Jesse James: «Tenho um sentido de missão muito grande com os Açores»

Vivo no Atlântico porque estou entre Ponta Delgada e Lisboa
Jesse James explica como a circulação entre dois lugares lhe permite gerar movimentos e ter dimensão crítica sobre o seu território.

Entre o Canadá onde nasceu e os Açores de onde veio a sua família, Jesse James construiu uma vida no Atlântico — esse espaço de trânsito que, para ele, não é ausência de lugar, mas lugar em si mesmo. Regressou às ilhas em plena crise, não por nostalgia, mas por convicção de que a cultura podia ressignificar a periferia. O que começou como conversa entre dois amigos tornou-se, quinze anos depois, uma organização profissional, uma Bienal de Artes com alcance internacional e uma presença estruturante na vida cultural de São Miguel.

  • Uma ilha marcada pela emigração e pela crise económica da troika tornou-se o palco improvável de um projeto cultural que apostou na arte como forma de reconectar a periferia ao mundo.
  • Sem recursos garantidos e contra a incerteza de um setor frágil, James e Diana Sousa fundaram a Anda&Fala em 2011, transformando vontade coletiva em estrutura legal e institucional.
  • A mudança legislativa de 2017, que permitiu aos agentes culturais dos Açores concorrer a fundos nacionais, foi o ponto de viragem que profissionalizou o setor e validou anos de resistência.
  • A Anda&Fala emprega hoje doze pessoas a tempo inteiro e o espaço vaga tornou-se referência cultural em São Miguel, provando que a ambição coletiva pode vencer o isolamento insular.
  • Em 2026, com Ponta Delgada como Capital Portuguesa da Cultura, o ciclo Moving Ecologies convida artistas locais e internacionais a repensar a ecologia da ilha — e James posiciona-se como arquiteto dessa conversa global.

Jesse James cresceu entre dois mundos: nasceu em Vancouver, filho de açorianos que regressaram à ilha quando ele era criança, e passou a vida a circular entre continentes. Formado em Turismo e depois especializado em Gestão Cultural, viveu em Lisboa antes de decidir, por volta de 2010, que era hora de fazer algo pela terra de origem. Estava em plena crise da troika. Havia pouco dinheiro e pouca esperança, mas havia vontade.

Juntamente com a amiga Diana Sousa, fundou a Anda&Fala em 2011 e lançou o Walk&Talk como festival anual de artes. Quinze anos depois, o festival transformou-se numa Bienal de Artes com dimensão internacional, e a organização cresceu para doze trabalhadores a tempo inteiro, financiada pela República, pelo governo regional e pela câmara municipal. O espaço vaga tornou-se um ponto de referência cultural em São Miguel.

O que manteve James em movimento não foi ambição pessoal, mas aquilo que ele próprio chama de ambição coletiva — a crença partilhada de que a cultura podia transformar a insularidade de algo cinzento e isolado em algo vivo e conectado. A mudança legislativa de 2017, que abriu os fundos nacionais aos agentes culturais dos Açores e da Madeira, foi, segundo ele, o momento que mudou completamente o jogo.

Hoje, James diz que vive no Atlântico — entre Ponta Delgada e Lisboa — porque esse trânsito lhe permite gerar circulação, trazer coisas para os Açores e levar artistas açorianos para outros contextos. Em 2026, com Ponta Delgada como Capital Portuguesa da Cultura, a vaga integrará o ciclo Moving Ecologies, onde artistas locais e internacionais serão convidados a repensar a ecologia insular. James sabe que haverá falhas no caminho. Mas diz que lida bem com isso — porque a falha, para ele, é um lugar muito rico.

Jesse James cresceu entre dois mundos. Seus avós emigraram para o Canadá nos anos 1960, sua mãe nasceu em Vancouver, e ele próprio veio ao mundo lá, filho de pais açorianos que decidiram regressar à ilha quando ele era criança. Hoje, aos 40 e poucos anos, ele vive entre Ponta Delgada e Lisboa, mas diz que na verdade vive no Atlântico — naquele espaço de circulação entre continentes que moldou sua vida inteira.

Formou-se em Turismo e Lazer na Guarda, depois especializou-se em Comunicação e Gestão Cultural. Depois da faculdade, mudou-se para Lisboa, onde pela primeira vez se sentiu seguro e encontrou pessoas com quem construir comunidade. Mas os Açores nunca saíram de sua cabeça. Vinha sempre que podia, no verão ou no Natal, até que em 2010 ou 2011, em conversa com a amiga Diana Sousa, decidiu que era hora de fazer algo pela terra. Estavam em plena crise da troika. Não havia muito dinheiro, não havia muita esperança. Mas havia vontade.

