Ibovespa fechou em 120.771,88 pontos, queda de 3,15%, a maior desde novembro de 2022, com volume financeiro de 83 bilhões de reais. Investidores temem desidratação do pacote fiscal e possível rejeição de endurecimento das regras do BPC, enquanto Fed sinaliza pausa nos cortes de juros a partir de janeiro.
Ibovespa cai 3,15% em maior queda em 2 anos com receio fiscal e sinal do Fed
O alívio monetário acaba contrabalançado pela revisão nos cortes
Por que uma queda de 3% no Ibovespa é considerada tão grave? Não é apenas volatilidade normal?
Não é só o tamanho. É a primeira vez em dois anos que cai tanto em um único dia. Isso sinaliza que os investidores perderam a paciência — não é mais especulação, é saída de posições.
E o que exatamente assusta o mercado sobre o fiscal brasileiro?
O medo é duplo. Primeiro, se o pacote não passar intacto no Senado, o governo não consegue demonstrar controle. Segundo, há rumores de que até mesmo medidas aprovadas podem ser enfraquecidas — como o caso do BPC.
Mas o Federal Reserve cortou juros, não é isso bom para o Brasil?
Em teoria, sim. Mas o Fed sinalizou que vai desacelerar os cortes. Isso significa que a moeda americana fica mais atrativa, o dólar sobe, e empresas brasileiras com dívida em dólar sofrem.
A CVC caiu 17%. Isso é só especulação ou há algo real acontecendo?
Há algo real. Empresas de turismo e consumo dependem de economia doméstica forte e dólar baixo. Com dólar alto e juros futuros subindo, elas ficam pressionadas. Não é especulação — é risco real.
Qual é o próximo passo? O mercado vai estabilizar?
Tudo depende do Senado. Se o pacote fiscal passar forte, há alívio. Se passar enfraquecido, a queda continua. Os analistas já apontam os 120 mil pontos como próximo suporte — se cair abaixo disso, fica feio.
Der Puls
- Ibovespa caiu 3,15% para 120.771,88 pontos, maior queda em dois anos
- Volume financeiro atingiu 83 bilhões de reais
- Federal Reserve sinalizou pausa nos cortes de juros a partir de janeiro
- Câmara aprovou texto-base do pacote fiscal; votação no Senado marcada para quinta-feira
Ibovespa fechou em 120.771,88 pontos, queda de 3,15%, a maior desde novembro de 2022, com volume financeiro de 83 bilhões de reais. Investidores temem desidratação do pacote fiscal e possível rejeição de endurecimento das regras do BPC, enquanto Fed sinaliza pausa nos cortes de juros a partir de janeiro.
O Ibovespa desabou 3,15% nesta quarta-feira, maior queda em dois anos, pressionado por preocupações com o cenário fiscal brasileiro e pela sinalização do Federal Reserve de ritmo mais lento nos cortes de juros.
A bolsa brasileira entrou em colapso na quarta-feira, perdendo 3,15% e encerrando o dia aos 120.771,88 pontos — a pior performance em quase dois anos. O movimento refletiu uma confluência de medos: a incerteza sobre as contas públicas do Brasil e um sinal vindo de Washington que desagradou aos mercados globais. O Federal Reserve havia cortado os juros em um quarto de ponto percentual, conforme esperado, mas sinalizou que o ritmo de reduções futuras seria mais lento, deixando em aberto a possibilidade de uma pausa a partir de janeiro. Nos Estados Unidos, as bolsas caíram e os rendimentos dos títulos do Tesouro subiram. Em São Paulo, o pessimismo foi amplificado.
O Ibovespa marcou máxima de 124.698,50 pontos durante o pregão, mas despencou para 120.457,48 na pior hora — a mínima intradia mais baixa desde junho. O volume financeiro atingiu 83 bilhões de reais, impulsionado pelo vencimento de opções sobre o índice e contratos futuros. Harrison Gonçalves, sócio da CMS Invest, interpretou a perda dos 123 mil pontos como um rompimento de suporte técnico preocupante. Segundo ele, o próximo alvo seria a zona dos 120 mil pontos, onde existe uma barreira importante.
