Inadimplência alta testa modelo de crescimento acelerado do Nubank

O Nubank só aumenta meu limite. Estou quase pedindo para diminuir
Daniele, cliente do Nubank desde 2018, contrasta sua experiência com a rejeição de bancos tradicionais.
Mark

Por que o Nubank consegue tolerar inadimplência mais alta que os bancos tradicionais?

Mimi

Porque seus custos operacionais são muito mais baixos. Sem agências físicas e com menos funcionários, o banco gasta menos para servir cada cliente. Isso significa que pode lucrar mesmo com taxas de atraso maiores.

Luke

Mas há quanto tempo isso é verdade? Os números que temos são de junho e julho. A inadimplência está subindo. Em que ponto o modelo quebra?

Mark

O programa Desenrola foi importante para o Nubank?

Mimi

Muito. Economizou 85 milhões de dólares em custos de crédito e trouxe 1,2 bilhão de reais em contratos que o banco não esperava receber. Mas o programa acabou em agosto.

Luke

Então agora o banco perde esse colchão. E a inadimplência continua subindo. Isso é um problema real.

Mark

O CEO disse que ainda há espaço para crescimento no Brasil. Isso é realista?

Mimi

Tecnicamente sim. O Nubank faz dezessete dólares por cliente enquanto os grandes bancos fazem quarenta e cinco. Mas o desafio é crescer na média e alta renda, onde o custo operacional baixo não faz tanta diferença.

Luke

E enquanto isso, a base de clientes de baixa renda—que é onde o Nubank é forte—está cada vez mais endividada. Não é claro que há espaço para crescer ali.

Mark

Qual é o maior risco para o Nubank agora?

Mimi

A combinação de inadimplência alta, juros altos por mais tempo, e desaceleração econômica. Tudo junto comprime as margens.

Luke

E ninguém sabe ao certo como isso vai se desenrolar. Os analistas esperam que a lucratividade caia de 33 para 30,8 por cento em 2027, mas isso é uma projeção. A realidade pode ser pior.

  • Inadimplência de pessoas físicas atingiu 7,8% em julho; atrasos superiores a 90 dias no Nubank chegaram a 6,9% em junho
  • Nubank bancarizou 31,5 milhões de brasileiros e é segunda maior instituição em clientes, com lucro de US$ 1,9 bilhão no primeiro semestre de 2026
  • Portfólio de crédito total do Nubank somou US$ 39,4 bilhões, salto de 37% no ano
  • ROE do Nubank ficou em 33% na primeira metade de 2026, ante 24,3% do Itaú
  • Programa Desenrola Brasil, encerrado em agosto, economizou US$ 85 milhões para o Nubank

Inadimplência de pessoas físicas atingiu 7,8% em julho, enquanto atrasos superiores a 90 dias no Nubank chegaram a 6,9% em junho. Nubank bancarizou 31,5 milhões de brasileiros e é segunda maior instituição em clientes, com lucro de US$ 1,9 bilhão no primeiro semestre de 2026.

O Nubank enfrenta teste crítico com inadimplência em alta enquanto mantém crescimento acelerado. Modelo de baixo custo operacional permite tolerância maior a atrasos, mas endividamento das famílias brasileiras ameaça rentabilidade futura.

Daniele tinha trinta anos e uma história de portas fechadas. Autônoma com renda flutuante, ela havia batido em três grandes bancos pedindo um cartão de crédito. Todas as vezes ouviu a mesma resposta: não havia crédito disponível para ela. Então chegou ao Nubank.

Em 2018, com menos de três meses de conta aberta, a instituição ofereceu um cartão com limite de trezentos reais. Seis meses depois, o teto subiu para setecentos. Depois para mil e cem. Hoje passa de cinco mil. "O primeiro banco até hoje não me deu cartão, e o Nubank só aumenta meu limite. Estou quase pedindo para diminuir", diz ela. Histórias como a de Daniele foram o combustível que moveu o Nubank durante treze anos. A fintech cresceu em um setor bancário concentrado ao fazer uma aposta simples: emprestar para quem ninguém mais emprestava.

O resultado foi espetacular em números. Segundo pesquisa da NPS Prism by Bain & Company, o Nubank bancarizou 31,5 milhões de brasileiros—quase um em cada cinco adultos do país. Hoje, seis em cada dez adultos são clientes da instituição. Em estados como Roraima, Amapá e Distrito Federal, essa proporção ultrapassa 73 por cento. Em treze anos, a empresa saltou de startup para segunda maior instituição do Brasil em número de clientes, atrás apenas da Caixa Econômica Federal. Em ativos totais, porém, o Nubank marcava 82,75 bilhões de dólares—muito aquém do Itaú, com 3,1 trilhões de reais, e do Bradesco, com 2,4 trilhões.

