Há séculos, documentos codificados, papiros carbonizados e manuscritos esquecidos guardavam silêncios que nenhuma geração conseguia romper. Hoje, modelos de inteligência artificial desenvolvidos por empresas como a OpenAI estão dissolvendo esses silêncios em horas — decifrando cartas de Napoleão, reconstituindo tratados estoicos soterrados pelo Vesúvio e abrindo caminho para que milhares de textos diplomáticos europeus voltem a falar. O que está em jogo não é apenas velocidade, mas a possibilidade de reescrever lacunas inteiras da memória humana.
IA decifra carta de Napoleão e papiros em horas, tarefa que levaria semanas
Há séculos inteiros sobre os quais estamos totalmente perdidos
Por que essa carta de Napoleão importa? É apenas um documento militar entre milhares?
Não é só o documento em si. É o que ele representa: acesso a comunicações que moldaram decisões históricas. Agora podemos ler o que antes era inacessível.
Mas precisamos ser claros — a IA não "decifrou" no sentido de quebrar um código desconhecido. A carta já havia sido codificada e o método era conhecido. A IA acelerou o processo de aplicar esse método. Diferente de criar uma chave criptográfica do zero.
E esses papiros de Herculano? Como exatamente a IA consegue ler algo que está carbonizado?
Os raios X criam imagens das camadas de tinta dentro do papiro. A IA reconhece padrões de escrita nessas imagens e os transcreve. É como ensinar a máquina a ler uma escrita muito danificada.
Importante: a IA não vê o que os olhos humanos não conseguem ver. Ela processa as imagens de raios X que já existiam. O avanço é computacional, não óptico.
Dez milhões de páginas de manuscritos hebraicos. Como isso muda o trabalho de um historiador?
Muda tudo. Antes, você lia o que conseguia alcançar. Agora você pode buscar um nome, uma ideia, um padrão em milhões de documentos simultaneamente. Conexões que levaria vidas inteiras para descobrir manualmente.
Mas há um risco aqui que vale mencionar: quanto mais dados você alimenta em um sistema, mais importante fica a qualidade da transcrição inicial. Se a IA erra sistematicamente em certos caracteres, esses erros se propagam por todo o banco de dados.
Esse projeto "Back in time" na França — quantos documentos codificados eles realmente conseguem decifrar?
Milhares estão nos arquivos europeus. Mas o projeto ainda está em desenvolvimento. Não é como se tivessem uma solução universal para todos os códigos.
Exatamente. A reportagem diz que há "milhares de documentos" mas não especifica quantos já foram realmente decodificados ou qual é a taxa de sucesso. Pierrot fala sobre esperança e potencial, não sobre resultados concretos até agora.
Der Puls
- Uma carta codificada por Napoleão em 1809, que exigiria semanas de análise criptográfica, foi decifrada por um engenheiro de 27 anos em apenas seis horas com o auxílio de IA — sinalizando uma ruptura no ritmo da pesquisa histórica.
- Papiros de Herculano, carbonizados há quase dois mil anos e intocáveis por sua fragilidade extrema, foram reconstituídos virtualmente pela primeira vez, revelando um tratado estoico que nenhum ser vivo havia lido em séculos.
- Milhares de documentos diplomáticos e militares codificados dormem em arquivos europeus, representando séculos inteiros sobre os quais historiadores admitem estar 'totalmente perdidos' — e a IA surge como a primeira ferramenta capaz de enfrentar essa escala.
- O projeto Midrash avança na transcrição de dez milhões de páginas de manuscritos hebraicos, criando um banco de dados que promete revelar conexões entre pessoas, lugares e ideias que permaneceriam invisíveis para qualquer pesquisador humano trabalhando sozinho.
Há séculos, documentos codificados, papiros carbonizados e manuscritos esquecidos guardavam silêncios que nenhuma geração conseguia romper. Hoje, modelos de inteligência artificial desenvolvidos por empresas como a OpenAI estão dissolvendo esses silêncios em horas — decifrando cartas de Napoleão, reconstituindo tratados estoicos soterrados pelo Vesúvio e abrindo caminho para que milhares de textos diplomáticos europeus voltem a falar. O que está em jogo não é apenas velocidade, mas a possibilidade de reescrever lacunas inteiras da memória humana.
Carter Church, engenheiro de inteligência artificial de 27 anos, levou apenas seis horas para decifrar uma carta que Napoleão Bonaparte havia mandado codificar em 1809 — uma tarefa que, sem ferramentas digitais, consumiria semanas de análise meticulosa. Usando um modelo da OpenAI, ele revelou detalhes sobre posições militares francesas que permaneciam ocultos há mais de dois séculos. Para Church, o diferencial da IA não é criatividade, mas perseverança: a capacidade de processar e refinar soluções sem cansaço, hora após hora.
