HIV em idosos cresce 441% em dez anos e expõe lacuna em prevenção na terceira idade

Mais de 12 mil idosos diagnosticados com HIV entre 2012 e 2022, refletindo vulnerabilidade crescente e falta de prevenção adequada nessa população.
Idosos não se veem na condição de risco porque não existe uma cultura do preservativo
A razão central por trás do aumento de 441% em diagnósticos de HIV entre maiores de 60 anos, segundo infectologista da Unifesp.
Mark

Por que exatamente idosos não se veem em risco? Não é óbvio que qualquer pessoa sexualmente ativa pode contrair HIV?

Mimi

Não é óbvio para eles, e aí está o problema. Durante toda a vida, a mensagem de prevenção foi sobre gravidez. Quando você chega aos 60, 70 anos, aquela preocupação desaparece. Ninguém nunca disse: "você precisa de preservativo para evitar infecções". A cultura simplesmente não existe.

Mark

E as medicações para disfunção erétil — como isso muda o cenário?

Mimi

Elas abrem possibilidades que não existiam antes. De repente, um homem de 70 anos pode ter uma vida sexual ativa de novo. Aplicativos de relacionamento fazem o resto. Mas ninguém parou para pensar em prevenção nesse novo contexto.

Mark

O Brasil eliminou a transmissão de mãe para filho. Como isso foi possível?

Mimi

Acesso universal. O SUS oferece tratamento gratuito para toda gestante com HIV, o que reduz a carga viral a níveis indetectáveis. Quando a carga viral é indetectável, o vírus não se transmite. Simples, mas só funciona se o sistema de saúde garante acesso para todos.

Mark

E a PrEP injetável — por que começar com homens que fazem sexo com homens?

Mimi

Porque é onde a demanda é maior e onde os dados mostram maior vulnerabilidade. Mas também porque o preço é alto. Antes de expandir para toda a população, precisam garantir que o programa seja sustentável financeiramente.

Mark

Se a PrEP não protege contra outras ISTs, qual é o ponto?

Mimi

O ponto é que HIV é a infecção mais grave. Mas você tem razão — é proteção incompleta. Por isso preservativo ainda é essencial. O problema é que ninguém está falando sobre isso com idosos.

Mark

Então o que muda agora?

Mimi

Tudo depende de conseguir fazer idosos entenderem que estão em risco. Sem isso, todos esses avanços em tratamento e prevenção não chegam até eles.

  • Entre 2012 e 2022, mais de 12 mil idosos foram diagnosticados com HIV no Brasil, revelando uma curva de crescimento que especialistas descrevem como alarmante e subestimada.
  • Medicamentos para disfunção erétil, aplicativos de relacionamento e o aumento do divórcio na terceira idade ampliaram as oportunidades sexuais de idosos sem que a cultura de prevenção os acompanhasse.
  • O Brasil eliminou a transmissão vertical do HIV e foi reconhecido pela OMS, provando que políticas públicas universais podem dobrar tendências históricas — mas esse sucesso contrasta com o avanço silencioso entre os mais velhos.
  • O número de usuários de PrEP saltou 41% em um ano, e o país inicia testes da versão injetável, aplicada a cada dois meses, com potencial de ampliar adesão entre populações de difícil alcance.
  • A PrEP protege apenas contra o HIV, não contra sífilis ou gonorreia — e sem o preservativo, idosos que não se enxergam em risco seguem expostos a um espectro mais amplo de infecções.

Em uma década, o Brasil registrou um aumento de 441% nos diagnósticos de HIV entre pessoas com 60 anos ou mais — um crescimento que não reflete falha da medicina, mas uma lacuna cultural profunda: a ideia de que a velhice protege contra o risco. Enquanto o país celebra a eliminação da transmissão vertical do HIV e expande ferramentas como a PrEP, a epidemia encontrou um novo território onde a prevenção ainda não chegou — não por falta de recursos, mas por falta de imaginação sobre quem pode ser vulnerável.

Quando os epidemiologistas identificaram o padrão, ele já estava consolidado: entre 2012 e 2022, o Brasil registrou 12.686 diagnósticos de HIV em pessoas com 60 anos ou mais, um crescimento de 441% em uma década. A infecção, que por muito tempo foi associada a outros perfis populacionais, encontrou na terceira idade um terreno onde a prevenção nunca se enraizou.

A infectologista Gisele Cristina Gosuen, da Universidade Federal de São Paulo, aponta a raiz do problema: idosos simplesmente não se enxergam em risco. Medicamentos para disfunção erétil, redes sociais e aplicativos de relacionamento criaram novas oportunidades de encontros ocasionais para essa geração — mas sem a cultura do preservativo, que historicamente esteve ligada à contracepção, não à prevenção de infecções. Para quem se considera velho, a ideia de contrair HIV raramente ocorre.

