Primeira intervenção conjunta em 30 anos: Japão e EUA atuaram na sexta-feira para conter volatilidade excessiva do iene, que atingiu mínima de 40 anos. Japão pode ter desembolsado 8,45 trilhões de ienes; EUA venderam euros para comprar ienes, medida incomum que sinalizou compromisso político com a estabilidade.
Japão e EUA prometem novas intervenções para sustentar o iene
Não hesitaremos em realizar novas intervenções conjuntas
Por que Japão e EUA precisaram intervir juntos? Não poderia o Japão ter feito isso sozinho?
Poderia ter tentado, mas a escala do problema exigia mais força. O iene estava em queda livre há meses, e investidores estavam apostando contra a moeda. Quando dois países agem juntos, especialmente uma potência econômica como os EUA, o mercado leva mais a sério. É um sinal de que a situação é grave e que há compromisso político real.
E por que os EUA se importam com o iene? Não é problema do Japão?
Porque quando o iene desaba, afeta os mercados globais de títulos. Se os rendimentos dos títulos japoneses sobem muito, investidores rebalanceiam suas carteiras em todo o mundo, incluindo títulos americanos. É contágio financeiro. Os EUA estavam protegendo seus próprios mercados tanto quanto ajudando o Japão.
Vender euros para comprar ienes—isso é realmente incomum?
Muito. Normalmente, um país vende seus próprios títulos do Tesouro para conseguir dólares e depois compra sua própria moeda. Vender euros é um gesto simbólico muito mais forte. Diz: estamos dispostos a sacrificar outras moedas para fazer isso funcionar. Foi uma mensagem.
Mas a intervenção vai resolver o problema do iene?
Não, não vai. Pode conter a volatilidade por um tempo, afastar especuladores. Mas sem aumentos de juros reais do Banco do Japão, o iene voltará a cair. A intervenção é um curativo. Os juros são a cura.
Então por que não simplesmente aumentar os juros desde o início?
Porque o Japão tem uma economia frágil. Aumentar juros muito rápido pode desacelerar o crescimento, prejudicar empresas endividadas. É um dilema: você quer um iene mais forte, mas não quer matar a economia. A intervenção compra tempo enquanto eles decidem quanto aumentar e com que rapidez.
El Pulso
- Primeira intervenção cambial conjunta Japão-EUA em quase 30 anos, executada na sexta-feira 31 de julho
- Japão desembolsou aproximadamente 8,45 trilhões de ienes (US$ 273,3 bilhões) para sustentar a moeda
- Iene atingiu seu nível mais baixo em relação ao dólar desde 1986, chegando a 164 ienes por dólar em julho
- EUA venderam euros para comprar ienes, medida incomum que sinalizou compromisso político extraordinário
Primeira intervenção conjunta em 30 anos: Japão e EUA atuaram na sexta-feira para conter volatilidade excessiva do iene, que atingiu mínima de 40 anos. Japão pode ter desembolsado 8,45 trilhões de ienes; EUA venderam euros para comprar ienes, medida incomum que sinalizou compromisso político com a estabilidade.
Japão e Estados Unidos confirmam intervenção conjunta no mercado cambial para sustentar o enfraquecido iene, primeira ação coordenada em quase 30 anos, com promessa de novas medidas se necessário.
Na sexta-feira passada, Japão e Estados Unidos executaram uma operação de mercado que não tinha precedentes em quase três décadas: uma intervenção cambial coordenada para sustentar o iene, que vinha desabando contra o dólar. A ministra das Finanças do Japão, Satsuki Katayama, confirmou a ação na segunda-feira, descrevendo-a como um esforço bem-sucedido para conter a volatilidade excessiva e os movimentos desordenados que vinham marcando a moeda japonesa nos últimos meses.
O contexto que levou a essa decisão conjunta é grave. O iene havia atingido seu pior nível em relação ao dólar desde 1986, caindo perto de 164 ienes por dólar em julho. Investidores temiam que os planos de gastos da primeira-ministra Sanae Takaichi alimentassem a inflação, e a desvalorização da moeda ameaçava intensificar ainda mais esse problema, abalando também o mercado de títulos. O Japão, segundo analistas, desembolsou aproximadamente 8,45 trilhões de ienes—cerca de 273 bilhões de dólares—na quinta-feira para sustentar a moeda, antes de voltar ao mercado no dia seguinte.
