Incertezas sobre cessar-fogo e estoques reduzidos mantêm gasolina cara no Brasil

Como a alta foi moderada, não há espaço para quedas intensas
Economista explica por que subsídios governamentais que contiveram inflação agora limitam redução de preços.
Mark

Por que o petróleo caiu tanto desde abril e a gasolina não acompanhou?

Mimi

Porque o Brasil conteve o repasse dos aumentos com subsídios governamentais. Quando você freia a alta, também freia a queda.

Luke

Mas quanto exatamente o governo gastou? Mais de R$ 30 bilhões é o número que temos, mas é difícil saber se isso foi suficiente ou se houve outras pressões.

Mark

E o conflito no Oriente Médio — está realmente resolvido?

Mimi

Não. Houve um acordo preliminar em junho, mas foi quebrado várias vezes. Agora há uma nova onda de ataques, então o mercado segue assustado.

Luke

Aqui é importante notar: ninguém sabe quando isso vai terminar de verdade. Os analistas falam em "sinalização concreta do fim definitivo", mas ninguém tem certeza do que isso significa ou quando acontece.

Mark

E os estoques globais — estão realmente tão baixos?

Mimi

Sim. Tanto a OCDE quanto os EUA têm níveis historicamente baixos. Isso significa que qualquer interrupção no fornecimento causa pânico.

Luke

Mas "historicamente baixo" é relativo. Seria útil saber em comparação com quê — com 2020? Com 2015? A reportagem não especifica.

Mark

Então quando a gasolina vai cair?

Mimi

Quando o conflito terminar de verdade, os portos forem reconstruídos e os estoques se recuperarem. Mas ninguém sabe quando isso acontece.

Luke

E mesmo que aconteça, o governo pode decidir manter subsídios por razões políticas. Isso também não está claro.

  • Petróleo Brent caiu de US$ 118,03 em abril para US$ 83,30 em julho
  • Gasolina acumula alta de 5% e diesel de 10% desde fevereiro no Brasil
  • Governo federal destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas de contenção de combustíveis
  • Bloqueio naval dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz afeta 20% do comércio global de petróleo
  • Estoques globais de petróleo estão em níveis historicamente baixos

Petróleo Brent caiu de US$ 118 em abril para US$ 83 em julho, mas gasolina e diesel acumulam altas de 5% e 10% desde fevereiro no Brasil. Bloqueio naval dos EUA ao Irã no Estreito de Ormuz e estoques históricos baixos mantêm mercado em alerta, enquanto governo brasileiro conteve repassos com subsídios.

Especialistas apontam que incertezas sobre cessar-fogo no Oriente Médio, estoques reduzidos globais e subsídios governamentais explicam por que combustíveis não caem nos postos brasileiros apesar de queda recente do petróleo.

O preço da gasolina nas bombas brasileiras segue alto, mesmo depois que o petróleo caiu significativamente nos últimos meses. O barril de Brent, referência internacional, fechou julho cotado a US$ 83,30 — uma queda considerável em relação ao pico de US$ 118,03 registrado em abril. Apesar dessa descompressão, porém, a gasolina acumula alta de cerca de 5% desde o início de fevereiro, quando começou o conflito no Oriente Médio, enquanto o diesel subiu aproximadamente 10% no mesmo período. A explicação para essa defasagem está em uma combinação de fatores que especialistas apontam como responsáveis por manter os combustíveis caros nas bombas brasileiras.

O cenário internacional permanece frágil. Um acordo preliminar foi assinado em meados de junho para encerrar o conflito entre EUA e Irã, mas a trégua se mostrou instável. Menos de duas semanas depois, os dois países voltaram a trocar ataques com mísseis e drones, acusando-se mutuamente de violar o cessar-fogo provisório. Após dias de confrontos, concordaram em interromper as hostilidades e retomar negociações, com Catar e Paquistão atuando como mediadores. Representantes dos países envolvidos relataram um avanço positivo nas conversas, mas nos últimos dias uma nova onda de ataques voltou a colocar o frágil acordo em xeque. O presidente dos EUA retomou o bloqueio naval ao Irã no Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do comércio global de petróleo, e ameaçou cobrar um pedágio de 20% sobre navios que passassem pelo canal — embora tenha recuado e dito que substituiria a taxa por acordos comerciais e de investimentos com países do Golfo.

Essa instabilidade geopolítica alimenta a incerteza nos mercados. Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX, explica que a imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e, consequentemente, dos combustíveis derivados, porque ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados entre os dois países. Além disso, o tráfego limitado no Estreito de Ormuz aumenta as preocupações quanto à oferta global de petróleo, enquanto a demanda continua elevada, impulsionada pelo verão no Hemisfério Norte, período em que o consumo de energia atinge níveis mais altos nos EUA e na Europa. Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados, destaca que o mundo vive uma queda histórica nos estoques de petróleo — tanto a OCDE quanto os EUA apresentam níveis bastante baixos. Para que os preços caiam de forma significativa, seria necessária uma sinalização concreta do fim definitivo do conflito, o que permitiria a retirada de minas da região, a reconstrução dos portos destruídos e a retomada das operações — um processo que leva tempo.

No Brasil, o governo federal atuou para conter o impacto dos combustíveis sobre a inflação. Destinou mais de R$ 30 bilhões a medidas de contenção, e a Petrobras também agiu para conter os preços nos momentos mais críticos, evitando repassar imediatamente os aumentos aos consumidores. O resultado é que o Brasil registrou uma alta mais moderada nos preços dos combustíveis do que a observada nos EUA e em países europeus. Mas essa contenção tem um lado inverso: como a alta foi mais moderada, não há espaço para quedas também muito intensas. Recentemente, por exemplo, a Petrobras reduziu o preço do diesel nas refinarias em R$ 0,35 após o encerramento do subsídio governamental. Como a queda apenas compensou o fim do benefício, os preços praticados para as distribuidoras permaneceram inalterados. O governo também adiou a decisão sobre a retirada do subsídio à gasolina após a nova escalada do conflito no Oriente Médio.

Outras medidas em discussão, como o aumento da mistura obrigatória de etanol na gasolina de 30% para 32%, não devem ser suficientes para provocar uma redução relevante dos preços nos postos. Cordeiro observa que esse aumento é importante, mas por si só não deve se refletir em uma redução significativa. O principal fator que vai determinar a alta ou a queda dos preços, segundo ele, é a situação do mercado internacional e a forma como esse movimento se transmite aos produtos importados que chegam aos portos brasileiros. Enquanto a incerteza sobre o cessar-fogo persistir, enquanto os estoques globais permanecerem historicamente baixos e enquanto o governo manter subsídios aos combustíveis, a queda nos preços das bombas brasileiras seguirá limitada — mesmo que o petróleo internacional continue caindo.

A imprevisibilidade ainda dita os preços do petróleo e ainda existem muitos pontos sensíveis a serem negociados entre os dois países
— Bruno Cordeiro, analista de inteligência de mercado da StoneX
Vivemos uma queda histórica nos estoques. Seria necessária uma sinalização concreta do fim definitivo do conflito para iniciar a retirada de minas da região e a retomada das operações
— Sérgio Vale, economista-chefe da MB Associados
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