Mas a queda não foi apenas uma questão de números técnicos. O Brasil enfrenta uma crise de confiança fiscal que tem atormentado os investidores há semanas. A Câmara dos Deputados havia aprovado na véspera o texto-base de um projeto de lei que impõe travas ao crescimento de despesas com pessoal e incentivos tributários quando há déficit primário, além de permitir o uso de superávit de quatro fundos para pagar a dívida pública entre 2025 e 2030. Trata-se de parte do pacote fiscal do governo, considerado essencial para demonstrar algum controle sobre as contas públicas. Vitor Agnello, analista educacional da CM Capital, observou que os ativos brasileiros continuam sob pressão porque agentes do mercado acompanham de perto a tramitação dessas medidas no Congresso Nacional.
Há, porém, uma corrida contra o tempo. O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, marcou a última sessão do Congresso antes do recesso parlamentar para quinta-feira, mas não descartou a possibilidade de sessões extras se necessário. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que a votação no Senado depende apenas da chegada do texto após a aprovação na Câmara. Mas existe uma preocupação adicional: a possibilidade de desidratação das medidas. Reportagem do Valor Econômico indicou que líderes partidários da Câmara fecharam acordo para rejeitar o endurecimento das regras do Benefício de Prestação Continuada, um dos pontos do pacote. Essa notícia pesou ainda mais sobre o sentimento do mercado.
As ações individuais refletiram o pânico. A CVC Brasil despencou 17,11%, pressionada pela valorização do dólar e pela alta das taxas futuras de juros — um movimento que penaliza empresas sensíveis à economia doméstica ou com endividamento elevado. A Magazine Luiza caiu 10,04%, e o índice do setor de consumo fechou com declínio de 4,33%. A Azul desabou 11,58%, após o UBS BB cortar o preço-alvo da ação de 8,50 para 5 reais e manter recomendação neutra. A companhia aérea também anunciou ofertas de troca de dívida como parte de um plano de reestruturação financeira. A Vale caiu 2,32%, acompanhando a queda dos futuros do minério de ferro na China, onde o contrato mais negociado na Bolsa de Mercadorias de Dalian encerrou com declínio de 2,63%, a 778,5 iuans (106,86 dólares) por tonelada — o nível mais baixo desde 27 de novembro.
Os bancos também sofreram. O Bradesco caiu 4,17%, o Santander Brasil cedeu 4,27%, o Itaú Unibanco perdeu 2,85% e o Banco do Brasil recuou 2,78%. O BTG Pactual encerrou em baixa de 5,48%. A Petrobras caiu 2,58%, apesar da alta do petróleo Brent no exterior, que subiu 0,27%. Houve um caso extremo: a Automob, que havia estreado na segunda-feira a 0,17 real e chegado a 0,91 real na máxima da véspera, afundou 30% nesta quarta em ajustes pós-valorização. A ação nasceu da fusão da Vamos Concessionárias com a Automob, ambas sob controle da Simpar.
Plínio Zanini, diretor de risco da Ciano Investimentos, resumiu o dilema: o alívio monetário que viria dos cortes de juros nos EUA acaba sendo contrabalançado pela revisão na perspectiva de novos cortes pelo Federal Reserve, além das incertezas fiscais do Brasil. O mercado agora aguarda a votação no Senado e observa se o pacote fiscal conseguirá passar intacto ou se sofrerá erosão política.
Bemerkenswerte Zitate
O alvo agora será os 120 mil pontos onde existe uma zona de suporte importante— Harrison Gonçalves, sócio da CMS Invest
A votação do pacote fiscal do governo no Senado depende apenas da chegada do texto após a votação na Câmara dos Deputados— Fernando Haddad, ministro da Fazenda