Imagens do Perseverance revelam que cratera Jezero em Marte foi um lago tranquilo há 3,7 mil milhões de anos

Algo de muito profundo aconteceu na história do planeta
Benjamin Weiss, do MIT, refletindo sobre a transformação de Jezero de um lago tranquilo para um deserto árido.
Mark

Como é que imagens tiradas de um rover conseguem revelar que um lugar foi um lago há 3,7 mil milhões de anos?

Mimi

As rochas contam histórias através das suas camadas. Quando vemos sedimentos depositados em padrões específicos — em forma de leque, com rochas grandes em cima de camadas mais finas — isso só pode acontecer de uma maneira: água correndo e depositando material. Vento não faz isto.

Mark

E as rochas enormes que mencionam, transportadas dezenas de quilómetros? Como é que a água consegue fazer isso?

Mimi

Inundações episódicas. Imagine um rio tranquilo durante milhões de anos, depois uma mudança climática dramática desencadeia cheias violentas. Essas cheias têm força suficiente para mover rochas gigantescas como se fossem seixos. Elas acabam depositadas no leito do lago, onde ficam como testemunhas daquele caos.

Mark

Mas por que é que isto importa tanto para a busca de vida em Marte?

Mimi

Porque vida aquática deixa fósseis. Se havia um lago tranquilo, havia potencialmente organismos vivendo nele. Os sedimentos que se depositaram durante esses períodos de calma podem ter preservado restos desses organismos. É a primeira vez que temos uma localização concreta onde procurar.

Mark

O Perseverance já encontrou algo?

Mimi

Ainda não fósseis, mas confirmou a história geológica. Nos primeiros três meses, sem se mover do local de pouso, conseguiu resolver uma das grandes incógnitas: que esta cratera foi de facto um lago. Agora começa a verdadeira busca.

Mark

E se não encontrarem nada?

Mimi

Mesmo assim aprendemos sobre como Marte mudou. Um planeta que tinha água líquida, ambientes potencialmente habitáveis, tornou-se um deserto. Compreender esse processo é compreender o destino dos planetas.

  • A confirmação de que Jezero foi um lago real, e não uma hipótese, transforma o local num dos sítios mais promissores da busca por vida fora da Terra.
  • As camadas de sedimentos revelam dois capítulos distintos: períodos de calma lacustre seguidos de inundações violentas que arrastaram rochas enormes por dezenas de quilómetros.
  • Cientistas do MIT descrevem a paisagem atual como 'o lugar mais abandonado que alguma vez se pode visitar' — e é precisamente esse contraste com o passado que torna a descoberta tão perturbadora.
  • O Perseverance já está a recolher amostras de sedimentos que poderão conter fósseis de vida aquática, com envio para análise na Terra previsto como próximo passo crítico da missão Mars2020.

Há 3,7 mil milhões de anos, a cratera Jezero — hoje um deserto silencioso em Marte — era um lago alimentado por um rio, testemunha de um planeta radicalmente diferente do que conhecemos. As imagens captadas pelo rover Perseverance, analisadas e publicadas na revista Science, confirmam o que satélites apenas sugeriam: camadas sedimentares e formações em delta que só a água corrente pode escrever. Esta descoberta não é apenas geológica — é um convite à pergunta mais antiga da exploração espacial, agora com um endereço concreto onde procurar a resposta.

A cratera Jezero, em Marte, é hoje um deserto vasto e silencioso. Mas há 3,7 mil milhões de anos era um lago tranquilo, alimentado por um rio. As primeiras imagens do rover Perseverance, publicadas na revista Science, revelam esta transformação e abrem novas possibilidades na busca por vida no planeta vermelho.

O Perseverance pousou em Jezero a 18 de fevereiro, a pouco mais de 1,6 quilómetros de um antigo delta fluvial. Nos primeiros três meses, duas câmaras do veículo captaram imagens dos arredores que, ao chegarem à Terra, surpreenderam os cientistas: camadas distintas de sedimentos que só a água corrente poderia ter depositado. Do lado ocidental da cratera, um afloramento em forma de leque confirmava o que imagens de satélite apenas sugeriam — um verdadeiro delta de rio. As camadas contavam ainda uma história de dois tempos: longos períodos de lago calmo, interrompidos por inundações violentas que transportaram rochas enormes dezenas de quilómetros.