Ao mesmo tempo, o Brasil tem conquistas reais a celebrar. O país eliminou a transmissão vertical do HIV — de mãe para filho durante gestação, parto ou amamentação — e foi reconhecido pela OMS em dezembro de 2025. O SUS, ao garantir acesso universal e gratuito a exames, medicamentos e métodos preventivos, foi o instrumento dessa vitória. Mulheres que vivem com HIV podem hoje engravidar sem o medo que as desencorajava décadas atrás.

A prevenção também avança em novas direções. O Brasil começa a testar a PrEP injetável, aplicada a cada dois meses em vez de diariamente, o que pode melhorar a adesão. O número de usuários de PrEP cresceu de 165 mil para 233 mil entre 2024 e 2025 — alta de 41% em um ano. Mas a PrEP não substitui o preservativo: ela protege contra o HIV, não contra sífilis, clamídia ou gonorreia. Para idosos sem cultura de prevenção, essa lacuna é significativa, e os números da última década podem ser apenas o início de uma curva que ainda não encontrou seu teto.

Quando os epidemiologistas começaram a notar o padrão, a tendência já estava bem estabelecida. Entre 2012 e 2022, o Brasil registrou um aumento de 441% nos diagnósticos de HIV entre pessoas com 60 anos ou mais — um total de 12.686 casos em uma década. O número transformou a infecção em uma das principais preocupações da saúde pública para a população idosa, tanto aqui quanto no resto do mundo.

O crescimento não é acidental. Segundo Gisele Cristina Gosuen, infectologista da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal do Estado de São Paulo, a raiz do problema está em uma lacuna profunda de percepção de risco. Medicações para disfunção erétil, o aumento do divórcio entre idosos, as redes sociais e aplicativos de relacionamento criaram um cenário onde pessoas mais velhas têm mais oportunidades de relacionamentos ocasionais do que tinham antes. Mas essa mesma população não se enxerga como vulnerável. A cultura do preservativo nunca se enraizou entre eles porque, historicamente, a preocupação com contracepção era sobre gravidez indesejada, não sobre infecções sexualmente transmissíveis. Quando alguém se considera idoso, a ideia de estar em risco de HIV simplesmente não ocorre.

O Brasil, porém, tem razões legítimas para comemorar avanços em outras frentes da epidemia. O país eliminou a transmissão vertical do HIV — aquela que ocorre de mãe para filho durante a gestação, parto ou amamentação — e foi reconhecido pela Organização Mundial da Saúde em dezembro de 2025 por essa conquista. O feito representa mais do que um número em um relatório: significa que mulheres que vivem com HIV podem engravidar e ter filhos sem medo de transmitir o vírus. Décadas atrás, elas eram desencorajadas a ter filhos justamente por causa desse risco. O Sistema Único de Saúde, ao garantir acesso universal a exames, medicamentos e métodos preventivos de forma gratuita, foi o instrumento que tornou isso possível. A comunidade científica internacional reconheceu que esse modelo funcionou.

A prevenção segue evoluindo. O Brasil está começando a testar a PrEP injetável — uma profilaxia pré-exposição que pessoas em risco podem tomar antes de se expor sexualmente para reduzir drasticamente a chance de infecção. Diferentemente da PrEP oral, que é diária, a versão injetável é aplicada a cada dois meses, o que pode melhorar significativamente a adesão. Por enquanto, a estratégia será oferecida prioritariamente a homens que fazem sexo com homens e mulheres trans, enquanto questões de custo e sustentabilidade do programa nacional são discutidas. O número de pessoas usando PrEP cresceu de 165 mil em 2024 para 233 mil em 2025 — um aumento de 41% em apenas um ano, sinalizando que a demanda por prevenção existe e é forte.

Mas há um limite importante naquilo que a PrEP pode fazer. Ela protege especificamente contra o HIV, não contra outras infecções sexualmente transmissíveis como sífilis, clamídia ou gonorreia. Para idosos que não usam preservativo — e cuja cultura de prevenção é praticamente inexistente — essa proteção incompleta deixa brechas. O desafio agora é duplo: expandir o acesso a ferramentas como a PrEP injetável enquanto constrói uma mudança cultural profunda sobre risco sexual na terceira idade. Sem isso, os números de 2012 a 2022 podem ser apenas o começo de uma curva que continua subindo.

Uma vez se considerando idosos, eles não se veem na condição de risco, porque não existe uma cultura do uso do preservativo
— Gisele Cristina Gosuen, infectologista da Unifesp
Nós chegamos a esse ponto justamente pela existência do Sistema Único de Saúde, que promove acesso universal ao tratamento para todo cidadão brasileiro
— Gisele Cristina Gosuen
Quer a matéria completa? Leia o original em Brasil de Fato ↗
Fale Conosco FAQ