Em Herculano, o desafio era de outra natureza. Os papiros carbonizados pela erupção do Vesúvio em 79 d.C. eram tão frágeis que qualquer tentativa de abri-los os destruiria. Permaneceram ilegíveis por quase dois milênios — até que cientistas os escanearam com raios X e alimentaram as imagens em sistemas de IA. Em junho, anunciou-se a primeira reconstituição virtual completa de um desses rolos, preservado na Biblioteca Nacional de Nápoles: um tratado estoico sobre ética, segundo a papiróloga Federica Nicolardi, da Universidade de Nápoles.
Na França, o projeto 'Back in time' reúne historiadores, criptógrafos e especialistas em IA para enfrentar os milhares de documentos diplomáticos e militares codificados esquecidos em arquivos europeus. A criptógrafa Cécile Pierrot, do instituto Inria e responsável científica pelo projeto, resume a dimensão do problema: 'Há séculos inteiros sobre os quais estamos totalmente perdidos.' A equipe continua aprimorando os modelos, apostando que avanços tecnológicos preencherão essas lacunas.
Além da decodificação, a IA transforma também a escala da pesquisa histórica. O projeto Midrash utiliza inteligência artificial para transcrever dez milhões de páginas de manuscritos hebraicos — volume impossível para qualquer ser humano processar em uma vida. Daniel Stökl Ben Ezra, da École Pratique des Hautes Études em Paris, descreve o resultado como um 'grande Facebook do passado': um arquivo navegável que revela conexões entre pessoas, lugares e ideias que permaneceriam invisíveis em documentos dispersos. A tecnologia não apenas preserva a memória — ela a torna viva.
Carter Church, um engenheiro de inteligência artificial com 27 anos, enfrentou um desafio que teria consumido semanas de trabalho manual: decifrar uma carta que Napoleão Bonaparte havia ordenado codificar em 1809. A mensagem, endereçada a um de seus generais, continha detalhes sobre as posições das forças francesas e aliadas. Usando um modelo de IA desenvolvido pela OpenAI, criadora do ChatGPT, Church completou a tarefa em apenas seis horas. O que antes exigiria semanas de análise criptográfica meticulosa agora era possível em um turno de trabalho.
Esse feito ilustra uma transformação mais ampla em como pesquisadores e historiadores acessam o passado. A inteligência artificial não apenas acelera o trabalho — ela torna possível o que era praticamente impossível. Church resumiu a contribuição da tecnologia de forma direta: "O que a IA traz, acima de tudo, é perseverança." Não é criatividade ou intuição, mas a capacidade de processar, testar e refinar soluções sem cansaço, hora após hora.
Em Herculano, na Itália, pesquisadores enfrentavam um problema diferente mas igualmente intratável. Os papiros carbonizados durante a erupção do Vesúvio no ano 79 eram tão frágeis que desenrolá-los significava destruí-los. Permaneceram ilegíveis por quase dois mil anos. Recentemente, cientistas escanearam os rolos com raios X e alimentaram as imagens em sistemas de IA. Em junho, anunciaram a primeira reconstituição virtual completa de um desses papiros, preservado na Biblioteca Nacional de Nápoles. O texto revelado era um tratado estoico dedicado à ética, segundo Federica Nicolardi, professora associada de papirologia na Universidade de Nápoles. Um documento que ninguém vivo havia lido em séculos agora estava acessível.
Na França, um projeto chamado "Back in time" reúne historiadores, criptógrafos e especialistas em IA com um objetivo ambicioso: decifrar os milhares de documentos diplomáticos e militares codificados que permanecem esquecidos em arquivos europeus. Esses textos — compostos de triângulos, círculos e sinais inventados — representam lacunas inteiras na história. Cécile Pierrot, criptógrafa do Instituto Nacional de Pesquisa em Ciências e Tecnologias Digitais da França (Inria) e responsável científica pelo projeto, coloca o problema em perspectiva: "Há séculos inteiros sobre os quais estamos totalmente perdidos." Os pesquisadores continuam aprimorando o desempenho dos modelos, esperando que avanços tecnológicos proporcionem uma compreensão muito mais ampla sobre a história.
Além da decodificação, a IA oferece outra possibilidade que muda fundamentalmente como historiadores trabalham: a análise em massa. O projeto Midrash utiliza inteligência artificial para transcrever dez milhões de páginas de manuscritos hebraicos — uma quantidade que nenhum ser humano poderia processar em uma vida inteira. Daniel Stökl Ben Ezra, diretor de estudos em Ciências Históricas na École Pratique des Hautes Études em Paris, descreve o resultado como um tipo de "grande Facebook do passado". Os textos digitalizados alimentam bancos de dados consultáveis que permitem aos historiadores revelar conexões entre pessoas, lugares, textos e ideias que permaneceriam ocultas em documentos dispersos. A tecnologia não apenas preserva o passado — ela o torna navegável, conectado, vivo de formas que eram inimaginável uma década atrás.
Bemerkenswerte Zitate
O que a IA traz, acima de tudo, é perseverança— Carter Church, engenheiro de IA
Há séculos inteiros sobre os quais estamos totalmente perdidos— Cécile Pierrot, criptógrafa do Inria
Não existe ser humano capaz de processar uma quantidade dessas— Daniel Stökl Ben Ezra, diretor de estudos na École Pratique des Hautes Études