Huguinho e Justino celebram ascensão: 'Sempre acreditamos que o Botafogo ia mudar'

Histórias de superação pessoal e familiar de dois jovens que saíram de comunidades vulneráveis para se tornarem atletas profissionais de destaque.
O gol dele é como se fosse o meu também
Huguinho sobre a celebração do gol de Justino, refletindo a fraternidade entre os dois desde a infância na Maré.
Mark

O que significa para vocês ter chegado ao Botafogo justamente quando o clube estava em seu pior momento?

Mimi

Significa que a gente viu o clube de verdade. Não chegamos em um momento fácil, chegamos quando as pessoas duvidavam. Mas a gente acreditava. Quando você acredita em algo desde o começo, quando as coisas melhoram, você sente que fez parte daquilo.

Mark

Vocês mencionam muito a importância de Rodrigo Bellão. O que ele fez que foi tão diferente?

Mimi

Bellão entendeu que a gente não é só jogador. Ele se preocupa com a gente como pessoa. Se você está mal em casa, se tem algo te incomodando, ele quer saber. Porque sabe que um jogador infeliz não rende em campo. Isso mudou tudo para a gente.

Mark

Como é voltar à Maré depois de marcar um gol pelo Botafogo?

Mimi

É emocionante demais. As crianças querem foto, abraço, camisa. A mãe chora. Você vê que aquilo que você está vivendo não é só seu — é de toda a comunidade que te viu crescer. É responsabilidade e privilégio ao mesmo tempo.

Mark

Vocês se veem como referência para as crianças da favela?

Mimi

A gente não escolheu ser referência, mas a gente é. E isso nos faz trabalhar ainda mais. Porque sabemos que tem criança nos vendo, pensando que também pode chegar lá. A gente quer mostrar que é possível.

Mark

Qual foi o momento em que vocês perceberam que realmente iam ficar no profissional?

Mimi

Para mim foi quando o Bellão me chamou e disse que eu seria titular. Entrei em campo nervoso, mas focado. Fiz um bom jogo. Depois disso, não saí mais. Mas o momento real foi quando voltei à Maré e vi minha mãe chorar. Aí eu soube que tinha conseguido.

  • Dois jovens da Maré chegaram ao Botafogo em 2022, quando o clube vivia sua pior fase, e precisaram sustentar a crença no projeto enquanto o ambiente ao redor desmoronava.
  • A restrição de transferências internacionais que sufocava o clube abriu, paradoxalmente, a janela que permitiu aos garotos da base provarem seu valor diante do técnico e dos veteranos.
  • Cada gol marcado reverbera além do campo: a mãe de Justino chorou ao vê-lo chegar em casa, e Huguinho foi cercado por crianças pedindo abraços ao retornar à comunidade.
  • O coordenador Rodrigo Bellão emerge como figura silenciosa e decisiva, ao tratar os atletas como pessoas inteiras — perguntando sobre a vida fora do campo antes de cobrar rendimento dentro dele.
  • Hoje titulares e referências, os dois sustentam suas famílias com estabilidade antes inimaginável e se tornaram espelhos vivos para a próxima geração da Maré.

Da Maré ao profissionalismo, Huguinho e Justino percorreram o caminho que separa a vulnerabilidade da realização — chegando ao Botafogo num momento de crise institucional e permanecendo quando outros duvidavam. A ascensão dos dois jovens da base ao time titular não é apenas uma conquista esportiva: é o reflexo de uma fé cultivada em silêncio, que agora ilumina crianças nas mesmas vielas onde eles próprios sonharam. O futebol, aqui, é apenas o idioma de uma história maior sobre pertencimento, família e a teimosia de acreditar.

Huguinho e Justino chegaram ao Botafogo em 2022, ainda adolescentes criados na Maré, zona norte do Rio, num momento em que o clube atravessava uma de suas piores crises. Poucos acreditavam na recuperação institucional — eles acreditavam. Essa convicção, cultivada em silêncio durante anos de base, é o fio que une as duas trajetórias.

A visibilidade veio com o programa "Estação Nilton Santos", na Botafogo TV, onde os dois relembraram o caminho percorrido. Justino marcou contra o Bahia; Huguinho balançou as redes diante do Cruzeiro. Mas os gols são apenas o símbolo visível de algo mais profundo. Quando Huguinho voltou à Maré após seu primeiro gol com a camisa do Glorioso, crianças correram para abraçá-lo. A mãe de Justino chorou ao vê-lo chegar em casa no domingo seguinte a uma partida marcante.

A consolidação no elenco profissional não foi acidente. Justino foi chamado pelo técnico Martín Anselmi durante o período de restrição de transferências — a oportunidade que o clube não podia buscar fora, encontrou dentro. O zagueiro Barboza disse no vestiário: se fizesse um grande jogo, não sairia mais. Justino cumpriu. Huguinho teve conversa semelhante com Franclim Carvalho antes de estrear como titular, e correspondeu mesmo quando o Botafogo sofreu um gol — a equipe venceu 3 a 1.

Por trás das duas histórias está Rodrigo Bellão, coordenador do sub-20 que transformou a forma como o clube cuida de seus jovens. Bellão pergunta sobre a vida fora do campo, sobre o que acontece em casa, sobre o que pesa no coração. "Um dia que eu estiver mal extracampo e chegar no treino sem estar bem, isso não adianta", explicou Justino. "E o Bellão sempre se preocupa com isso."

