Com juros na estratosfera, o produto chega mais caro na mesa do consumidor
Jorge Viana rejeita exportação como culpada pela inflação alimentar, apontando taxa de juros de 12% como fator determinante no encarecimento da produção agrícola. Viana critica o Banco Central por manter a maior taxa de juros do mundo apesar de inflação controlada, pleno emprego e crescimento econômico acima do esperado.
- Jorge Viana, presidente da ApexBrasil desde 2023, atribui alta de preços de alimentos aos juros de 12% ao ano
- Viana critica o Banco Central por manter a maior taxa de juros do mundo apesar de inflação em 4,5%, pleno emprego e crescimento econômico 3 vezes acima das previsões
- Propõe ampliar seguro do Plano Safra de 1 bilhão para 3 bilhões de reais e usar Conab para armazenar alimentos estratégicos
Presidente da ApexBrasil atribui alta dos preços de alimentos aos juros elevados no Brasil e propõe políticas de crédito diferenciado e armazenamento estratégico para reduzir custos.
Jorge Viana, presidente da ApexBrasil desde 2023, sentou-se diante das câmeras do Roda Viva na segunda-feira para explicar por que os brasileiros pagam mais caro pela comida. Sua resposta foi direta: culpe os juros. Não a exportação, não a especulação, não a seca — os juros em patamares estratosféricos, aqueles que tornam o crédito agrícola proibitivo e empurram para cima o custo de cada etapa da produção.
Viana desenhou o problema com clareza. Um produtor de milho que precisa comprar equipamento ou insumo enfrenta uma taxa de 12% ao ano. Esse custo extra não desaparece. Ele viaja pela cadeia: fica mais caro produzir, fica mais caro o produto final, e chega mais caro à mesa do consumidor. A lógica é simples, mas a consequência é brutal para quem ganha pouco. "Se tiver políticas a mais para alguns produtos, vai dar uma sensação para quem precisa, os mais pobres, de terem um custo mais baixo na carne, um custo mais baixo no café, no almoço e na janta", disse.
Mas Viana não se limitou a diagnosticar. Ele criticou a política monetária do Banco Central — sem citar o nome da instituição ou de seu presidente, Gabriel Galípolo — por manter a maior taxa de juros do mundo em um cenário que, segundo ele, não justifica tal rigidez. O país tem inflação controlada em 4,5%, pleno emprego, mercado de trabalho aquecido, programas de inclusão social, crescimento industrial e expansão econômica três vezes acima das previsões do mercado. "Sinceramente, eu não consigo entender", disse, a frustração evidente.
Para conter a escalada de preços sem recorrer ao controle direto — que ele rejeita — Viana propôs um conjunto de medidas focadas em reduzir o custo de produção e estabilizar a oferta. Primeiro, ampliar o seguro do Plano Safra: hoje são 1 bilhão de reais, mas ele defende que sejam 3 bilhões, dada a crise climática que assola o país. Segundo, criar linhas de crédito diferenciadas para produtos essenciais como café, arroz, feijão, mandioca e farinha — setores que alimentam a população mais vulnerável.
A terceira via passa pela Conab, a Companhia Nacional de Abastecimento. Viana sugeriu que o governo use a estatal para armazenar alimentos estratégicos e estabilizar preços ao longo do ano. Não é controle de preços, insistiu — é gestão inteligente da oferta. "O Brasil é um gigante muito grande", disse, sugerindo que há espaço para ação governamental sem cair na armadilha do tabelamento.
Viana, aos 65 anos, vem de uma trajetória política longa. Foi prefeito de Rio Branco entre 1993 e 1996, governador do Acre de 1999 a 2006, e senador de 2011 a 2018, antes de ser indicado por Lula para presidir a ApexBrasil. A agência, criada em 2003 e vinculada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, existe para promover o Brasil no mercado internacional e atrair investimento estrangeiro direto. Sua gestão já enfrentou controvérsias — uma delas envolvendo alegações de desconhecimento da língua inglesa.
O que Viana apresentou na entrevista foi menos uma solução definitiva e mais um chamado para repensar as prioridades. Se os juros seguirem nos patamares atuais, disse, os preços dos alimentos dificilmente cairão. E se os preços não caírem, a pressão sobre os mais pobres continuará crescendo. O governo, segundo ele, ainda tem tempo para agir este ano — mas o relógio está marcando.
Notable Quotes
Se tiver políticas a mais para alguns produtos, vai dar uma sensação para quem precisa, os mais pobres, de terem um custo mais baixo na carne, um custo mais baixo no café, no almoço e na janta— Jorge Viana, presidente da ApexBrasil
Qual é a explicação para um país que tem inflação controlada, pleno emprego, crescimento econômico 3 vezes maior do que o previsto, e manter a maior taxa de juros do mundo?— Jorge Viana
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que Viana insiste que não é a exportação que encarece a comida, mas sim os juros?
Porque a exportação é apenas uma parte da cadeia. O que realmente importa é quanto custa produzir. Se você paga 12% de juros para comprar uma máquina ou adubo, esse custo fica embutido no preço final. A exportação só acontece depois que o produto já está caro.
Mas o Banco Central não está apenas controlando inflação?
Viana questiona exatamente isso. Ele aponta que a inflação está em 4,5%, o emprego está cheio, a economia cresce acima do esperado. Então por que manter a maior taxa de juros do mundo? A resposta não é óbvia para ele.
E se o governo simplesmente tabelar os preços dos alimentos?
Viana rejeita isso. Ele sabe que controle de preços é armadilha — desestimula produção, cria fila, piora tudo. Ele quer outra coisa: reduzir o custo de produzir, não o preço final.
Como a Conab entra nessa história?
É sobre estabilizar a oferta ao longo do ano. Se o governo armazena grãos estrategicamente, consegue evitar picos de preço em épocas de escassez. Não é controle, é gestão inteligente.
Viana está pedindo para o Banco Central baixar os juros?
Não exatamente. Ele está questionando por que eles estão tão altos. Está dizendo que o cenário econômico não justifica. Mas a decisão não é dele — é do BC.
Quem mais sofre com isso?
Os pobres. Viana foi bem claro: quando a carne, o café, o feijão ficam mais caros, quem sente no bolso é quem ganha pouco. Por isso ele fala em políticas específicas para esses produtos essenciais.