No Brasil, onde a violência doméstica segue ciclos previsíveis que a sociedade insiste em minimizar, a juíza Rejane Suxberger ergueu a voz para nomear o que muitos preferem não ver: o feminicídio não é um ato isolado, mas o desfecho de uma cultura que normaliza a agressão contra mulheres. Motivada pela morte da juíza Viviane Vieira — mulher independente, com poder e emprego estável, assassinada pelo ex-marido —, Suxberger alertou que a Lei Maria da Penha existe, mas permanece frágil enquanto a mentalidade coletiva não mudar. O verdadeiro desafio não é legislativo, mas civilizatório.
Juíza alerta: violência de gênero é minimizada e banalizada na sociedade
A violência de gênero é minimizada e banalizada na sociedade
Por que a juíza insiste que o feminicídio não surge do nada? Não há casos em que a violência escala rapidamente?
Claro que há escalações rápidas. Mas o ponto dela é que mesmo nesses casos, há sinais anteriores que a sociedade ignora ou minimiza. Uma agressão verbal, um empurrão, ciúmes excessivo. Coisas que as pessoas veem e pensam "ah, é normal de casal".
E a questão da mulher independente ser mais vulnerável? Isso parece contraditório.
Não é. A independência ameaça o controle. Um homem que precisa manter uma mulher subordinada fica mais desesperado, mais violento, quando ela começa a escapar. A autonomia dela é uma ameaça direta ao poder dele.
A juíza fala muito em educação. Mas educação leva tempo. O que fazer agora com as mulheres em risco?
Por isso ela enfatiza a aplicação efetiva da Lei Maria da Penha. Não é para o futuro. É para hoje. Proteção real, desde a delegacia até o tribunal. Enquanto isso, a educação trabalha para que daqui a uma geração isso seja menos necessário.
E a violência vicária? Como uma mãe sai desse ciclo se as crianças estão envolvidas?
Essa é a armadilha perfeita. A mãe quer proteger os filhos, então cede. Mas cedendo, ela mantém as crianças expostas à violência. Precisa de apoio real, de segurança garantida, para conseguir sair sem perder os filhos.
O caso de Viviane Vieira muda algo na forma como a lei é aplicada?
Deveria. Quando uma juíza é morta por um ex-parceiro, fica impossível fingir que isso é um problema privado ou que a lei está funcionando. Mas mudar mentalidades é lento. A lei já existe. O que falta é a sociedade levar a sério.
O Pulso
- A morte da juíza Viviane Vieira expôs uma verdade incômoda: nem o poder, nem a independência financeira protegem uma mulher quando a cultura ainda pune a autonomia feminina.
- A Lei Maria da Penha falha não por falta de texto, mas por falta de aplicação séria — da delegacia ao tribunal, mulheres continuam não sendo levadas a sério.
- Crianças que testemunham agressões contra suas mães tornam-se vítimas silenciosas, e o agressor usa exatamente esse vínculo para manter o controle e perpetuar o ciclo.
- Mulheres cedem a concessões — encontros no Natal, visitas nos fins de semana — na esperança de paz, sem perceber que cada gesto se torna uma ferramenta nas mãos do agressor.
- A saída apontada é estrutural: não basta saber que bater é crime se a cultura continua dizendo que violência doméstica é assunto privado, coisa de casal.
No Brasil, onde a violência doméstica segue ciclos previsíveis que a sociedade insiste em minimizar, a juíza Rejane Suxberger ergueu a voz para nomear o que muitos preferem não ver: o feminicídio não é um ato isolado, mas o desfecho de uma cultura que normaliza a agressão contra mulheres. Motivada pela morte da juíza Viviane Vieira — mulher independente, com poder e emprego estável, assassinada pelo ex-marido —, Suxberger alertou que a Lei Maria da Penha existe, mas permanece frágil enquanto a mentalidade coletiva não mudar. O verdadeiro desafio não é legislativo, mas civilizatório.
Na quarta-feira, a juíza Rejane Suxberger, titular da Vara de Violência Doméstica de São Sebastião, falou ao programa CB.Poder com uma clareza que não deixou espaço para conforto: a banalização da violência contra mulheres no Brasil não é um detalhe cultural menor — é o terreno em que o feminicídio cresce.