A ideia era criar um festival de artes. Para isso, precisavam de uma estrutura legal, de um corpo institucional. Assim nasceu a Anda&Fala, em 2011, cofundada por James e Sousa. O Walk&Talk começou como festival anual. Quinze anos depois, transformou-se numa Bienal de Artes com alcance internacional. A Anda&Fala cresceu de um projeto de dois amigos para uma organização que emprega doze pessoas em tempo integral, com contratos de trabalho, financiada pela República, pelo governo regional e pela câmara municipal. O espaço vaga, um centro de programação cultural, tornou-se um ponto de referência nas dinâmicas culturais de São Miguel.

Os pais de James tiveram receio quando ele quis seguir artes. Não o bloquearam, mas compreendiam que era um caminho incerto. Ele próprio admite que a ideia de desistir lhe ocorreu, mas brevemente. O que o manteve em movimento foi algo que ele chama de ambição coletiva — não a ambição pessoal de um homem, mas a ambição compartilhada de um grupo de pessoas que acreditava que a cultura podia ressignificar a periferia, que podia transformar a insularidade de algo cinzento e isolado em algo vivo e conectado.

Quando perguntam a James se sente falta de apoios, ele responde com cuidado. Há problemas estruturais no setor cultural açoriano que vêm de longe e não têm solução fácil. Mas houve mudanças. Em 2017, a lei mudou, permitindo que agentes culturais dos Açores e da Madeira concorressem a fundos nacionais. Isso, diz ele, mudou completamente o jogo. Nos últimos dez anos houve profissionalização notória. A candidatura a Capital Europeia da Cultura gerou coisas positivas. Há evoluções, mesmo que imperfeitas.

O que James quer agora é mobilização social. Quer criar entendimentos que melhorem o setor. Diz que tem um sentido de missão muito grande com os Açores. Quando as pessoas perguntam onde ele vive, ele responde que vive no Atlântico, porque estar entre Ponta Delgada e Lisboa lhe permite gerar movimentos, gerar circulação, e também ter uma dimensão crítica do que é esse lugar. Quer trazer coisas para cá, mas também quer levar artistas daqui para outros contextos. Faz o Fabric Arts Festival em Fall River, um projeto de ligação entre os Açores, a diáspora e Portugal.

Em 2026, Ponta Delgada será Capital Portuguesa da Cultura. A vaga fará parte disso. Haverá um ciclo chamado Moving Ecologies — ecologias em movimento — onde artistas açorianos e pessoas do mundo inteiro serão convidados a pensar a ecologia da ilha em vários sentidos. James quer continuar com os projetos da Anda&Fala, projetos de autonomia e capacitação. Ele sabe que nem tudo vai correr bem, que haverá falhas. Mas diz que lida bem com isso, porque a falha é um lugar muito rico. A falha ensina.

Tenho um sentido de missão muito grande com este lugar. Quando as pessoas me perguntam onde é que tu vives, digo que vivo no Atlântico porque estou entre Ponta Delgada e Lisboa.
— Jesse James
Não sou uma pessoa ambiciosa, mas sou uma pessoa que tem ambição. Há uma ambição coletiva que fez com que nunca quisesse desistir.
— Jesse James
The Hearth Conversation Another angle on the story
Inventor

Como é que se passa de um trabalho que não o satisfazia para cofundar uma estrutura que hoje emprega doze pessoas?

Model

Não foi um plano. Foi uma conversa com uma amiga, uma sensação de que tínhamos algo a contribuir, e depois a coragem de tentar. Ou talvez a falta de alternativa — estávamos em crise, e às vezes a crise abre portas.

Inventor

Seus pais tinham receio. Isso nunca o paralisou?

Model

Tiveram receio, mas não me bloquearam. Acho que compreendiam que eu precisava de tentar. E depois, passados quinze anos, veem uma estrutura profissional, com financiamento público, com pessoas a trabalhar com dignidade. Acho que isso lhes dá paz.

Inventor

Você diz que vive no Atlântico, não em Ponta Delgada ou Lisboa. O que quer dizer com isso?

Model

Quer dizer que preciso de estar entre lugares. Estar só num sítio me tornaria menos crítico, menos capaz de trazer circulação. O Atlântico é o espaço onde as coisas acontecem — entre continentes, entre pessoas, entre ideias.

Inventor

Há falta de apoios para a cultura nos Açores?

Model

É complexo. Há problemas estruturais antigos. Mas também há mudanças — a lei de 2017 foi importante, a profissionalização dos últimos dez anos foi real. Não é tudo perfeito, mas também não é tudo escuro.

Inventor

O que significa ressignificar a periferia?

Model

Significa parar de pensar nos Açores como um lugar cinzento, isolado, sem futuro. Significa mostrar que aqui há criatividade, que aqui há gente que pensa, que faz, que conecta. A cultura é a ferramenta para isso.

Inventor

E se tudo isto falhar?

Model

Então aprendemos. A falha é um lugar muito rico. Ensina-nos coisas que o sucesso nunca ensinaria.

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