ajuste, com o Brasil precisando se enquadrar ao que o mundo decidir enquanto seus mercados estiverem fechados.
Os juros futuros fecharam em alta nesta terça-feira, mas não foi por razões domésticas. O índice de preços ao consumidor amplo (IPCA) veio ligeiramente menor do que esperado — uma deflação de 0,29% em setembro contra uma mediana de estimativas de -0,32% — e ainda assim passou quase despercebido pelos operadores. O que realmente moveu os mercados foi o peso acumulado de crises lá fora: a escalada da guerra na Ucrânia com novos bombardeios russos, o ressurgimento da covid na China com bloqueios impostos após o número de casos triplicar durante um feriado de uma semana, e as sinalizações cada vez mais duras dos bancos centrais globais preocupados com a inflação.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2024 subiu de 12,707% para 12,805%. Já o DI para janeiro de 2025 saltou de 11,49% para 11,65%, atingindo a máxima do dia. O DI para janeiro de 2027 também fechou na máxima, em 11,51%, ante 11,32% no ajuste anterior. Esses movimentos refletiram a adição de prêmios de risco em toda a curva de juros futuros.
Patricia Pereira, economista-chefe da MAG Investimentos, explicou que o IPCA não foi o culpado. "Não foi o IPCA, mas sim uma série de fatores no overnight que elevaram as preocupações com o cenário global", disse ela, apontando para os bombardeios russos recentes e os bloqueios chineses como os principais gatilhos. O desvio do IPCA ante a mediana das estimativas foi mínimo — apenas 3 pontos-base — o que explica por que o mercado não reagiu significativamente ao dado em si.
Houve também uma dose considerável de cautela defensiva antes do feriado de Nossa Senhora Aparecida, que fecharia os mercados brasileiros na quarta-feira. Enquanto isso, a agenda americana traria dados importantes: o índice de preços no atacado (PPI) em setembro e a ata do Federal Reserve. Essa combinação — mercado local fechado enquanto decisões importantes acontecem nos EUA — levou operadores a aumentarem os prêmios de risco e a fecharem posições na reta final da sessão regular, ajudando a empurrar as taxas para as máximas do dia.
O cenário internacional também ganhou um novo capítulo quando Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra, reafirmou que o programa de recompra de títulos indexados (Gilts) anunciado para conter o que ele chamou de risco de "disfunções" nos mercados britânicos duraria apenas até sexta-feira. "Vocês têm três dias para se resolverem. O BoE estará fora do mercado até o fim da semana", disse Bailey a fundos de pensão. Esse comunicado firme reforçou a percepção de turbulência nos mercados globais.
O quadro que se desenha para os próximos dias é de espera por reações. Na quinta-feira, quando os mercados brasileiros reabrirão, o índice de inflação ao consumidor americano (CPI) será divulgado. Dependendo de como os ativos reagirem a esse dado e à mensagem do Federal Reserve, os mercados locais terão de se enquadrar. Há ainda o agravante de um leilão de títulos prefixados marcado para quinta-feira, que pode adicionar pressão adicional às taxas. A deflação de 0,29% em setembro, embora pequena, marca a maior queda para o mês na série histórica. A variação de -1,32% entre julho e setembro é a maior queda trimestral desde janeiro de 1980, quando a série começou.
Citações Notáveis
Não foi o IPCA, mas sim uma série de fatores no overnight que elevaram as preocupações com o cenário global— Patricia Pereira, economista-chefe da MAG Investimentos
Vocês têm três dias para se resolverem. O BoE estará fora do mercado até o fim da semana— Andrew Bailey, presidente do Banco da Inglaterra