Benjamin Weiss, professor de ciências planetárias no MIT, resumiu a magnitude da descoberta: "Não há uma gota de água em lado nenhum, e ainda assim temos provas de um passado muito diferente. Algo de muito profundo aconteceu na história deste planeta."

A importância vai além da geologia. Com a confirmação de que Jezero foi um ambiente lacustre, a possibilidade de encontrar fósseis de vida aquática tornou-se tangível. "Temos agora a oportunidade de procurar fósseis", afirmou Tanja Bosak, professora de geobiologia no MIT. O Perseverance continuará a recolher sedimentos para envio à Terra, onde cada amostra poderá aproximar a humanidade da resposta à pergunta que define a exploração marciana: houve alguma vez vida em Marte?

A cratera Jezero, em Marte, é hoje um vasto deserto árido e desolado. Mas há 3,7 mil milhões de anos, era outra coisa completamente diferente: um lago tranquilo, alimentado por um rio que corria suavemente pelas suas margens. As primeiras imagens do rover Perseverance, analisadas e publicadas na revista científica Science, revelam esta transformação dramática — e abrem uma porta promissora na busca por sinais de vida no planeta vermelho.

O Perseverance pousou na cratera de Jezero a 18 de fevereiro, a pouco mais de 1,6 quilómetros do que os cientistas suspeitavam ser um antigo delta fluvial. Durante os primeiros três meses, enquanto os engenheiros da NASA faziam verificações remotas dos instrumentos a bordo, duas câmaras do veículo captaram imagens dos arredores. Quando essas imagens chegaram à Terra, os cientistas observaram algo notável: camadas distintas de sedimentos, depositadas de forma que só podia indicar uma coisa — água correndo para um lago, não vento ou outros processos geológicos aleatórios.

A prova estava escrita nas rochas. Do lado ocidental da cratera, um afloramento rochoso apresentava uma forma característica: um leque de sedimentos, exatamente como os deltas que se veem em rios terrestres quando desaguam em lagos ou oceanos. As imagens de satélite já tinham sugerido isto, mas agora, visto do interior da cratera pelo Perseverance, a verdade era inegável. Este tinha sido de facto um delta de rio. E não apenas isso — as camadas sedimentares contavam uma história de dois períodos distintos. Durante grande parte da sua existência, o rio desaguou num lago calmo. Depois, algo mudou. Uma transformação climática dramática desencadeou inundações episódicas, suficientemente poderosas para transportar rochas enormes dezenas de quilómetros a jusante, depositando-as no leito do lago onde ainda hoje permanecem.

Benjamin Weiss, professor de ciências planetárias no MIT e membro da equipa de análise, captou a magnitude desta descoberta com uma observação simples mas profunda. "Se olharmos para estas imagens, estamos basicamente a olhar para uma paisagem épica do deserto. É o lugar mais abandonado que alguma vez se pode visitar", disse. "Não há uma gota de água em lado nenhum, e ainda assim aqui temos provas de um passado muito diferente. Algo de muito profundo aconteceu na história do planeta."

A importância desta descoberta vai além da história geológica de Marte. A missão Mars2020, que trouxe o Perseverance até à cratera, tem como prioridade a localização de sinais de vida no planeta. E agora que os cientistas confirmaram que Jezero foi outrora um ambiente lacustre — um lago tranquilo — a possibilidade de encontrar fósseis de vida aquática tornou-se tangível. Os sedimentos depositados durante aqueles períodos de calma podem conter vestígios de organismos que um dia habitaram aquelas águas. "Temos agora a oportunidade de procurar fósseis", afirmou Tanja Bosak, professora associada de geobiologia no MIT, que também integra a equipa de análise.

O plano é claro. O Perseverance continuará a explorar a cratera, recolhendo sedimentos que serão eventualmente enviados para a Terra para análise detalhada. Cada amostra é uma oportunidade de desvendar mais sobre a evolução climática de Marte — como um planeta que outrora tinha água líquida e ambientes potencialmente habitáveis se transformou no deserto árido que é hoje. E talvez, apenas talvez, encontrar a resposta à pergunta que tem perseguido a exploração marciana: houve alguma vez vida em Marte?

Não há uma gota de água em lado nenhum, e ainda assim aqui temos provas de um passado muito diferente
— Benjamin Weiss, professor de ciências planetárias no MIT
Temos agora a oportunidade de procurar fósseis
— Tanja Bosak, professora associada de geobiologia no MIT
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