Muito antes de qualquer laboratório, imaginávamos os insetos como engrenagens perfeitas, cumprindo rotinas sem desvio, como se cada um fosse apenas a cópia do anterior. Agora, em estudos que ganham espaço em revistas científicas, surge uma imagem mais íntima: mesmo entre criaturas tão pequenas, cada indivíduo parece reagir ao mundo à sua própria maneira. Essa descoberta, sustentada por pesquisas no Brasil e no exterior, reabre uma velha pergunta sobre o que nos diferencia do resto da vida, e sugere que a diversidade de temperamentos talvez seja uma das formas silenciosas com que a natureza se
Insetos têm personalidade própria e desafiam a visão de que seriam meros minirrobôs
Não reagiram: havia diferenças significativas entre os indivíduos.
Por que importa saber que uma larva de mosquito tem personalidade?
Porque muda a pergunta. Em vez de tratar a espécie como uma máquina uniforme, os pesquisadores veem indivíduos que reagem de formas diferentes ao mesmo estímulo. No estudo da Nature, 41 larvas de Aedes albopictus mostraram diferenças em atividade, exploração e ousadia.
Como se mede ousadia numa larva?
Com o tempo que ela leva para emergir na água depois de um estímulo ameaçador vindo do ar. Quanto mais demora, mais tímida.
Quarenta e uma larvas é uma amostra pequena, e foi em laboratório. A reportagem diz que o ambiente controlado pode levar a comportamentos diferentes dos da vida livre.
Exato, e a própria pesquisadora Janiele da Silva reconhece isso. Em campo o problema é outro: é preciso marcar e reencontrar o mesmo inseto para ver se a resposta se repete.
E nos insetos sociais, como formigas e abelhas?
Há personalidade em três níveis: colônia, casta e indivíduo. Entre as cortadeiras, os soldados tendem a ser mais agressivos. Mas Raul Guedes pondera que a rigidez do sistema pode reduzir a variação individual.
E sobre a metamorfose, o que se sabe? Pelo que li, nada está resolvido.
Certo. Há estudos dizendo que o adulto não herda os traços da larva e outros dizendo que herda. A questão segue aberta.
Sobre os grilos, a frase é cautelosa: os resultados "sugerem" adaptação local. Não é prova definitiva.
E o uso prático?
Entender essa variação pode ajudar no controle de pragas agrícolas e de mosquitos transmissores de doenças.
Der Puls
- Quarenta e uma larvas do mosquito Aedes albopictus, submetidas às mesmas condições, responderam de formas distintas, desafiando a ideia de reações automáticas.
- Pesquisadores medem atividade, exploração e ousadia de cada indivíduo, enfrentando o desafio de acompanhar o mesmo animal por tempo suficiente para confirmar que sua resposta se repete.
- Nas colônias de formigas e abelhas, a personalidade aparece em três níveis, da colônia às castas, e soldados de formigas-cortadeiras se mostram mais agressivos.
- A variabilidade individual é vista como possível vantagem evolutiva, já que nenhum cenário futuro é certo e diferentes temperamentos podem sobreviver a contextos distintos.
- O conhecimento caminha para aplicações práticas, como o controle de pragas agrícolas e de mosquitos transmissores de doenças, ainda em fase de exploração.
Muito antes de qualquer laboratório, imaginávamos os insetos como engrenagens perfeitas, cumprindo rotinas sem desvio, como se cada um fosse apenas a cópia do anterior. Agora, em estudos que ganham espaço em revistas científicas, surge uma imagem mais íntima: mesmo entre criaturas tão pequenas, cada indivíduo parece reagir ao mundo à sua própria maneira. Essa descoberta, sustentada por pesquisas no Brasil e no exterior, reabre uma velha pergunta sobre o que nos diferencia do resto da vida, e sugere que a diversidade de temperamentos talvez seja uma das formas silenciosas com que a natureza se prepara para o imprevisto.
Quarenta e uma larvas do mosquito Aedes albopictus foram colocadas, uma a uma, nas mesmas situações. A expectativa dos pesquisadores era que todas reagissem igualmente. Não foi o que aconteceu. Um estudo publicado na revista Nature no ano passado encontrou diferenças significativas entre os indivíduos, reforçando a ideia de que a personalidade não é exclusiva dos humanos e pode surgir também em mosquitos, baratas, grilos, abelhas e formigas.
Para o professor Ângelo Parise Pinto, da Universidade Federal do Paraná, personalidade nesses animais são traços próprios de cada indivíduo, que responde aos estímulos de forma única. A visão contraria a imagem dos insetos como pequenos robôs que seguem programas simples e repetitivos. Nas larvas, os cientistas mediram o tempo de movimento, a exploração de espaços novos e a ousadia diante de um estímulo ameaçador.
Fazer esse tipo de observação no campo é difícil, pois é preciso marcar e reencontrar os mesmos animais, e uma resposta só conta como traço de personalidade se for repetida. No laboratório, o controle é maior, mas os comportamentos podem não refletir a vida livre.
