É um fio de esperança que a gente tem
Anvisa aprovou uso compassivo de polilaminina para jovem com lesão medular severa entre vértebras T5 e T6 após acidente com galho de árvore. Substância é proteína sintética brasileira em fase de estudos, com potencial para estimular regeneração de nervos e tecidos lesionados na medula espinhal.
- Ana Beatriz Stubinski, 22 anos, atingida por galho em Curitiba no dia 13 de junho
- Lesões severas no pulmão e medula espinhal entre vértebras T5 e T6
- Anvisa aprovou uso compassivo de polilaminina na terça-feira, 16 de junho
- Polilaminina é proteína sintética brasileira em fase de estudos com potencial regenerativo
Ana Beatriz Stubinski, 22 anos, perdeu movimentos após ser atingida por galho em Curitiba e receberá aplicação de polilaminina, proteína sintética desenvolvida no Brasil com potencial regenerativo para lesões medulares.
Ana Beatriz Stubinski estava em uma feira de inverno na Praça Osório, em Curitiba, quando um galho se desprendeu de uma árvore e a atingiu. Era sábado, 13 de junho. A jovem de 22 anos, que havia viajado de Valinhos, no interior de São Paulo, para visitar a família, caiu no chão com o tronco sobre o pescoço. Sua irmã, Andressa Tozato Gonçalves, viu tudo. "Quando eu vi, ela estava no chão, caída, o tronco estava em cima do pescoço dela e tinha um pedaço do tronco em cima do carrinho do meu filho", relatou depois. Não havia chuva nem vento naquele momento.
Os médicos do Hospital do Trabalhador descobriram o alcance do dano: lesões severas no pulmão e na medula espinhal, especificamente entre as vértebras T5 e T6. Ana perdeu a sensibilidade e o movimento das pernas. Durante o fim de semana, ela passou por duas cirurgias de alta complexidade — uma para tratar o pneumotórax causado pelo trauma no tórax, outra para estabilizar a coluna vertebral. Sua mãe, Vanessa Stubinski, descreveu o momento em que percebeu a gravidade: "[Do momento da queda em diante], ela não sentia mais as pernas. Ela reclamava de muita dor nas costas. A gente tentava ver se as pernas dela estavam funcionando, mas ela não estava sentindo".
Mas havia uma possibilidade. Os médicos do Hospital do Trabalhador identificaram que Ana poderia se enquadrar nos critérios para receber a polilaminina, uma proteína sintética desenvolvida no Brasil e ainda em fase de estudos, com potencial para estimular a regeneração de nervos e tecidos lesionados na medula espinhal. A família começou a esperar. Andressa falou sobre aquela espera: "É um fio de esperança que a gente tem. A gente não vai parar de orar. A gente acredita muito em Deus e em um milagre para a vida dela, mas essa aplicação é um fio de esperança que a gente tem".
O caminho até a aprovação envolveu burocracia e esperança em doses iguais. O pedido de uso compassivo não vai direto para a Anvisa — vai para o laboratório patrocinador, neste caso o Cristália. O laboratório precisa concordar em fazer a doação do medicamento experimental. Se concordar, submete um processo para aprovação final da Anvisa. O processo exige que não existam outras opções terapêuticas para o paciente, parecer dos médicos responsáveis, histórico clínico completo e outras informações de cada caso. Na segunda-feira, 15 de junho, o laboratório informou que Ana atendia aos critérios. O pedido foi submetido à Anvisa, que autorizou a liberação da substância para este caso específico.
Na terça-feira de manhã, a notícia chegou. A Anvisa havia liberado a aplicação. Os pais de Ana comunicaram a decisão em entrevista ao vivo à RPC, a emissora local. O pai, emocionado, disse: "A Ana vai ter mais uma chance na vida dela. [...] Vamos continuar orando pela Ana, porque agora é um milagre de Deus para ela voltar a andar, se reabilitar e voltar a ter a vida dela. Estou com o coração saindo pela boca". O Governo do Paraná disponibilizou uma aeronave para transportar o medicamento e os especialistas envolvidos no programa de uso compassivo, com deslocamentos previstos ao Rio de Janeiro e a Foz do Iguaçu.
Antes de receber a injeção, Ana gravou um vídeo agradecendo. "Oi, pessoal, aqui é Ana Beatriz. Passando para agradecer por todas as mensagens, todas as orações e por toda a torcida que vocês estão tendo para mim. Beijos. Obrigada", disse, com a voz firme. A aplicação da polilaminina estava prevista para ainda naquela terça-feira. Não era cura garantida — era uma substância experimental, um fio de esperança material em um momento em que a esperança era tudo o que restava. A jovem que havia perdido o movimento das pernas em uma praça pública agora tinha uma chance que poucos teriam: participar de um programa de uso compassivo de uma terapia desenvolvida no Brasil, com potencial para restaurar o que havia sido perdido.
Notable Quotes
A Ana vai ter mais uma chance na vida dela. Vamos continuar orando pela Ana, porque agora é um milagre de Deus para ela voltar a andar, se reabilitar e voltar a ter a vida dela.— Pai de Ana Beatriz, em entrevista à RPC
É um fio de esperança que a gente tem. A gente não vai parar de orar. A gente acredita muito em Deus e em um milagre para a vida dela, mas essa aplicação é um fio de esperança que a gente tem.— Andressa Tozato Gonçalves, irmã de Ana
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que esse caso específico recebeu aprovação tão rápida? Não é incomum?
A rapidez veio porque os médicos do Hospital do Trabalhador conseguiram documentar tudo muito bem — o histórico clínico, as lesões específicas, a ausência de outras opções. Quando o laboratório recebeu a documentação, viram que ela se encaixava perfeitamente nos critérios. Mas também havia pressão humana, sabe? A família estava orando, a comunidade estava acompanhando. A Anvisa viu um caso claro.
A polilaminina é realmente uma chance de recuperação, ou é mais esperança psicológica?
É experimental. Ninguém sabe ao certo. O que sabemos é que a proteína tem potencial para estimular regeneração de nervos e tecidos na medula espinhal. Mas potencial não é garantia. Para Ana, porém, sem outras opções terapêuticas, é literalmente a única chance que existe.
Como é para a família viver nessa incerteza?
Eles estão orando, esperando, tentando manter a esperança sem se iludir completamente. A irmã chamou de "fio de esperança" — não é esperança cega, é um fio. Eles sabem que pode não funcionar, mas também sabem que sem tentar, nada muda.
E se não funcionar? O que vem depois?
Reabilitação, terapia, adaptação à vida com paraplegia. Mas ninguém quer pensar nisso agora. Agora é o momento de tentar. O momento de aplicar a substância e ver o que acontece.
Por que um galho caiu em uma praça pública sem avisos?
A prefeitura disse que fez inspeção em abril, dentro dos protocolos regulares. Mas um galho caiu mesmo assim. Às vezes as coisas simplesmente acontecem, e ninguém consegue prever ou prevenir tudo.