Suxberger explicou que a violência doméstica segue um padrão reconhecível, com ciclos de tensão, agressão e, no limite, morte. O assassinato não surge do nada; é o ponto final de uma trajetória que a sociedade permite e normaliza. O caso da juíza Viviane Vieira, morta pelo ex-marido, tornou essa realidade dolorosamente concreta. Para Suxberger, o fato de Viviane ter emprego, poder e independência não a protegeu — ao contrário. Quanto mais uma mulher se emancipa, maior o risco que corre, porque a violência de gênero é, antes de tudo, uma tentativa de punir a autonomia e restaurar a hierarquia.
A juíza também destacou o dano invisível sofrido pelas crianças que presenciam agressões: elas se tornam vítimas secundárias, carregando um trauma que frequentemente é ignorado. E são exatamente essas crianças que o agressor usa como moeda de troca — levando mães a abrir mão de medidas protetivas na esperança de preservar alguma paz familiar.
Para Suxberger, a solução exige mais do que leis. Exige que a Lei Maria da Penha seja aplicada com seriedade em cada etapa — da delegacia ao Judiciário — e que a educação sobre gênero, poder e respeito transforme a mentalidade coletiva. Saber que algo é crime não basta enquanto a cultura continuar dizendo que é normal. Enquanto isso não mudar, a lei permanecerá apenas um documento, e mulheres continuarão morrendo.
Rejane Suxberger, juíza titular da Vara de Violência Doméstica de São Sebastião, sentou-se diante das câmeras do programa CB.Poder na quarta-feira para falar sobre algo que a ocupa todos os dias em seu trabalho: a forma como a sociedade brasileira trata a violência contra mulheres. Sua mensagem foi direta e sem concessões. A banalização dessa violência não é um detalhe cultural menor. É o solo em que cresce o feminicídio.
A juíza explicou que a violência doméstica segue um padrão reconhecível. Começa com ciclos de tensão, passa pela agressão em si, e pode terminar em morte. O assassinato não aparece do nada. Ele é o ponto final de uma trajetória que a sociedade permite, minimiza, normaliza. Quando uma mulher é morta por um parceiro ou ex-parceiro, não é um acidente ou um ato isolado de loucura. É o resultado de um sistema que, culturalmente, ainda vê a violência contra mulheres como algo menor, quase inevitável.
Para Suxberger, a Lei Maria da Penha existe, mas sua aplicação é frágil. Não basta que a lei esteja nos livros. É preciso que funcione de verdade, desde o momento em que uma mulher entra em uma delegacia até as instâncias mais altas do Judiciário. Ela precisa ser acolhida, protegida, levada a sério em cada etapa. Sem isso, a lei vira apenas papel.
O caso da juíza Viviane Vieira, morta pelo ex-marido, trouxe essa questão para perto demais. Viviane tinha emprego estável, tinha poder, tinha independência. E ainda assim foi morta. Isso não é coincidência. Suxberger observa que quanto mais uma mulher se emancipa, menos subordinada ela fica, maior é o risco que corre. A violência de gênero não é apenas sobre controle físico. É sobre manter a hierarquia, sobre punir a autonomia.
Há outra camada de dano que Suxberger destacou: a violência vicária. Quando crianças presenciam agressões contra suas mães, elas se tornam vítimas secundárias. O trauma é delas também. E muitas vezes, as mães abrem mão de medidas protetivas por causa dessas crianças. Cedem aos pedidos do agressor para encontros no Natal, nos fins de semana, na esperança de que a paz volte. Mas o que elas não veem é que o agressor usa exatamente isso como ferramenta. Cada concessão é uma oportunidade para continuar controlando, agredindo, perpetuando o ciclo.
A saída, segundo a juíza, passa por educação. Não apenas informação, mas mudança estrutural. Uma criança de onze anos hoje sabe que existe uma lei, sabe que não se pode bater em uma mulher. Mas saber que algo é crime não é suficiente se a cultura continua dizendo que é normal, que é privado, que é coisa de casal. A conscientização precisa ser profunda, precisa mudar a forma como a sociedade inteira pensa sobre gênero, poder e respeito.
O que Suxberger deixou claro é que o problema não é a falta de leis. É a falta de vontade de aplicá-las com seriedade. É a persistência de uma mentalidade que vê a violência contra mulheres como algo menor, algo que as mulheres devem tolerar, algo que faz parte da vida. Enquanto isso for verdade, mulheres continuarão morrendo, e a lei continuará sendo apenas um documento.
Citações Notáveis
O feminicídio não surge do nada. Ele surge em uma sociedade violenta, que banaliza as questões de gênero e minimiza a violência contra a mulher— Juíza Rejane Suxberger
Quanto mais independente a mulher fica, menos subordinada ela está e maior é o risco de ela sofrer essa violência— Juíza Rejane Suxberger