Dezenove mulheres morrem todos os dias de um câncer quase totalmente evitável
HPV causa 99% dos cânceres cervicais; 19 mulheres morrem diariamente no Brasil por essa doença, terceira mais frequente entre mulheres. 58% não se vacinam por acreditar que vacina não é para sua idade; 41% citam custo. Vacina é recomendada até 45 anos e funciona há 15+ anos.
- HPV causa 99% dos cânceres cervicais; 19 mulheres morrem diariamente no Brasil
- 42% das mulheres entre 18 e 45 anos não sabem se foram vacinadas contra HPV
- 58% não se vacinam por acreditar que não é para sua idade; 41% citam custo
- Vacina é recomendada até 45 anos e tem 15+ anos de uso consolidado globalmente
- Câncer cervical é terceiro mais frequente entre mulheres e quarta causa de morte por câncer
Campanha Março Lilás alerta que 42% das mulheres desconhecem status vacinal contra HPV. Especialistas reforçam que vacina é segura, eficaz até 45 anos e essencial junto ao Papanicolau para prevenir câncer cervical.
Dezenove mulheres morrem todos os dias no Brasil por um câncer que é quase totalmente evitável. O câncer do colo do útero permanece a terceira doença maligna mais comum entre mulheres brasileiras e a quarta causa de morte por câncer nesse grupo — números que especialistas descrevem como inaceitáveis diante das ferramentas de prevenção disponíveis. O obstáculo não é a falta de tecnologia. É a desinformação.
Durante a campanha Março Lilás, dedicada à conscientização sobre a doença, médicos e pesquisadores apontam um cenário preocupante: quase metade das mulheres entre 18 e 45 anos não sabe se recebeu a vacina contra o HPV ou nunca a tomou. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva, realizada em parceria com o EVA Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos, revelou que 58% das mulheres que não se vacinaram acreditam que o imunizante não é indicado para sua faixa etária. Outros 41% citam o custo como razão para não se proteger. Mais alarmante ainda: 82% das entrevistadas desconheciam informações básicas sobre a doença e sua prevenção.
O papilomavírus humano, conhecido como HPV, está por trás de praticamente todos os casos de câncer cervical — cerca de 99%. Dois subtipos específicos, o 16 e o 18, respondem por aproximadamente 70% das manifestações da doença. O Ministério da Saúde reconhece a gravidade: o câncer do colo do útero é o que mais mata mulheres até os 35 anos e o segundo que mais mata até os 60 anos. Apesar disso, a proteção permanece incompleta e desigual.
A vacinação contra o HPV é recomendada para mulheres e homens entre 9 e 45 anos, mas o Sistema Único de Saúde concentra seus esforços na faixa de 9 a 14 anos, período anterior ao início da vida sexual. Segundo a infectologista Luísa Chebabo, do laboratório Sérgio Franco, mulheres que não se vacinaram na adolescência podem e devem buscar a imunização na rede privada, conforme orientação médica. A vacina possui mais de 15 anos de uso consolidado globalmente. Países com alta cobertura vacinal registraram quedas drásticas em infecções e lesões precursoras de câncer cervical — evidência que a proteção funciona.
Mas a vacina não é suficiente sozinha. A ginecologista Martha Calvente, da clínica CDPI, reforça que o imunizante não substitui o exame Papanicolau, fundamental para a detecção precoce de alterações celulares. Mesmo quem já foi vacinado deve continuar realizando exames preventivos regularmente. Quem já teve HPV também se beneficia da vacinação, pois ela protege contra outros subtipos aos quais a pessoa ainda não foi exposta. O câncer cervical tem progressão lenta e pode ser tratado antes de se tornar um tumor invasivo, desde que identificado no início.
A prevenção também passa pelos homens. Segundo o infectologista Guenael Freire, do São Marcos Saúde e Medicina Diagnóstica, o HPV pode causar verrugas genitais e câncer de pênis, ânus e boca em homens. Mais importante: eles podem transmitir o vírus mesmo sem apresentar sintomas. A vacinação de meninos e homens é uma estratégia de saúde pública que reduz a circulação viral na população e fortalece a proteção coletiva, beneficiando diretamente as mulheres. A Organização Mundial da Saúde estima que um terço dos homens é portador do vírus.
O desafio agora é transformar conhecimento em ação. Especialistas alertam que a desinformação continua sendo o maior obstáculo à prevenção. Campanhas precisam alcançar mulheres além da adolescência, esclarecer que a vacina é segura e eficaz mesmo após os 14 anos, e reforçar que vacinação e exames preventivos funcionam juntos. Enquanto isso, 19 mulheres morrem diariamente de uma doença que poderia ser evitada.
Notable Quotes
Mulheres que não se vacinaram na adolescência podem e devem buscar a imunização na rede privada, conforme orientação médica— Luísa Chebabo, infectologista
A vacina não substitui os exames preventivos. Quem já se imunizou, é importante dizer que isso não elimina a necessidade de fazer o exame papanicolau— Martha Calvente, ginecologista
Ao ampliar a cobertura vacinal, reduzimos a circulação do vírus na população e fortalecemos a proteção coletiva, o que beneficia diretamente as mulheres— Guenael Freire, infectologista
The Hearth Conversation Another angle on the story
Por que a desinformação é tão central nesse problema? Não é apenas uma questão de acesso?
É ambos, mas a desinformação amplifica o acesso. Mulheres acreditam que a vacina não é para elas porque ninguém explicou que funciona até os 45 anos. Outras acham que se já tiveram HPV, a vacina não serve. Essas crenças falsas criam barreiras que a tecnologia não consegue ultrapassar.
E por que os homens foram deixados de fora por tanto tempo?
Porque historicamente o câncer cervical foi visto como um problema exclusivamente feminino. Mas o HPV não discrimina. Homens transmitem o vírus sem saber que têm, sem sintomas. Vaciná-los é proteger as mulheres de forma coletiva — é saúde pública, não apenas medicina individual.
O Papanicolau ainda é necessário se a pessoa se vacinou?
Absolutamente. A vacina protege contra os tipos de maior risco, mas não contra todos. E se alguém já foi exposta ao vírus antes de se vacinar, o exame continua sendo essencial. A vacina não é um escudo total — é um escudo muito bom que funciona melhor quando acompanhado de vigilância.
Qual é o maior medo que as mulheres têm sobre a vacina?
Segurança. Mas 15 anos de uso global mostraram que é segura. O que falta é comunicação clara sobre isso. Quando países aumentaram a cobertura vacinal, viram quedas drásticas em infecções. Os números falam, mas precisam chegar às pessoas.
Se 19 mulheres morrem por dia, por que isso não é uma emergência nacional?
Porque é invisível. Não é um acidente, não é um desastre. É morte lenta, previsível, evitável — e justamente por isso, fácil de ignorar. Mas é uma emergência. Só que silenciosa.