Entre os insetos sociais, a personalidade aparece na colônia, nas castas e nos indivíduos. Como os membros de uma colônia costumam ser geneticamente parecidos, a experiência e o ambiente pesam bastante nas diferenças. Entre as formigas-cortadeiras, os soldados tendem a ser mais agressivos. Já nos insetos não sociais, a variação é mais livre, o que, nas palavras de um dos pesquisadores, é um verdadeiro carnaval.
Ainda há muito a entender sobre como essas personalidades influenciam a evolução. Um estudo com grilos de duas populações mostrou que os machos sob mais pressão de predadores eram menos ousados, o que sugere adaptação local. A diversidade individual pode ser justamente uma forma de garantir que alguns animais estejam preparados para cenários imprevisíveis. Na prática, o conhecimento pode ajudar no controle de pragas agrícolas e de mosquitos que transmitem doenças.
Quarenta e uma larvas do mosquito Aedes albopictus foram colocadas, uma a uma, nas mesmas situações. Os pesquisadores queriam saber se elas reagiriam do mesmo jeito. Não reagiram: o artigo, publicado no ano passado na revista Nature, encontrou diferenças significativas entre os indivíduos. É um dos trabalhos que sustentam a ideia de que personalidade não é exclusividade do Homo sapiens e aparece também em mosquitos, baratas, grilos, abelhas e formigas.
Para Ângelo Parise Pinto, professor do Departamento de Zoologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), personalidade, nesses animais, são traços comportamentais próprios de cada indivíduo, que responde de maneira diferente aos estímulos. A noção contraria a visão de que os insetos seriam "minirrobôs" que obedecem a programas muito simples e repetem rotinas.
No experimento com as larvas, os cientistas mediram quanto tempo cada uma passou se movendo, o que define o traço chamado atividade. Também avaliaram o quanto cada indivíduo era explorador, isto é, quanto circulava por áreas distintas de um espaço novo. Em outro teste, calcularam a ousadia ou timidez: após um estímulo ameaçador vindo do ar, mediram quanto tempo a larva demorava para voltar à superfície da água, o que indica a disposição de se expor ao perigo.
Segundo a pós-doutoranda Janiele Pereira da Silva, do Instituto de Biociências da Unesp, são cinco os grandes aspectos geralmente estudados na personalidade de insetos. Além dos usados no trabalho com o Aedes, há a sociabilidade e a agressividade. Como já se constatou que os insetos têm individualidade, as pesquisas agora avançam para questões mais específicas, como a evolução desses animais e o efeito da metamorfose. Há estudos indicando que os adultos não carregam os traços da fase larval; outros sugerem que os comportamentos das larvas permanecem na vida adulta.
Investigar o tema tem obstáculos. No campo, é difícil acompanhar o mesmo indivíduo, que precisa ser marcado para ser reencontrado, já que uma resposta só conta como personalidade se for repetida. O pesquisador também precisa esperar que a situação surja naturalmente. No laboratório, onde o ambiente é controlado, essas dificuldades diminuem, mas há o risco de os comportamentos observados diferirem dos que os animais teriam em vida livre.
Entre os insetos sociais, como formigas e abelhas, Silva explica que há personalidade no nível da colônia, das castas e do indivíduo. Uma colônia pode ser mais agressiva que outra e atacar mais em disputas por alimento. Como indivíduos de uma mesma colônia costumam ter genética parecida, a experiência e a interação com o ambiente têm papel importante nas diferenças individuais. Raul Guedes, professor do Departamento de Entomologia da Universidade Federal de Viçosa (UFV), lembra que cada casta é especializada numa atividade e, por isso, difere das outras: entre as formigas-cortadeiras, os soldados tendem a ser mais agressivos. Como o sistema dos insetos sociais é mais rígido, a variação individual pode ser menor. Já nos não sociais, diz ele, "é um carnaval danado", porque as funções não são tão pré-estabelecidas.
O artigo sobre o Aedes aponta que um número crescente de trabalhos indica que personalidades podem influenciar processos evolutivos. Guedes explica que certas personalidades podem ser favorecidas ou não conforme o contexto, e que a variabilidade individual talvez seja importante justamente porque ninguém sabe qual contexto prevalecerá: a diversidade garante que alguns indivíduos lidem melhor com a situação. Uma pesquisa com duas populações de grilos da mesma espécie mostrou que machos sob maior pressão de predadores eram menos ousados e passavam mais tempo escondidos no laboratório, o que sugere adaptação local.
Na ecologia, o estudo ajuda a entender a evolução das populações e o comportamento de grupos em seu contexto. Também pode contribuir para o controle de animais nocivos aos humanos, como pragas agrícolas e mosquitos que se alimentam de sangue e podem transmitir doenças.
Bemerkenswerte Zitate
Se não for um inseto social, é um carnaval danado, porque não tem as funções muito pré-estabelecidas.— Raul Guedes, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV)
Insetos não seriam minirrobôs que respondem a programas simples e repetem rotinas; cada indivíduo responde de modo próprio aos estímulos.— Ângelo Parise Pinto, professor da UFPR (paráfrase)