Hoje, os dois sustentam suas famílias com uma estabilidade que antes parecia distante. Não é riqueza — é estrutura, dignidade, a possibilidade de oferecer aos pais o que eles não puderam oferecer a si mesmos. Quando Huguinho viu Justino marcar de cabeça, correu para abraçá-lo sem hesitar: "Esse moleque sempre me ajudou. O conheço desde pequeno e o considero como um irmão — o gol dele é como se fosse o meu também." O Botafogo mudou. E eles mudaram junto.

Huguinho e Justino chegaram ao Botafogo em 2022, quando o clube passava por um dos seus piores momentos. Ambos criados na Maré, comunidade na zona norte do Rio de Janeiro, os dois jovens ingressaram na base do clube ainda adolescentes — Huguinho com 14 ou 15 anos, Justino alguns anos antes — e carregavam consigo a mesma convicção: que aquele Botafogo sofrido um dia mudaria. Hoje, como titulares da equipe profissional, eles celebram não apenas a própria ascensão, mas a transformação do clube que acreditaram quando poucos acreditavam.

A trajetória de ambos ganhou visibilidade recentemente quando participaram do programa "Estação Nilton Santos", na Botafogo TV, onde relembraram o caminho percorrido. Justino marcou gol contra o Bahia, embora o resultado não tenha sido favorável; Huguinho balançou as redes diante do Cruzeiro, em vitória. Mas além dos gols, o que marca a história dos dois é a forma como transformaram a fé em realidade. "Chegamos num momento bem difícil, mas a gente sempre teve a cabeça no lugar", disse Justino. "Sempre acreditávamos que o Botafogo um dia ia mudar. E agora estamos aí nos profissionais, estamos de espelho para o menino da base."

Para Huguinho, o retorno à Maré após marcar seu primeiro gol com a camisa do Botafogo — depois de uma passagem pela Bélgica — foi especialmente tocante. Crianças pediam fotos, abraços, camisas. A mãe de Justino chorou quando o viu chegar em casa no domingo seguinte a um gol. Essas cenas, aparentemente simples, carregam o peso de uma história que começou na vulnerabilidade e chegou ao profissionalismo. "Dentro da favela, muitas pessoas se espelham na gente, principalmente as crianças", refletiu Huguinho. "Nós sempre lutamos, sempre trabalhamos para que um dia a gente viver um sonho igual estamos vivendo hoje."

A consolidação dos dois no elenco profissional não foi apenas questão de talento. Justino relembra que o técnico Martín Anselmi o chamou na sala durante o período em que o Botafogo estava sob restrição de transferências internacionais — o que significava que novos reforços não poderiam atuar. A oportunidade veio, então, para os garotos da base. Barboza, zagueiro experiente, disse no vestiário que se Justino fizesse um grande jogo, não sairia mais do profissional. Ele cumpriu a promessa. Desde então, segue como titular.

Huguinho teve experiência semelhante. Franclim Carvalho o chamou para uma conversa antes de um jogo, comunicando que seria titular. O nervosismo inicial deu lugar à concentração. Ele entrou em campo e correspondeu. Quando o Botafogo sofreu um gol contra o Corinthians, ele não se deixou abalar — havia muito tempo de jogo pela frente. A equipe venceu 3 a 1, com hat-trick de Arthur Cabral. "Fiquei focado no jogo que faltava muito minuto, bastante tempo e Deus honrou a gente", recordou.

Mas talvez o elemento mais decisivo na trajetória de ambos tenha sido Rodrigo Bellão, coordenador que chegou ao sub-20 do Botafogo e transformou a forma como o clube cuida de seus jovens atletas. Bellão não se preocupa apenas com o desempenho em campo. Pergunta como estão fora dele, se há algo errado em casa, se algo os incomoda. "Isso é muito importante na carreira", explicou Justino. "Porque um dia que eu estiver mal, ou o Huguinho estiver mal, extracampo, e chegar lá dentro do campo e não tiver bem para treinar, isso não adianta. E o Bellão sempre se preocupa com isso."

Hoje, Huguinho e Justino conseguem sustentar suas famílias em um nível que antes pareceria distante. Não é riqueza extraordinária, mas é estabilidade — morar bem, comer bem, oferecer estrutura aos pais que os criaram na Maré. Ambos reconhecem a gratidão ao Botafogo, que abriu as portas quando outros clubes não o fizeram. E quando defendem a camisa do Glorioso, fazem com raça, dedicação e trabalho. Huguinho, ao ver Justino cabecear e marcar gol contra o Cruzeiro, não hesitou: correu para comemorar. "Esse moleque aqui sempre me ajudou, o conheço desde pequeno, e eu sempre o considero como um irmão, então o gol dele é como se fosse o meu também."

A história de Huguinho e Justino não é apenas sobre futebol. É sobre dois garotos que acreditaram quando o clube estava no chão, que mantiveram a fé durante os anos difíceis, e que agora servem de espelho para outras crianças na comunidade onde cresceram. O Botafogo mudou, sim. E eles mudaram junto.

Chegamos num momento bem difícil, mas a gente sempre teve a cabeça no lugar, sempre acreditávamos que o Botafogo um dia ia mudar
— Justino
Dentro da favela, muitas pessoas se espelham na gente, principalmente as crianças, e nós sempre lutamos para que um dia a gente viver um sonho igual estamos vivendo hoje
— Huguinho
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