Keeta opera com lucro negativo por pedido, oferecendo cupons de até R$ 250 e descontos de 80%, gerando demanda artificial insustentável. Padrão semelhante na China resultou em fechamento de restaurantes e redução de 30-50% na renda de entregadores em 2025.
iFood denuncia Keeta ao CADE por práticas predatórias e pede intervenção imediata
A janela de intervenção foi estreita em todos os mercados
Por que o iFood está trazendo isso agora, e não antes? A Keeta já estava operando há algum tempo.
A intensidade dos subsídios parece ter aumentado recentemente. Cupons de R$ 250 e descontos de 80% criam um ponto de inflexão — quando a distorção fica tão grande que o dano começa a aparecer nos números dos restaurantes.
Mas o documento não diz quando a Keeta começou a operar no Brasil ou quando os subsídios escalaram. Sabemos que a Meituan perdeu US$ 3,4 bilhões em 2025, mas não sabemos quanto disso foi queimado especificamente no Brasil versus outros mercados.
O que exatamente o iFood está pedindo ao CADE que faça?
Três coisas: abrir um processo administrativo formal, impor uma medida preventiva imediata para parar os preços predatórios, e ganhar acesso periódico aos dados de custos e preços da Keeta para monitorar independentemente.
A medida preventiva é o ponto crítico aqui. Normalmente o CADE investiga e depois decide. O iFood está pedindo para o órgão agir antes de terminar a investigação, baseado no histórico de outros países.
Esse histórico é convincente?
Em Hong Kong, as comissões subiram de 15% para 35% depois que a Keeta dominou o mercado. No Kuwait, um concorrente saiu em dois meses. Na China, restaurantes fecharam e entregadores perderam 30% a 50% da renda.
Mas Hong Kong, Kuwait e China são mercados muito diferentes do Brasil. O documento não explica por que o padrão se repetiria aqui com a mesma velocidade ou intensidade. E não há números sobre quantos restaurantes ou entregadores brasileiros já foram afetados.
A Meituan está realmente queimando dinheiro para ganhar mercado?
Os números sugerem que sim. US$ 23 bilhões em caixa, US$ 3,4 bilhões em prejuízo operacional em 2025, e executivos disseram que os prejuízos continuariam em 2026 por causa da expansão internacional.
Verdade. Mas o documento não detalha quanto da Meituan está sendo investido especificamente no Brasil versus outros países. Sabemos que a empresa está perdendo dinheiro globalmente, mas não sabemos a proporção.
E se o CADE não agir?
O iFood argumenta que a janela de intervenção é estreita. Uma vez que a Keeta domina o mercado, como fez em Hong Kong, fica muito mais difícil reverter. As comissões sobem, os restaurantes ficam presos, os entregadores ganham menos.
Esse é o argumento de urgência. Mas também é especulativo — assume que o Brasil seguirá exatamente o mesmo caminho de Hong Kong. O CADE terá que decidir se o risco é real o suficiente para justificar uma ação preventiva antes da investigação estar completa.
Il Polso
- Keeta oferece cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%
- Meituan encerrou 2025 com US$ 23 bilhões em caixa e prejuízo operacional de US$ 3,4 bilhões
- Na China em 2025, volume de pedidos subiu 7% mas receita caiu 4%, com redução de 30-50% na renda de entregadores
- Em Hong Kong, comissões subiram de 15% para 35% após Keeta dominar 50% do mercado
Keeta opera com lucro negativo por pedido, oferecendo cupons de até R$ 250 e descontos de 80%, gerando demanda artificial insustentável. Padrão semelhante na China resultou em fechamento de restaurantes e redução de 30-50% na renda de entregadores em 2025.
iFood protocolou representação formal no CADE contra a Keeta, plataforma chinesa da Meituan, acusando-a de práticas predatórias com subsídios milionários para eliminar concorrentes no mercado de delivery brasileiro.
O iFood entrou com uma representação formal no Conselho Administrativo de Defesa Econômica pedindo a abertura de um processo administrativo contra a Keeta, plataforma de delivery controlada pela gigante chinesa Meituan. O pedido vem acompanhado de um requerimento para que o órgão regulador adote medidas preventivas imediatas, alegando que a concorrente opera com prejuízo por pedido e financia artificialmente suas operações com capital da matriz para eliminar competidores e dominar o setor de entrega de comida no Brasil.