Agora esse modelo enfrenta seu teste mais duro. A inadimplência de pessoas físicas no Brasil fechou julho em 7,8 por cento, uma alta de 1,1 ponto percentual em um ano, segundo o Banco Central. No Nubank, os atrasos superiores a noventa dias alcançaram 6,9 por cento das operações em junho, com elevação de 0,4 ponto percentual ante março. Analistas temem que esse cenário, combinado com juros mais altos por mais tempo, desacelere o ritmo de crescimento da instituição. Ainda assim, o banco acelerou a concessão de crédito sem garantia. O lucro aumentou 62 por cento em um ano, chegando a 1,9 bilhão de dólares no primeiro semestre de 2026. O portfólio de crédito total somou 39,4 bilhões de dólares, um salto de 37 por cento no ano. Cartões de crédito corresponderam a 26 bilhões; empréstimos sem garantia, 10,3 bilhões; crédito com garantia, 3,1 bilhões.

Analistas do Citi observam que enquanto os indicadores de qualidade do cartão de crédito permaneceram estáveis, no crédito pessoal eles se deterioram. "Como resultado, o principal debate deixou de ser sobre crescimento e passou a ser se o Nubank conseguirá manter seu ritmo atual de expansão e rentabilidade em um ambiente de crédito normalizado, especialmente considerando o elevado nível de endividamento das famílias brasileiras", escrevem. O comprometimento de renda dos brasileiros e a desaceleração econômica esperada para o próximo ano são fatores que podem ampliar a inadimplência do banco.

Um programa do governo federal havia funcionado como amortecedor. O Novo Desenrola Brasil, encerrado em agosto, beneficiou o Nubank com renegociações de crédito que reduziram o custo de crédito do banco em 5 por cento, economizando 85 milhões de dólares. O Nubank foi o maior participante do programa, com cerca de 29 por cento dos contratos renegociados a prazo. Foram mais de 656 mil renegociações no banco, que após o desconto somaram 1,2 bilhão de reais. "Os recortes do programa caem justamente nos principais públicos do Nubank", afirma Thiago Batista, líder do departamento de análise e pesquisa de ações do UBS BB Investment Bank. "O Nubank tem uma base de clientes de baixa e média renda, e os principais produtos cobertos pelo Desenrola são cartão de crédito, cheque especial e crédito pessoal sem garantia."

Mas o modelo do Nubank tem uma vantagem estrutural que seus concorrentes não possuem. Pedro Leduc, analista do Itaú BBA, explica que o Nubank opera com níveis mais altos de inadimplência que grandes bancos e ainda assim com retornos elevados. "Estimamos um valor presente líquido de um empréstimo pessoal típico do Nu de três mil reais, tendo seu break-even em cerca de 28 por cento de perdas com crédito. Já um player de mais alto custo teria seu break-even em 20 por cento de perdas", diz. A fintech não tem tantos funcionários quanto os bancos tradicionais e não tem agências, o que reduz drasticamente os gastos com operações. Enquanto o Nubank gasta vinte reais por mês para dar um empréstimo, um banco tradicional gasta quarenta. Em empréstimos menores, de até três mil reais, essa diferença tem alto impacto no lucro. Em empréstimos de cinquenta mil reais, a diferença não tem tanto peso.

O ROE do Nubank ficou em 33 por cento na primeira metade de 2026, aumento de cinco pontos percentuais em relação a junho de 2025. No Itaú, o mais lucrativo entre os grandes bancos atualmente, essa métrica ficou em 24,3 por cento. Analistas esperam que a lucratividade do banco digital se reduza para 31,5 por cento até o fim de 2026 e para 30,8 por cento em 2027. O banco também investe em expansão global e na aquisição de clientes de alta renda, com produtos como o Ultravioleta e o recém-lançado Croma. No México, projeta investimento total de 4,2 bilhões de dólares até 2030. Nos Estados Unidos, lançou operações neste mês com ambição de alcançar entre 100 e 150 milhões de americanos. Ainda assim, David Vélez, CEO do Nubank, reiterou que o Brasil segue como prioridade. "Fazemos, por média, dezessete dólares por cliente, e os cinco grandes bancos no Brasil estão em quarenta e cinco dólares, então ainda podemos duplicar ou triplicar o tamanho do Nubank só no Brasil", disse durante evento em Miami. O segundo trimestre foi uma vitória clara, mas a guerra ainda não acabou.

O principal debate deixou de ser sobre crescimento e passou a ser se o Nubank conseguirá manter seu ritmo atual de expansão e rentabilidade em um ambiente de crédito normalizado
— Analistas do Citi
O modelo do Nubank aceita rodar com inadimplência estruturalmente mais alta do que os bancos tradicionais porque ele tem um custo de operar muito mais baixo
— Pedro Leduc, analista do Itaú BBA
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