Investidor conhece o supermercado, mas ignora os fabricantes de seus fundos

Ninguém deveria conhecer apenas o atendente e ignorar o fabricante
O colunista compara a relação entre investidores e intermediários financeiros com a dinâmica de um supermercado.
Mark

Por que você acha que os investidores não conhecem os gestores se estão confiando trilhões de reais a eles?

Mimi

Porque o sistema foi construído assim. O banco ou a corretora é o intermediário que lucra com essa posição. Eles têm interesse em que você conheça o assessor, não o gestor.

Mark

Mas o assessor não deveria apresentar o gestor ao cliente?

Mimi

Deveria, teoricamente. Na prática, o assessor é quem vende o fundo. O gestor fica invisível, lá atrás, tomando as decisões que realmente importam.

Mark

E como um investidor comum consegue conhecer um gestor?

Mimi

Lendo as cartas que muitos deles escrevem. Entendendo sua filosofia de investimento, seus riscos, como reagem em crises. Não é complicado, mas ninguém ensina isso.

Mark

Você acha que isso vai mudar?

Mimi

Só se o investidor exigir. Enquanto aceitar conhecer apenas o atendente do supermercado, o sistema não muda.

  • R$ 3,59 trilhões em fundos e previdência privada são administrados por profissionais que a maioria dos investidores brasileiros sequer sabe nomear.
  • A estrutura do mercado coloca corretoras e bancos como guardiões do encontro entre investidor e gestor, tornando o intermediário mais visível do que quem realmente toma as decisões.
  • Enquanto investidores pesquisam modelos de carro por meses, aplicam fortunas em fundos sem entender a filosofia, os riscos aceitos ou o histórico de comportamento dos gestores responsáveis.
  • O mercado ensinou a comparar CDI, taxas e rentabilidade — mas ainda não ensinou a comparar processos de investimento e a cultura de gestão por trás dos números.
  • Cartas mensais de gestoras, acessíveis ao público, surgem como um primeiro passo concreto para quem quer conhecer de verdade em quem está confiando seu patrimônio.

Em meio a um dos maiores eventos do mercado financeiro brasileiro, uma lacuna silenciosa se revela: os investidores conhecem os intermediários que lhes vendem produtos, mas ignoram os gestores que, de fato, decidem o destino de R$ 3,59 trilhões em fundos e previdência privada. É uma assimetria antiga entre quem confia e quem decide — e que o mercado ainda não aprendeu a corrigir com educação, apenas com taxas e rentabilidade passada.

Caminhando entre os estandes da Expert XP, evento que reúne milhares de profissionais e investidores do mercado financeiro, o colunista percebeu algo perturbador: a maioria das pessoas presentes não sabia quem eram os profissionais que controlavam grande parte de suas economias. Não os assessores ou gerentes de banco — esses circulavam à vontade —, mas os gestores de fundos, aqueles que de fato decidem se o dinheiro vai para o Tesouro, para debêntures ou para ações específicas.

Os números revelam a dimensão do problema. Dos R$ 8,5 trilhões que os brasileiros tinham aplicados ao fim de 2025, R$ 3,59 trilhões estavam em fundos de investimento ou previdência privada. Para efeito de comparação, as ações mantidas diretamente por pessoas físicas somavam R$ 807,3 bilhões — menos de um quarto desse valor. A maioria do dinheiro, portanto, está nas mãos de gestores desconhecidos.

Parte dessa invisibilidade é estrutural: gestoras dependem de corretoras e bancos para chegar aos investidores, e por isso investem pesado em presença nesses eventos — enquanto o intermediário permanece como o rosto mais familiar da relação. A analogia proposta é direta: o assessor é o atendente do supermercado, mas a decisão de compra deveria ser guiada pela marca do produto, não pela prateleira onde ele está exposto.