Segundo o documento apresentado ao CADE, o iFood não enquadra a ação como uma simples disputa comercial, mas como resposta a um risco sistêmico que afeta todo o ecossistema nacional de delivery — plataformas, restaurantes e entregadores. A estratégia da Keeta inclui a distribuição de cupons de até R$ 250 e descontos de até 80%, criando um crescimento artificial que não se sustenta no tempo. O efeito é perverso: aumenta a frequência de pedidos sem que o consumidor gaste mais, levando restaurantes a investir em capacidade para atender a uma demanda que não é real.
O padrão denunciado já se repetiu em mercados internacionais. Um estudo da Universidade Fudan documentou o que aconteceu na China durante a guerra de subsídios em 2025: o volume de pedidos nos estabelecimentos subiu 7%, mas a receita efetiva caiu 4%, resultando no fechamento de restaurantes e na redução de 30% a 50% na renda mensal dos entregadores. Lucas Pittioni, Vice-Presidente Jurídico do iFood, afirmou que a empresa precisa desviar recursos que poderiam impulsionar o setor para enfrentar uma guerra de subsídios que não se sustenta pelo mérito, pela tecnologia ou pela qualidade do serviço.
O iFood pede ao CADE três ações concretas: a abertura formal do processo administrativo, a adoção de medida preventiva para interrupção imediata das práticas de precificação abaixo do custo, e acesso periódico do órgão aos dados de custos e preços da Keeta para monitoramento independente. A urgência se justifica pelo histórico documentado: em outros países, a saída de concorrentes e a deterioração do ecossistema ocorreram em questão de meses, antes da conclusão dos processos ordinários.
O argumento central da denúncia encontra respaldo em alertas do próprio CADE. Em junho de 2026, o Departamento de Estudos Econômicos do órgão publicou uma nota técnica advertindo para os riscos da presença de empresas com deep pockets no setor de delivery — companhias com capacidade financeira desproporcional que operam abaixo do custo por longos períodos até consolidar posição dominante. Uma análise da consultoria Compass Lexecon, anexada ao processo, demonstra que a Keeta opera com perda relevante por pedido no Brasil, em nível de subsídio incompatível com a eficiência operacional.
Na esfera jurídica, a conduta é enquadrada no artigo 36 da Lei de Defesa da Concorrência e no Guia de Preços Predatórios, que tipificam como infração a tentativa de dominar o mercado por meio de prestação de serviços abaixo do custo. O iFood sustenta que não é necessário que a Keeta tenha posição dominante para ser investigada, bastando a posse de vantagem financeira superior usada para impedir o crescimento dos concorrentes. Os balanços da Meituan reforçam a acusação: a matriz encerrou 2025 com reservas de caixa de aproximadamente US$ 23 bilhões e acumulou prejuízo operacional de US$ 3,4 bilhões no ano. Em conferências com investidores, executivos da Meituan confirmaram que a expansão internacional foi uma das principais causas do aumento das perdas e declararam que os prejuízos permaneceriam substanciais em 2026 devido ao ingresso em novos mercados.
A conduta internacional da empresa contrasta com a regulação de seu país de origem. Em 2021, o governo chinês multou a Meituan em 3,44 bilhões de yuans por práticas anticoncorrenciais. Em junho de 2026, os reguladores chineses propuseram novas regras proibindo o uso de capital para concorrência desleal e vendas abaixo do custo, classificando a prática como concorrência irracional — medida que contou com apoio da própria Meituan. Segundo o iFood, o capital preservado pela empresa em seu mercado doméstico devido à regulação estaria sendo queimado em mercados internacionais vulneráveis, como o Brasil, enquanto autoridades de locais como Dubai, Kuwait, Catar e Arábia Saudita já agiram preventivamente.
A experiência internacional detalha as consequências desse ciclo. Em Hong Kong, após a Keeta dominar mais de 50% do mercado e forçar a saída da concorrente Deliveroo, as comissões cobradas dos restaurantes subiram de 15% para até 35% em menos de um ano. No Kuwait, um concorrente local encerrou as atividades dois meses após a chegada da plataforma chinesa. Pittioni encerrou a declaração alertando que o Brasil tem a oportunidade de agir antes que o dano se consolide, ressaltando que em todos os mercados onde esse ciclo se completou, a janela de intervenção foi estreita.
Citazioni salienti
É uma pena que tenhamos que desviar recursos que poderiam ser empregados para o setor evoluir, para fazer frente a uma guerra de subsídios que não se sustenta pelo mérito— Lucas Pittioni, Vice-Presidente Jurídico do iFood
O Brasil tem a oportunidade de agir antes que o dano se consolide. Em todos os mercados onde esse ciclo se completou, a janela de intervenção foi estreita— Lucas Pittioni, Vice-Presidente Jurídico do iFood