Ao fechar o primeiro semestre de 2022, a Bolsa brasileira carregou no peito o peso de um junho que lembrou os dias mais sombrios da pandemia. O Ibovespa encerrou o período em queda de 5,99%, e o mês de junho, com recuo de 11,50%, foi o pior desde março de 2020. Por trás dos números, está um mundo que teme a desaceleração e a recessão, sustentado por juros que parecem ficar altos por mais tempo, enquanto commodities, dólar e incertezas fiscais puxam o país para baixo.
Ibovespa tem pior mês desde 2020 e fecha semestre em queda de 5,99%, com dólar em alta de 10% em junho
Pior mês do Ibovespa desde março de 2020, com queda de 11,50% em junho
Junho foi o pior mês do Ibovespa desde março de 2020. O que pesou mais?
As commodities. Vale, CSN e Petrobras caíram na quinta, e o minério acumulou queda de mais de 12% no mês, com o temor de menor crescimento global.
E a inflação americana? Veio abaixo do esperado.
Veio, 0,6% contra 0,2% esperado, mas acelerou frente aos 0,2% de abril. Segundo comentários, foi isso que preocupou.
Vale separar: a aceleração como motivo da preocupação é atribuída a comentários do mercado, não é algo medido. E a fala sobre juros altos por mais tempo é a leitura de um economista.
O dólar subiu mais de 10% em junho. Por quê?
Risco fiscal, queda das commodities que afeta a balança comercial, aperto dos bancos centrais e temor de recessão. Mesmo assim, no ano o dólar ainda cai 6,14%.
Essas causas são a explicação de analistas e do texto, sem peso individual. Não dá para dizer quanto cada fator contribuiu.
E o lado positivo?
O desemprego em 9,8%, melhor que os 10,2% esperados, e a alta de 15,39% da Fleury após a fusão com a Hermes Pardini.
Já a China segue uma incógnita: a expectativa de que contribua para o crescimento é projeção, e os dados atuais são incertos.
Der Puls
- O Ibovespa despencou 11,50% em junho, o pior mês desde março de 2020, e fechou o semestre no vermelho.
- Commodities como minério de ferro e petróleo derreteram, arrastando Vale e CSN com força e pressionando o índice.
- O dólar disparou 10,13% em junho, e o real perde terreno enquanto o risco fiscal doméstico ganha volume nas conversas.
- Os temores de juros altos por mais tempo e de recessão global seguem sem trégua, e a China é o grande ponto de interrogação para os próximos meses.
Ao fechar o primeiro semestre de 2022, a Bolsa brasileira carregou no peito o peso de um junho que lembrou os dias mais sombrios da pandemia. O Ibovespa encerrou o período em queda de 5,99%, e o mês de junho, com recuo de 11,50%, foi o pior desde março de 2020. Por trás dos números, está um mundo que teme a desaceleração e a recessão, sustentado por juros que parecem ficar altos por mais tempo, enquanto commodities, dólar e incertezas fiscais puxam o país para baixo.
O Ibovespa encerrou a quinta-feira, 30 de junho, com queda de 1,08%, fechando o primeiro semestre de 2022 com baixa de 5,99%. Saiu de 104.763 pontos em janeiro e chegou a 98.541.
Junho foi ainda mais duro: o índice recuou 11,50%, seu pior mês desde o início da pandemia. Em Nova York, os índices também sangraram, e o S&P 500 teve sua maior queda semestral desde 1970. Até a inflação americana, que veio abaixo do esperado, não trouxe alívio, pois acelerou frente a abril e reforçou o receio de juros altos por mais tempo.
O medo de recessão mundial pesou sobre as empresas de commodities. O minério de ferro caiu para US$ 120,10 a tonelada na China, e Vale e CSN perderam terreno. A curva de juros brasileira, por outro lado, fechou em baixa, acompanhando os treasuries, e o desemprego surpreendeu positivamente ao cair para 9,8%.
Mesmo assim, o dólar subiu 0,81% e fechou perto de R$ 5,23, acumulando alta de 10,13% em junho. Em meio ao tombo, a Fleury disparou 15,39% após anunciar fusão com a Hermes Pardini. O mercado agora observa a China, o risco fiscal doméstico e o comportamento do dólar.
O Ibovespa encerrou a quinta-feira, 30 de junho, com queda de 1,08%, no último pregão do primeiro semestre de 2022. Com isso, o principal índice da Bolsa brasileira fechou os seis primeiros meses do ano em baixa de 5,99%: saiu de 104.763 pontos no primeiro pregão de janeiro e chegou aos 98.541 pontos.