O que tornou essa intervenção particularmente notável foi o envolvimento direto dos Estados Unidos. O Departamento do Tesouro americano não apenas participou, mas adotou uma medida incomum: vendeu euros para comprar ienes, um sinal de compromisso político extraordinário. Um fotógrafo da Reuters havia capturado uma lista sobre a mesa do secretário do Tesouro Scott Bessent com um único item anotado: "Comprar ienes japoneses, 5 a 10 bilhões de dólares". Bessent confirmaria depois que as ações coordenadas de sexta haviam contido os movimentos desordenados e que seu departamento não hesitaria em participar de novas intervenções conjuntas.
Os efeitos foram imediatos. Após os comentários de Katayama na segunda-feira, o iene se valorizou mais de 1% em relação ao dólar, chegando a seu nível mais forte desde o início de maio, antes de recuar ligeiramente para 156,75 ienes por dólar. O índice Nikkei 225 caiu até 2,6% durante o pregão, encerrando em baixa de 0,9%. Yujiro Goto, analista-chefe de câmbio da Nomura em Tóquio, sugeriu que os movimentos acentuados foram "muito provavelmente" resultado da intervenção, com as autoridades tentando demonstrar seu compromisso com um iene mais forte.
Além da intervenção direta, Katayama revelou planos para utilizar uma linha de operações compromissadas disponibilizada pelo Federal Reserve. Isso permitiria ao Japão tomar dólares emprestados temporariamente para usar em suas operações cambiais, em vez de vender títulos do Tesouro americano. A medida reduz a pressão vendedora sobre o mercado de títulos americanos, cujos rendimentos de 30 anos atingiram na semana anterior o maior nível desde 2007. Lee Hardman, analista sênior de câmbio do MUFG, observou que com o apoio dos EUA, a intervenção será vista como mais confiável e potencialmente mais eficaz, exigindo menos vendas de títulos.
Mas há um limite para o que a intervenção cambial pode alcançar sozinha. Investidores argumentam que embora possa dissuadir especuladores de curto prazo, dificilmente criará uma valorização duradoura do iene sem aumentos mais rápidos dos juros. O Banco do Japão manteve as taxas em 1% na semana anterior, mas seu presidente, Kazuo Ueda, afirmou que o banco central não "ficaria para trás" e poderia acelerar as altas. As apostas em aumentos dos juros se intensificaram, com a probabilidade de uma alta de 0,25 ponto percentual na reunião de outubro subindo para cerca de 90%.
Masayuki Nakajima, estrategista do Mizuho, sugeriu que a justificativa dos EUA para a intervenção provavelmente refletia o desejo de evitar pressões de alta sobre os rendimentos dos títulos americanos. Movimentos acentuados nos rendimentos japoneses podem provocar um rebalanceamento de carteiras nos mercados globais de renda fixa, afetando títulos do Tesouro americano e de governos europeus. O presidente Donald Trump, questionado sobre a medida, afirmou que os EUA ganhavam "benefício financeiro" e que era "bom para a economia mundial", acrescentando que o Japão "tem sido muito bom conosco".
O que vem a seguir dependerá de duas coisas: se o Banco do Japão realmente acelera os aumentos de juros, e se a volatilidade do iene retorna a níveis que exijam novas intervenções. Katayama deixou claro que Tóquio e Washington não hesitarão em voltar ao mercado se necessário, mas a verdadeira solução para estabilizar a moeda japonesa repousa nas decisões de política monetária que o banco central tomará nos próximos meses.
Citas Notables
Essa ação conjunta conteve a volatilidade excessiva e os movimentos desordenados do iene japonês nos últimos meses. Não hesitaremos em realizar novas intervenções conjuntas.— Satsuki Katayama, ministra das Finanças do Japão
As ações cambiais coordenadas de sexta contiveram os movimentos desordenados do iene e nosso departamento não hesitará em participar de novas intervenções conjuntas.— Scott Bessent, secretário do Tesouro dos EUA