O mercado avançou ao ensinar o investidor a comparar rentabilidade e taxas, mas ainda não o ensinou a comparar processos de investimento. Conhecer uma gestora não exige decorar currículos — exige entender como seus profissionais pensam, quais riscos aceitam e como reagem diante de adversidades. As cartas mensais que muitas gestoras publicam são um ponto de partida acessível para quem quer saber, de verdade, em quem está confiando seu patrimônio.

Estive semana passada na Expert XP, aquele evento gigantesco que a corretora monta todo ano — assim como faz o BTG Pactual — reunindo centenas de empresas do mercado financeiro e milhares de profissionais e investidores em um único espaço. Caminhando entre os estandes das gestoras de fundos, percebi algo que não sai da cabeça: a maioria das pessoas ali não fazia ideia de quem eram os profissionais que controlavam grande parte de suas economias.

Não estou falando dos assessores de investimento ou dos gerentes de banco. Esses estão sempre à vontade nesses eventos, levando clientes de um lado para o outro, provavelmente mandando mensagens no WhatsApp depois. Estou falando dos gestores — aqueles que de verdade decidem para onde o dinheiro vai depois que você o aplica. Um assessor pode te informar que existe um fundo de renda fixa. Mas é o gestor quem escolhe se o dinheiro fica em títulos do Tesouro, em papéis bancários, em debêntures ou em outros instrumentos. Em um fundo de ações, é ele ou ela quem decide comprar Petrobras, vender Vale ou ficar longe das duas. Sempre dentro do que o fundo promete fazer.

Os números ajudam a entender a dimensão do problema. Os brasileiros terminaram 2025 com R$ 8,5 trilhões aplicados em produtos financeiros, conforme a Anbima. Desse total, R$ 3,59 trilhões estavam em fundos de investimento ou previdência privada. Falamos o tempo todo sobre as empresas com ação na Bolsa, sobre as variações do Ibovespa, mas no fim do ano passado as ações que as pessoas físicas mantinham diretamente somavam apenas R$ 807,3 bilhões — menos de um quarto do que estava em fundos e previdência. Ou seja, a maioria do dinheiro dos investidores está nas mãos de gestores que eles não conhecem.

Parte do problema está na estrutura do mercado. Tanto os gestores de fundos quanto os investidores dependem das corretoras e bancos para se encontrarem. Por isso gestoras pagam centenas de milhares de reais, às vezes milhões, para expor seus produtos e distribuir brindes em eventos como a Expert XP ou o BTG Summit. É o intermediário que controla o encontro entre quem tem o dinheiro e quem o investe.

Pense em um supermercado. O assessor é como o atendente que te mostra onde estão os produtos e te ajuda a pegar um ou outro que pareça interessante. Mas a marca do vinho ou do extrato de tomate deveria ser a razão principal para sua decisão, não o lugar deles na prateleira. Não faz sentido que alguém passe meses analisando a diferença entre modelos de carros antes de comprar, mas aplique suas finanças em fundos sem entender quem são as empresas e os profissionais que os conduzem.

O mercado evoluiu e ensinou o investidor a comparar rentabilidade, taxa de administração e desempenho contra o CDI. Falta ensiná-lo a comparar processos de investimento. Ter confiança no assessor e no gerente é importante, claro. Mas ninguém deveria conhecer apenas o atendente do supermercado e ignorar o fabricante do produto que está levando para casa.

Conhecer uma gestora não significa decorar o currículo de seus executivos. Significa entender como pensam, o que levam em conta para tomar decisões, quais riscos aceitam correr e como reagem quando algo dá errado. Muitos gestores escrevem cartas mensais que circulam entre profissionais do mercado. Acessá-las é um bom primeiro passo para quem quer saber de verdade em quem está confiando seu dinheiro.

O mercado evoluiu e ensinou o investidor a comparar rentabilidade, taxa de administração e desempenho contra o CDI. Falta ensiná-lo a comparar processos de investimento.
— Colunista Marcos de Vasconcellos
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