O resultado de junho foi ainda mais pesado. O índice recuou 11,50% no mês, o pior desempenho mensal desde março de 2020, quando o avanço da pandemia de Covid-19 pelo Brasil abalou os mercados. Na quinta, o Ibovespa seguiu em boa medida o movimento de Nova York, onde Dow Jones, S&P 500 e Nasdaq caíram 0,82%, 0,88% e 1,33%, respectivamente. Os índices americanos também deixaram o semestre feridos: o S&P 500 perdeu 20,5%, sua maior queda desde 1970, e o Nasdaq recuou 22,4%, o pior resultado desde 2008.
Nem a divulgação da inflação americana medida pelo PCE trouxe alívio. O índice subiu 0,6% em maio, abaixo do consenso, que era de 0,2%, mas acima dos 0,2% de abril, e esse movimento de aceleração preocupou os operadores. Julio Hegedus Netto, economista-chefe da Mirae, citou ainda o evento de banqueiros centrais em Lisboa, que repercutia entre os operadores. Segundo ele, o tom geral era de espera por juros e inflação elevados por mais tempo, o que desagradou ao mercado.
Luiz Adriano Martinez, gestor da Kilima Asset, afirma que a desaceleração dos dados macroeconômicos, combinada à aceleração dos ciclos de alta de juros, alimenta o temor de que o mundo caminha para a recessão, receio presente ao longo de todo o ano. Ele lembra que o semestre começou com materiais básicos e setor financeiro fortes, o que fez o Ibovespa superar os índices americanos. No caso dos materiais básicos, porém, o movimento se reverteu, e a maior parte da alta já foi devolvida.
Na quinta, as empresas de commodities fecharam em forte queda, pressionadas pela perspectiva de menor crescimento global e pelas dúvidas sobre a China. Martinez observa que o país sai de lockdowns e é esperado que contribua para o crescimento mundial nos próximos meses, mas isso ainda não acontece e os dados correntes seguem incertos. O minério de ferro recuou 2,5% no mercado à vista chinês, para US$ 120,10 a tonelada, e acumulou queda superior a 12% em junho. O petróleo caiu 1,19%, a US$ 114,88 o barril. As ações ordinárias da Vale (VALE3) e da CSN (CSNA3) perderam 2,75% e 6,61%, e as ON e PN da Petrobras (PETR3 e PETR4) recuaram 1,04% e 0,57%.
A queda das commodities ajudou a curva de juros brasileira a fechar em baixa. Os DIs para 2025 e 2027 tiveram as taxas reduzidas em cinco e 16 pontos-base, para 13,75% e 12,74%; os de 2027 e 2029 recuaram 12 e nove pontos, para 12,65% e 12,79%. Hegedus Netto diz que os DIs acompanharam os treasuries americanos, cujo título de dez anos teve a taxa reduzida em 7,6 pontos, para 3,017%.
Houve uma notícia melhor no front doméstico: a taxa de desemprego ficou em 9,8%, abaixo dos 10,2% esperados. Para Hegedus Netto, o quadro não é tão negativo, pois a economia se recupera, ainda que de forma errática. Ele ressalva, porém, que preocupam os ruídos gerados pelo grande número de medidas populistas anunciadas, que podem representar risco fiscal no médio prazo.
Esse risco, somado à queda das commodities, que afeta a balança comercial, ajuda a explicar o recuo do real. O dólar comercial subiu 0,81%, para R$ 5,234 e R$ 5,235, mesmo com o DXY em queda de 0,39%. Em junho, a moeda americana avançou 10,13%, mas no ano ainda acumula baixa de 6,14% frente ao real. Entre as maiores altas do Ibovespa, a Fleury (FLRY3) subiu 15,39% após anunciar fusão com a Hermes Pardini (PARD3), criando o maior negócio de laboratórios de exames do país; Hapvida (HAPV3) e Vivo (VIVT3) ganharam 3,99% e 3,59%. O que se acompanha daqui em diante é a China, o risco fiscal doméstico e o comportamento do dólar.
Bemerkenswerte Zitate
O tom geral é de espera por juro e inflação elevados por mais tempo, o que desagradou o mercado.— Julio Hegedus Netto, economista-chefe da Mirae
A desaceleração dos dados macroeconômicos, somada à alta dos juros, aumenta o temor de que o mundo entre em recessão.— Luiz Adriano Martinez, gestor da Kilima Asset (paráfrase)